— Estou bem, mas desde o incidente sinto-me estranho.
Foi a primeira coisa que disse quando me perguntaram como eu estava.
Ninguém soube dizer exatamente o que havia acontecido naquela noite. Nem eu.
Lembro-me de estar voltando para casa, às três e dezessete da madrugada, quando todas as luzes da rua se apagaram ao mesmo tempo. Depois, um barulho metálico. Um clarão. E, por alguns segundos, uma sensação absurda de que alguém estava respirando dentro do meu peito.
Quando acordei, estava sentado na calçada.
Não havia ferimentos.
O médico disse que eu tivera sorte.
O policial disse que eu tivera azar.
Nunca entendi o motivo.
Nos dias seguintes, começaram as coisas estranhas.
Primeiro, o relógio da cozinha passou a atrasar exatamente três minutos. Depois, encontrei uma segunda escova de dentes no banheiro.
Perguntei à minha esposa de quem era.
Ela ficou olhando para mim, confusa.
— Sempre foi sua.
Achei que fosse uma brincadeira.
Então percebi que a escova que eu usava estava na minha mão.
A segunda estava no copo.
Naquela noite, ouvi passos no corredor.
Lentos.
Um passo.
Pausa.
Outro passo.
Pausa.
Quando abri a porta, não havia ninguém.
Mas o corredor parecia mais comprido.
Muito mais comprido.
No fim dele havia uma porta que não existia antes.
Eu sabia disso porque moro naquele apartamento há onze anos.
Aproximei-me.
Na porta havia uma pequena placa:
QUARTO 317
Não abri.
Na manhã seguinte, a porta tinha desaparecido.
Comecei a anotar tudo.
Horários. Sons. Objetos que apareciam em lugares diferentes.
Foi assim que descobri o pior.
Todos os acontecimentos estranhos ocorriam três minutos antes de eu me lembrar deles.
Era como se alguma coisa estivesse vivendo três minutos à minha frente.
Na quinta-feira, encontrei um bilhete sobre a mesa.
Minha letra.
Dizia:
"Não abra a porta quando ouvir três batidas."
Na mesma noite, às 3h17, bateram na porta.
Uma vez.
Duas.
Três.
Fiquei imóvel.
Então ouvi minha própria voz do outro lado:
— Estou bem, mas desde o incidente sinto-me estranho.
Meu sangue gelou.
A voz continuou:
— Pode abrir. Sou eu.
Olhei para o relógio.
3h14.
Ainda faltavam três minutos.
Foi quando compreendi.
O incidente não tinha acontecido três dias antes.
Nem três semanas.
Ele ainda não tinha acontecido.
E, do outro lado da porta, alguém estava esperando que eu o deixasse entrar para que pudesse acontecer.
As batidas recomeçaram.
Uma.
Duas.
Três.
Dessa vez, porém, vieram de dentro do apartamento.
Atrás de mim.
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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