Gandhi e a Luta pela Independência da Índia: do Congresso à Partição
Mohandas Karamchand Gandhi (2 de outubro de 1869 – 30 de janeiro de 1948) foi um advogado indiano, nacionalista anticolonial e pensador político que empregou a resistência não violenta para liderar a campanha pela independência da Índia do domínio britânico. Sua atuação inspirou movimentos pelos direitos civis e pela liberdade em diversas partes do mundo. O título honorífico Mahatma, palavra de origem sânscrita que significa “grande alma” ou “venerável”, foi aplicado a Gandhi pela primeira vez na África do Sul, em 1914, e posteriormente tornou-se mundialmente associado a ele.
Em 1934, Gandhi renunciou à sua filiação formal ao Partido do Congresso. Ele não havia rompido com os ideais do partido; considerava, porém, que sua enorme popularidade poderia acabar sufocando a diversidade de opiniões existente em seu interior. O Congresso reunia grupos bastante diferentes, incluindo comunistas, socialistas, sindicalistas, estudantes, conservadores religiosos e defensores de posições favoráveis ao mercado. Ao afastar-se formalmente da organização, Gandhi acreditava que essas diferentes correntes teriam maior liberdade para se manifestar e atuar politicamente.
Gandhi também pretendia evitar tornar-se um alvo ainda maior da propaganda do Raj britânico, especialmente em um momento em que o Congresso havia aceitado temporariamente um acordo político com as autoridades coloniais.
O Raj britânico era o sistema de governo colonial pelo qual o Império Britânico administrou diretamente a maior parte do subcontinente indiano entre 1858 e 1947. O termo Raj, de origem no sânscrito e em línguas indianas, significa “governo” ou “domínio”. O Raj foi estabelecido após a Revolta Indiana de 1857, quando o governo britânico retirou da Companhia Britânica das Índias Orientais o controle sobre seus territórios e transferiu a administração diretamente para a Coroa britânica.
Durante o Raj, a Índia não era um Estado independente: o poder político supremo estava subordinado ao governo britânico, representado na Índia pelo vice-rei. Ao mesmo tempo, o território incluía tanto regiões administradas diretamente pelos britânicos quanto numerosos Estados principescos, governados por soberanos locais sob a autoridade e supervisão britânicas.
Afastado formalmente do Congresso, Gandhi continuou exercendo enorme influência sobre o movimento nacionalista. Em 1936, voltou a participar mais ativamente da política do Congresso Nacional Indiano, durante a presidência de Jawaharlal Nehru e a sessão do Congresso realizada em Lucknow, cidade histórica do norte da Índia.
Jawaharlal Nehru
Jawaharlal Nehru (1889–1964), advogado e político indiano, era filho de Motilal Nehru, importante líder do Congresso. Educado na Inglaterra, retornou à Índia e envolveu-se no movimento de independência, tornando-se um dos principais aliados de Gandhi. Nehru defendia uma Índia independente, secular e industrializada, e tinha forte simpatia pelo socialismo. Mais tarde, tornou-se o primeiro-ministro da Índia independente, cargo que ocupou de 1947 até sua morte, em 1964.
Lucknow e o Congresso Nacional Indiano
Lucknow, atualmente capital do estado indiano de Uttar Pradesh, possui uma longa importância política e cultural na história da Índia. A cidade tornou-se também um dos principais cenários da resistência indiana contra o domínio britânico durante a Revolta de 1857.
A cidade tinha um significado especial para o movimento nacionalista. Em 1916, o Congresso Nacional Indiano realizou em Lucknow uma importante sessão na qual ocorreu o chamado Pacto de Lucknow, acordo político entre o Congresso e a Liga Muçulmana. O pacto buscava apresentar uma frente mais unificada diante do governo britânico e tornou-se um dos episódios importantes da política indiana anterior à independência.
Foi nesse contexto histórico que o Congresso voltou a se reunir em Lucknow, em 1936. O partido estava cada vez mais dividido entre diferentes correntes políticas, que divergiam sobre o futuro econômico e político da Índia independente.
Embora Gandhi defendesse que a prioridade do partido deveria continuar sendo a conquista da independência, e não as disputas sobre qual sistema político e econômico deveria prevalecer na futura Índia, ele não impediu que o Congresso discutisse e adotasse propostas de orientação socialista. Essa posição também refletia a influência crescente de políticos mais jovens e de setores da esquerda dentro do movimento nacionalista.
Entre os principais representantes dessa corrente estava Subhas Chandra Bose (1897–1945), político e nacionalista indiano conhecido por sua postura radical contra o domínio britânico. Educado na Índia e na Inglaterra, Bose ingressou no movimento de independência e rapidamente se destacou dentro do Congresso. Embora respeitasse Gandhi como uma das principais lideranças do nacionalismo indiano, discordava de sua estratégia de resistência não violenta. Bose acreditava que a independência poderia exigir métodos mais enérgicos e uma mobilização mais direta contra o poder britânico.
Em 1938, Bose foi eleito presidente do Congresso. No ano seguinte, candidatou-se novamente ao cargo e derrotou Bhogaraju Pattabhi Sitaramayya, candidato apoiado por Gandhi.
Bhogaraju Pattabhi Sitaramayya (1880–1959) era médico, historiador e político indiano, além de um importante membro do Congresso Nacional Indiano. Próximo de Gandhi, tornou-se um dos representantes da corrente mais moderada e organizacionalmente alinhada à liderança gandhiana. Mais tarde, depois da independência, participou da vida política da Índia e exerceu o cargo de governador do estado de Madhya Pradesh.
A vitória de Bose provocou uma grave crise dentro do Congresso. Gandhi declarou que a derrota de Sitaramayya era “minha derrota”, deixando clara a importância que atribuía ao resultado. A eleição demonstrava que a influência de Gandhi, embora enorme, não significava que ele controlasse todas as correntes existentes dentro do Congresso.
A situação tornou-se insustentável quando vários líderes importantes do Congresso se recusaram a trabalhar com Bose devido às divergências sobre a estratégia política e os princípios do movimento. Diante da oposição interna, Bose renunciou à presidência em 1939.
Posteriormente, rompeu com a liderança dominante do Congresso e criou o Bloco de Esquerda, buscando reunir setores mais radicais do movimento nacionalista. Durante a Segunda Guerra Mundial, Bose adotaria uma estratégia ainda mais controversa: procuraria apoio das potências do Eixo, inimigas da Grã-Bretanha, para tentar expulsar os britânicos da Índia.
O conflito entre Gandhi e Bose refletia diferenças profundas dentro do movimento de independência indiano. Gandhi insistia na resistência não violenta, na desobediência civil e na mobilização popular; Bose, por outro lado, defendia uma estratégia mais radical e estava disposto a considerar métodos que Gandhi rejeitava.
Apesar das divergências, ambos compartilhavam o objetivo fundamental de acabar com o domínio britânico e conquistar a independência. A disputa entre eles revela também a diversidade existente dentro do Congresso Nacional Indiano, que reunia correntes políticas unidas principalmente pela oposição ao domínio colonial, mas profundamente divididas quanto aos métodos de luta e ao futuro político e econômico da Índia.
Gandhi e o Movimento Quit India
Durante a Segunda Guerra Mundial, Gandhi passou a defender com ainda mais intensidade que a Índia não poderia ser chamada a lutar em nome da liberdade e da democracia enquanto permanecesse submetida ao domínio colonial britânico. Para ele, havia uma contradição fundamental em exigir que os indianos defendessem a liberdade de outros povos enquanto a própria Índia continuava privada de independência.
Em 8 de agosto de 1942, durante uma reunião do Congresso Nacional Indiano, realizada em Bombaim (atual Mumbai), Gandhi fez um de seus mais importantes discursos políticos. Na ocasião, lançou o Movimento Quit India (“Deixem a Índia”), exigindo o fim do domínio britânico. Gandhi conclamou os indianos a interromper a cooperação com o governo colonial e pronunciou a famosa palavra de ordem “Do or Die” — “Faça ou morra” —, pela qual incentivava a população a lutar pela independência com determinação, mantendo, porém, o princípio da não violência.
A resposta britânica foi imediata. Na madrugada de 9 de agosto de 1942, Gandhi, Nehru e praticamente toda a liderança do Congresso foram presos. Gandhi foi levado para o Palácio de Aga Khan, em Poona (atual Pune), onde permaneceria detido durante quase dois anos.
A repressão, porém, não conseguiu impedir a expansão do movimento. Em várias regiões da Índia, manifestações, greves e atos de desobediência civil foram organizados contra o governo colonial. Embora Gandhi defendesse a não violência, partes do movimento acabaram assumindo um caráter violento. Estações ferroviárias, delegacias, linhas de telégrafo e outras instalações associadas ao governo britânico foram atacadas ou danificadas. A administração colonial respondeu com prisões em massa e uma dura repressão.
Essa violência não representava a estratégia defendida por Gandhi. Seu objetivo era promover uma resistência popular em massa baseada na desobediência civil e na recusa de colaborar com o governo britânico, e não uma insurreição armada. Ainda assim, a repressão e os confrontos fizeram do Movimento Quit India um dos momentos mais intensos da luta pela independência.
A prisão de Gandhi durou quase dois anos. Durante o período de detenção, sua saúde se deteriorou consideravelmente. Ele chegou a realizar uma greve de fome em 1943 e, posteriormente, sofreu novos problemas de saúde. As autoridades britânicas temiam que sua morte sob custódia provocasse uma enorme reação popular. Por razões humanitárias e políticas, Gandhi foi libertado em 6 de maio de 1944, antes do término da guerra.
Gandhi e Muhammad Ali Jinnah
Enquanto isso, a questão da futura organização política da Índia tornava-se cada vez mais complexa. Uma das principais divergências envolvia a relação entre hindus e muçulmanos e o futuro da Liga Muçulmana, liderada por Muhammad Ali Jinnah (1876–1948), advogado e político indiano que se tornara o principal defensor da criação de um Estado separado para os muçulmanos do subcontinente.
Gandhi e Jinnah mantiveram extensa correspondência e se reuniram várias vezes, especialmente em setembro de 1944. Gandhi defendia a possibilidade de uma Índia unida, na qual hindus e muçulmanos pudessem coexistir em um mesmo Estado. Jinnah, porém, insistia que os muçulmanos constituíam uma comunidade política distinta e defendia a criação de um Estado muçulmano independente.
As divergências entre os dois permaneceram sem solução. A proposta de divisão do subcontinente, conhecida como Partição da Índia, ganharia força nos anos seguintes e acabaria resultando, em 1947, na criação de dois Estados independentes: Índia e Paquistão.
A independência da Índia
Com o avanço da Segunda Guerra Mundial e o enfraquecimento econômico e político do Império Britânico, tornou-se cada vez mais evidente que a Grã-Bretanha teria dificuldade em manter seu domínio sobre a Índia. Depois do fim da guerra, em 1945, o novo governo britânico iniciou negociações sobre a transferência de poder.
Diante dessa nova realidade, a repressão ao movimento nacionalista começou a ser gradualmente substituída por negociações políticas. Muitos dos dirigentes do Congresso que haviam sido presos em 1942 foram libertados, e Gandhi passou a concentrar seus esforços na resolução das tensões entre as diferentes comunidades indianas.
O Movimento Quit India não provocou imediatamente a independência, mas representou um importante ponto de ruptura. A campanha demonstrou a dificuldade crescente de o governo britânico continuar governando a Índia sem o consentimento de sua população e contribuiu para aumentar a pressão pela transferência do poder.
Em 15 de agosto de 1947, o domínio britânico chegou ao fim e a Índia tornou-se independente. A independência, entretanto, veio acompanhada da Partição, que provocou deslocamentos populacionais em massa e uma onda de violência entre comunidades religiosas. Gandhi, que havia lutado durante décadas pela independência, dedicou seus últimos meses principalmente à tentativa de conter essa violência e promover a reconciliação entre hindus e muçulmanos.
Gandhi em 1942.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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