Raul Seixas: O Início — De Raulzito aos primeiros passos na música “Quando eu era guri, lá na Bahia, música para mim era uma coisa secundária. O que me preocupava mesmo eram os problemas da vida e da morte, o problema do homem, de onde vim, para onde vou.” Raul Santos Seixas (Salvador, 28 de junho de 1945 — São Paulo, 21 de agosto de 1989) foi cantor, compositor, produtor musical e multi-instrumentista brasileiro, frequentemente considerado um dos pioneiros do rock brasileiro. Sua obra seria marcada pela mistura de rock, baião, filosofia, misticismo, crítica social e humor. Raul nasceu às 8 horas da manhã de 28 de junho de 1945, em uma família de classe média de Salvador, na Bahia, que vivia na Avenida Sete de Setembro. Seu pai, Raul Varella Seixas, era engenheiro da estrada de ferro, enquanto sua mãe, Maria Eugênia Santos Seixas, dedicava-se às atividades domésticas. Em julho de 1945, Raul foi registrado no Cartório de Registro Civil de Salvador com o nome do pai e do avô paterno. Em 16 de setembro daquele ano, foi batizado na Igreja Matriz da Boa Viagem. Em 4 de dezembro de 1948, nasceu seu único irmão, Plínio Santos Seixas, com quem Raul manteria uma boa relação durante a infância. Seus estudos começaram em 1952, quando passou a frequentar o curso primário. Depois de concluí-lo, em 1956, fundou com alguns amigos o Club dos Cigarros um grupo de amigos que se reunia para fumar e ouvir os primeiros discos de rock and roll. O desempenho escolar de Raul começou a apresentar problemas em 1957, quando ingressou no Colégio São Bento. Segundo relatos biográficos, ele teria repetido a segunda série do ginásio durante vários anos. Em 13 de julho de 1959, Raul fundou, ao lado do amigo Waldir Serrão, o Elvis Rock Club. Waldir Serrão foi um dos amigos mais importantes da adolescência de Raul e uma das pessoas que o aproximaram ainda mais do universo do rock. A amizade entre os dois contribuiu para que Raul ampliasse sua vida social e entrasse em contato com outros jovens apaixonados pelo novo gênero musical. O Elvis Rock Club funcionava, em alguns aspectos, como uma gangue juvenil. Seus integrantes procuravam brigas nas ruas, roubavam pequenas bugigangas e quebravam vidraças. Raul, porém, não se identificava completamente com esse comportamento. A família decidiu então matriculá-lo no Colégio Interno Marista, administrado por religiosos. Foi nessa época que Raul começou a se interessar ainda mais pela leitura. Seu pai, apaixonado por livros, possuía uma vasta biblioteca em casa, e o jovem passou a encontrar nos livros uma fonte de conhecimento muito mais interessante do que aquela oferecida pela escola. Mais tarde, já adulto, Raul recordaria: “Eu era um fracasso na escola. A escola não me dizia nada do que eu queria saber. Tudo o que aprendia era nos livros, em casa ou na rua. Repeti cinco vezes a segunda série do ginásio. Nunca aprendi nada na escola. Minto. Aprendi a odiá-la.” Apesar de sua dificuldade de adaptação ao ambiente escolar, Raul continuava obrigado a frequentar as aulas. Em determinada ocasião, seu pai perguntou como ele estava indo na escola e pediu para ver seu boletim. Raul apresentou um boletim falsificado, com notas dez em todas as matérias. O pai questionou se ele realmente havia estudado, mas sua mãe, Maria Eugênia, interrompeu a conversa, dizendo que ele não estudava e passava o tempo inteiro ouvindo rock, ao som daquela “porcaria desse béngue-béngue”, de Elvis Presley, Little Richard e outros artistas que considerava responsáveis pelas “maluquices” do filho. O rock ainda era uma novidade para muitas famílias brasileiras e, como muitos adultos daquela geração, os pais de Raul tinham dificuldade para compreender o fascínio que o novo gênero exercia sobre os jovens. Raulzito e os Panteras Embora Raul tivesse desenvolvido um interesse cada vez maior pela música, seu sonho inicial era ser escritor, inspirado principalmente por autores como Jorge Amado. Jorge Amado (1912–2001) foi um dos escritores brasileiros mais importantes do século XX. Nascido na Bahia, tornou-se conhecido internacionalmente por romances como Capitães da Areia, Gabriela, Cravo e Canela e Dona Flor e Seus Dois Maridos. Sua literatura, profundamente ligada à cultura baiana, exerceu influência sobre Raul durante sua juventude. Ao mesmo tempo em que alimentava o sonho de ser escritor, Raul começava a participar da cena roqueira que surgia em Salvador. O próprio Raul recordaria: “Em 54/55, ninguém sabia o que era rock. Eu tocava e me atirava no chão imitando Little Richard.” A banda que posteriormente se tornaria conhecida como Os Panteras passou por diversas formações e nomes, entre eles Relâmpagos do Rock e The Panters. Em 1963, o grupo passou a se chamar The Panters e começou a ganhar notoriedade na cena musical de Salvador. Posteriormente, a banda passou a ser conhecida como Os Panteras. Sua formação que ficaria associada ao primeiro disco reunia Raul Seixas, Eládio Gilbraz, Mariano Lanat e Carleba. Os Panteras tornaram-se uma das principais bandas jovens de Salvador e passaram a conquistar reconhecimento na cena musical local. Edith Wisner e a mudança para o Rio Em 1967, Raul começou um relacionamento com Edith Wisner, filha de um pastor protestante estadunidense. Edith Wisner foi a primeira esposa de Raul Seixas. Os dois se conheceram na Bahia, durante um período decisivo da vida do músico, quando ele começava a abandonar os estudos para se dedicar cada vez mais à música. O pai de Edith não aprovava o relacionamento da filha. Nesse período, Raul concluiu o segundo grau, fez um curso pré-vestibular e foi aprovado nos vestibulares para Direito, Psicologia e Filosofia. Entretanto, não seguiria nenhuma dessas áreas profissionalmente. Raul acabou se casando com Edith e abandonou os estudos. Em seguida, voltou a reunir Os Panteras e aceitou o convite do cantor Jerry Adriani para acompanhá-lo ao Rio de Janeiro. Jerry Adriani, nome artístico de Jair Alves de Souza (São Paulo, 29 de janeiro de 1947 — Rio de Janeiro, 23 de abril de 2017), foi cantor e ator brasileiro, conhecido principalmente por sua participação na Jovem Guarda. Jerry foi importante para os primeiros passos profissionais de Raul. Além de ajudar Os Panteras a conseguir oportunidades de trabalho, também os levou para o Rio de Janeiro, onde o grupo tentaria conquistar espaço no mercado fonográfico. A mudança para o Rio representava uma grande oportunidade para os músicos baianos. Os Panteras assinaram contrato com a EMI-Odeon. No Rio, Raul também teve contato com nomes importantes da música e da televisão brasileira, entre eles Chico Anysio e Roberto Carlos. Chico Anysio (1931–2012) foi um humorista, ator, escritor e um dos grandes nomes da televisão brasileira. Criador de dezenas de personagens, tornou-se uma das figuras mais importantes do humor nacional. Roberto Carlos é um cantor e compositor brasileiro e um dos maiores nomes da música popular brasileira. Ao lado de Erasmo Carlos e Wanderléa, foi um dos principais representantes da Jovem Guarda, movimento que ajudou a popularizar o rock entre os jovens brasileiros na década de 1960. Em 1968, Raulzito e os Panteras gravaram seu primeiro e único álbum, Raulzito e os Panteras. O disco, no entanto, não obteve sucesso de crítica nem de público. Eládio Gilbraz posteriormente resumiria aquela experiência: “De um lado, havia a inexperiência de quatro rapazes, recém-chegados da Bahia, falando em agnosticismo, mudança de conceitos e sonhos. Do outro lado, uma multinacional que só falava em ‘comercial’. Talvez não tenha sido o disco que a gravadora imaginara, mas o nosso sonho era gravar um disco.” A partir daí, Raulzito e Os Panteras passaram por sérias dificuldades no Rio de Janeiro. Raul morava em Ipanema e muitas vezes caminhava até o centro da cidade para tentar divulgar suas músicas, mas não conseguia obter o sucesso que esperava. Em algumas ocasiões, Os Panteras receberam ajuda de Jerry Adriani, atuando como banda de apoio. Para Raul, essa experiência foi importante. Além de proporcionar trabalho, permitiu que ele adquirisse experiência como músico e aprendesse a se comunicar melhor com o público. Segundo ele próprio, suas primeiras músicas eram “muito herméticas”. A passagem pelo Rio também foi marcada pela pobreza. Raul chegou a passar fome durante esse período, experiência que seria posteriormente associada a “Ouro de Tolo”. Depois do fracasso de Os Panteras, Raul ficou profundamente abalado e retornou a Salvador. Mais tarde, lembraria daquele período: “Passava o dia inteiro trancado no quarto lendo filosofia, só com uma luz bem fraquinha, o que acabou me estragando a vista [...] Eu comprei uma motocicleta e fazia loucuras pela rua.” Apesar das dificuldades, uma nova oportunidade surgiria. Produtor musical Jerry Adriani, que acreditava no talento de Raul, ajudou a convencê-lo a trabalhar na CBS e participou da articulação para que o então presidente da gravadora, Evandro Ribeiro, lhe desse uma oportunidade como produtor. Raul passou então a utilizar seus vastos conhecimentos musicais como produtor fonográfico. Na CBS, fez diversos amigos. Um dos mais importantes foi Leno, da dupla Leno e Lilian. Leno, nome artístico de Gileno Osório Wanderley de Azevedo, foi um cantor, compositor e guitarrista brasileiro. Ao lado de Lilian Knapp, formou a dupla Leno e Lilian, associada à Jovem Guarda. Leno tornou-se um dos primeiros artistas a reconhecer o talento de Raul como compositor. A amizade entre os dois se desenvolveu durante o período em que Raul trabalhava na CBS. Em seu compacto duplo Papel Picado, lançado em 1969, Leno registrou “Um Minuto Mais”, versão de Raulzito para “I Will”, dos Beatles. Outro importante parceiro de Raul nessa fase foi Mauro Motta. Mauro Motta foi um músico, compositor e produtor ligado à indústria fonográfica brasileira. Durante a passagem de Raul pela CBS, os dois desenvolveram uma parceria profissional e musical, fazendo parte do círculo de artistas e produtores com quem Raul trabalhou durante esse período. Jerry Adriani também decidiu convocar Raul para produzir seus discos. Em 1969, Raul aproveitou a oportunidade para gravar uma de suas próprias composições, “Tudo Que É Bom Dura Pouco”. Na mesma época, outros artistas ligados à Jovem Guarda passaram a gravar músicas escritas por Raulzito, entre eles Ed Wilson, Renato e Seus Blue Caps e Odair José. Ed Wilson foi um cantor e compositor brasileiro ligado à primeira geração do rock nacional e à Jovem Guarda. Durante a década de 1960, participou da cena musical que ajudou a popularizar o rock no Brasil e esteve entre os artistas que gravaram composições de Raul. Renato e Seus Blue Caps foi um dos grupos mais importantes da Jovem Guarda. Liderado por Renato Barros, o conjunto destacou-se por suas versões brasileiras de sucessos do rock internacional e por sua influência sobre a formação do rock brasileiro. Odair José, nascido em 1948, em Morrinhos, Goiás, é cantor e compositor brasileiro. Tornou-se conhecido por suas canções populares e românticas e por abordar temas considerados controversos na música brasileira. Durante o período em que Raul trabalhava na CBS, Odair esteve entre os intérpretes que gravaram composições de sua autoria. O ano de 1970 marcou o início de uma fase extremamente ativa na carreira de Raul como produtor da CBS. Ele trabalhou na produção de discos de artistas como Tony & Frankye, Osvaldo Nunes, Jerry Adriani, Edy Star e Diana, além de escrever uma grande quantidade de músicas para outros intérpretes da gravadora. Algumas de suas composições alcançaram grande sucesso, como “Doce, Doce Amor”, gravada por Jerry Adriani, e “Ainda Queima a Esperança”, interpretada por Diana. Diana foi uma cantora brasileira associada à música romântica e à Jovem Guarda. Durante o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, tornou-se conhecida por suas canções e gravou composições de diversos autores, entre eles Raul Seixas. Raul havia finalmente conseguido um emprego respeitado dentro da indústria musical. Como produtor, podia colocar em prática seu enorme conhecimento sobre música, ajudar a lançar sucessos na voz de outros artistas e trabalhar nos bastidores de uma das grandes gravadoras do país. Mas isso não era suficiente. Raul não havia abandonado o sonho de se tornar cantor. Foi nessa fase que se aproximou do compositor Sérgio Sampaio, amizade que contribuiria para reacender seus projetos de voltar aos palcos. Sérgio Sampaio (1947–1994) foi um cantor e compositor capixaba, conhecido por seu estilo irreverente, suas letras provocadoras e sua mistura de rock com elementos da música popular brasileira. A amizade entre Sampaio e Raul seria importante para a retomada dos projetos de Raul como artista. Os dois ainda participariam, ao lado de Edy Star e Miriam Batucada, do álbum Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, lançado em 1971. A experiência como produtor havia dado a Raul conhecimento da indústria, contatos e experiência musical. Agora, Raulzito queria voltar ao palco. O jovem que imitava Elvis Presley em Salvador, o integrante dos Panteras que havia fracassado no Rio e o produtor que trabalhara nos bastidores da CBS estavam prestes a se transformar em um dos personagens mais singulares da música brasileira. A história de Raul Seixas estava apenas começando. Alex

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