Friedrich Nietzsche: doença, morte e legado
Friedrich Wilhelm Nietzsche (15 de outubro de 1844 – 25 de agosto de 1900) foi um filósofo, filólogo, crítico da cultura e escritor alemão, considerado um dos pensadores mais influentes da filosofia moderna. Escreveu sobre arte, filologia, música, história, religião, ciência e tragédia, desenvolvendo uma crítica profunda à cultura, à religião e à filosofia ocidentais por meio da genealogia dos valores e dos conceitos morais. Seu pensamento rompeu com os padrões acadêmicos de sua época e exerceu grande influência sobre a filosofia, a psicologia, a literatura e as artes do século XX. É frequentemente considerado um dos principais precursores da Lebensphilosophie (“filosofia da vida”).
A doença de Nietzsche
O colapso mental de Nietzsche, ocorrido em janeiro de 1889 em Turim, foi inicialmente diagnosticado como sífilis terciária, de acordo com o conhecimento médico da época. A sífilis terciária é a fase tardia da infecção pela bactéria Treponema pallidum e pode atingir o cérebro e o sistema nervoso, causando alterações de comportamento, delírios, perda de memória, demência e paralisias.
Posteriormente, diversos pesquisadores questionaram esse diagnóstico. Entre as hipóteses propostas estão:
Transtorno bipolar (antiga “doença maníaco-depressiva”) com episódios psicóticos: caracteriza-se pela alternância entre fases de depressão e de mania, podendo incluir delírios e alucinações.
Demência vascular: perda progressiva das funções cognitivas causada por lesões nos vasos sanguíneos do cérebro, frequentemente associada a acidentes vasculares cerebrais (AVCs).
Meningioma retro-orbital: tumor geralmente benigno das meninges localizado atrás da órbita ocular, capaz de comprimir estruturas cerebrais e provocar alterações cognitivas e comportamentais.
Demência frontotemporal: doença neurodegenerativa que afeta principalmente os lobos frontal e temporal, alterando personalidade, comportamento e linguagem.
CADASIL: doença hereditária dos pequenos vasos cerebrais que provoca AVCs repetidos, enxaquecas e demência progressiva.
Intoxicação por mercúrio: o mercúrio era utilizado no tratamento da sífilis no século XIX e pode causar tremores, alterações psiquiátricas, dificuldades cognitivas e danos neurológicos.
Em 1898 e 1899, Nietzsche sofreu pelo menos dois acidentes vasculares cerebrais (AVCs). O AVC ocorre quando o fluxo sanguíneo cerebral é interrompido ou quando há sangramento no cérebro, podendo causar paralisia, perda da fala e outras sequelas neurológicas. Após esses episódios, ele ficou parcialmente paralisado e perdeu a capacidade de falar e andar. É provável que apresentasse hemiparesia (fraqueza de um lado do corpo) ou hemiplegia (paralisia de um lado do corpo), provavelmente no lado esquerdo.
Em agosto de 1900, Nietzsche contraiu pneumonia, infecção dos pulmões que provoca febre, tosse, dificuldade respiratória e pode ser grave em pessoas debilitadas. Durante a noite de 24 para 25 de agosto sofreu novo AVC e morreu em 25 de agosto de 1900, em Weimar.
Interpretações do colapso mental
O escritor francês Georges Bataille (1897–1962), romancista, ensaísta e filósofo ligado ao surrealismo e ao pensamento da transgressão, escreveu de forma poética sobre a loucura de Nietzsche, associando-a à experiência extrema do sagrado e da ruptura dos limites humanos.
O historiador e filósofo francês René Girard (1923–2015), conhecido pela teoria do desejo mimético e do mecanismo do bode expiatório, propôs uma interpretação psicanalítica segundo a qual Nietzsche teria mantido uma relação de rivalidade e admiração com Richard Wagner (1813–1883), compositor alemão de óperas como Tristão e Isolda e O Anel do Nibelungo. Girard relacionou as últimas cartas assinadas por Nietzsche como “Dionísio” e “O Crucificado” à ideia de divindade, sofrimento e sacrifício.
Nietzsche já havia escrito em Amanhecer (aforismo 14):
“Todos os homens superiores que eram irresistivelmente atraídos a se livrar do jugo de qualquer tipo de moralidade e a formular novas leis não tinham, se não fossem realmente loucos, outra alternativa senão se fazerem loucos ou fingirem ser loucos.”
Leonard Sax (1956–), médico e psicólogo estadunidense, sugeriu a hipótese do meningioma retro-orbital.
Michael Orth (1959–), médico e pesquisador alemão, estudou doenças neurológicas e hipóteses diagnósticas relacionadas a Nietzsche.
Michael R. Trimble (1944–), neurologista britânico especializado em epilepsia e neuropsiquiatria, participou de estudos que consideraram a possibilidade de demência frontotemporal.
A irmã de Nietzsche, Elisabeth Förster-Nietzsche (1846–1935), administrou o espólio do filósofo após sua incapacidade mental. Em 1901 publicou A Vontade de Poder, obra organizada a partir de cadernos inéditos. Muitos estudiosos consideram que a organização feita por Elisabeth não corresponde exatamente às intenções do autor, pois ela reuniu fragmentos de diferentes períodos e alterou sua disposição.
Peter Gast era o pseudônimo de Heinrich Köselitz (1854–1918), compositor, escritor e amigo íntimo de Nietzsche. Atuou como secretário, copista e colaborador editorial do filósofo durante muitos anos e pronunciou o discurso fúnebre em seu enterro em Röcken.
O filólogo italiano Mazzino Montinari (1928–1986), em parceria com Giorgio Colli, produziu a edição crítica moderna das obras completas e dos manuscritos de Nietzsche. Montinari demonstrou que A Vontade de Poder não era um livro concluído por Nietzsche e criticou fortemente a edição de Elisabeth, contribuindo decisivamente para a restauração filológica do pensamento nietzschiano.
Nietzsche foi sepultado em Röcken, próximo a Lützen, na Alemanha, ao lado de seu pai. Seu túmulo tornou-se local de interesse filosófico e histórico. Apesar das controvérsias em torno de sua doença e da edição de seus manuscritos, sua obra permanece central para a compreensão da filosofia contemporânea, influenciando autores como Heidegger, Sartre, Foucault, Deleuze e muitos outros.
Túmulo de Nietzsche em Röcken na Alemanha.
Alex
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