Curupira: Mitos, Poderes e Narrativas da Floresta
Desde o século XIX, diversos estudiosos discutem a relação entre o Curupira e a Caipora. Alguns os consideram personagens distintos, enquanto outros acreditam que representam diferentes manifestações da mesma entidade protetora das florestas.
O naturalista inglês Henry Walter Bates distinguia claramente o Curupira da Caipora. Já o botânico e explorador alemão Carl Friedrich Philipp von Martius (1794–1868), que percorreu cerca de 10 mil quilômetros pelo Brasil entre 1817 e 1820 em uma célebre expedição científica, considerava ambos como uma única figura do imaginário indígena.
Algumas características hoje amplamente associadas ao Curupira parecem ter sido originalmente atribuídas à Caipora. Entre elas estão o corpo coberto por longos pelos avermelhados e o hábito de montar um cateto (porco-do-mato). Com o passar do tempo, essas características foram incorporadas à imagem do Curupira em diversas regiões do Brasil, contribuindo para a confusão entre as duas figuras folclóricas.
Sons e cheiros
Além de utilizar seus rastros invertidos para confundir caçadores e viajantes, o Curupira também é conhecido por emitir um assobio agudo capaz de desorientar quem se aventura pela floresta. Em algumas regiões, esse som é comparado ao canto do inhambu (tinamou), uma ave típica das matas sul-americanas.
Segundo a tradição popular, o Curupira também bate nas raízes salientes das grandes árvores para verificar sua resistência antes das tempestades. Por esse motivo, pescadores e ribeirinhos do Pará costumam atribuir os sons de pancadas vindos do interior da mata ao Curupira inspecionando as árvores da floresta.
De acordo com pesquisas de campo realizadas pelo antropólogo norte-americano Charles Wagley (1913–1991), na década de 1950, o Curupira era descrito por moradores da Amazônia como uma entidade que emitia longos gritos estridentes e imitava vozes humanas para atrair seringueiros, caçadores e viajantes, fazendo-os perder o rumo na mata.
Uma antiga narrativa popular conta que um homem encontrou um Curupira do tamanho de uma criança, mas dotado de força extraordinária, capaz de arremessar um adulto pelo ar. Para se proteger, o homem retirou da bolsa uma cera sagrada — um pequeno medalhão confeccionado com cera de abelha e bento pelo papa, tradicionalmente utilizado como objeto de proteção pelos católicos. A criatura não conseguiu mais aproximar-se dele, mas exalou uma catinga tão intensa que o caçador acabou desmaiando.
Proteção
Segundo diversas tradições populares, existem formas de escapar dos encantamentos do Curupira. Uma delas consiste em fazer uma cruz no chão ou confeccionar uma roda de cipó, considerada um símbolo de proteção contra a entidade.
Henry Walter Bates registrou que um jovem mameluco que frequentemente o acompanhava em suas viagens pela Amazônia recusava-se a entrar na mata sem antes carregar um amuleto feito de folha de palmeira trançada em forma de roda, acreditando que esse objeto o protegeria do Curupira.
Narrativas
As histórias sobre o Curupira variam amplamente entre as diferentes regiões do Brasil e da Amazônia.
O naturalista Herbert Huntington Smith (1851–1919) registrou, em 1879, uma narrativa segundo a qual o Curupira mata um caçador e leva seu coração para que sua esposa e seu filho o devorem. A viúva consegue fugir com a criança graças à ajuda de um sapo, que cospe uma substância viscosa capaz de elevá-los até o alto de uma árvore. Ao tentar alcançá-los, o Curupira fica preso na gosma produzida pelo animal e acaba morrendo.
Outra narrativa foi registrada pelo geólogo, paleontólogo e naturalista Charles Frederick Hartt (1840–1878), um dos maiores estudiosos da geologia brasileira no século XIX. Nela, um caçador é obrigado pelo Curupira a entregar seu coração. Para enganá-lo, substitui-o pelo coração de um macaco, convencendo a criatura de que aquele era seu coração. Impressionado, o Curupira tenta imitar o feito e arranca o próprio coração, provocando a própria morte.
Hartt comparou essa história ao conto folclórico norueguês "Askeladden, que roubou o Troll", devido à semelhança entre os dois enredos, nos quais um personagem vence uma criatura sobrenatural por meio da inteligência e da astúcia.
Em versões posteriores da narrativa, o caçador retorna para buscar os dentes verdes do Curupira e descobre que a criatura reviveu. Em vez de puni-lo, o Curupira lhe entrega um arco mágico, impondo apenas uma condição: jamais revelar a origem do presente. A curiosidade da esposa, porém, faz com que o segredo seja revelado, resultando na morte do caçador.
Outra variante afirma que o caçador quebra a proibição de utilizar o arco mágico para caçar pássaros. Como castigo, é atacado e morto por um grande bando de aves.
Em uma versão ainda mais fantástica, o Curupira recompõe o corpo do caçador utilizando cera para substituir sua carne. Antes de libertá-lo, porém, adverte que ele jamais deverá consumir alimentos quentes. Ao desobedecer a recomendação, o calor faz a cera derreter, levando novamente o homem à morte.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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