Judy Garland e os bastidores de O Mágico de Oz Judy Garland, nome artístico de Frances Ethel Gumm (Grand Rapids, Minnesota, 10 de junho de 1922 — Londres, Inglaterra, 22 de junho de 1969), foi uma atriz, cantora, dançarina e artista de vaudeville estadunidense. Tornou-se uma das maiores estrelas da Era de Ouro de Hollywood, especialmente por sua voz e por suas atuações em filmes musicais. Em 1938, aos 16 anos, recebeu o papel que transformaria sua carreira: Dorothy Gale em O Mágico de Oz (The Wizard of Oz, 1939), produção da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) baseada no livro infantil The Wonderful Wizard of Oz, publicado por L. Frank Baum em 1900. Lyman Frank Baum (1856–1919), conhecido como L. Frank Baum, foi escritor, jornalista, ator e empresário estadunidense. Publicou The Wonderful Wizard of Oz em 1900, apresentando personagens como Dorothy, o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde. O sucesso do livro levou Baum a escrever diversas continuações ambientadas na Terra de Oz. No filme, Garland cantou “Over the Rainbow”, composta por Harold Arlen, com letra de Yip Harburg. A canção tornou-se inseparável de sua imagem pública e uma de suas principais marcas artísticas. Harold Arlen (1905–1986) foi um compositor estadunidense conhecido principalmente por suas canções para cinema, teatro musical e televisão. E. Y. “Yip” Harburg (1896–1981) foi um letrista estadunidense. Ficou conhecido por escrever letras para musicais e canções populares, incluindo a letra de “Over the Rainbow”. Também participou de produções cinematográficas e teatrais durante as décadas de 1930 e 1940. A escolha de Judy Garland para Dorothy Garland não foi a primeira opção da MGM para o papel. Os produtores Arthur Freed e Mervyn LeRoy queriam a jovem atriz, mas o chefe do estúdio, Louis B. Mayer, inicialmente tentou conseguir Shirley Temple, então uma das maiores estrelas infantis de Hollywood, por meio de um empréstimo à 20th Century Fox Arthur Freed (1894–1973) foi produtor cinematográfico, compositor e uma das figuras mais importantes da história dos musicais da MGM. Tornou-se responsável por alguns dos maiores musicais do estúdio e ajudou a estabelecer a chamada “unidade de musicais” da MGM. Mervyn LeRoy (1900–1987) foi diretor e produtor cinematográfico norte-americano. Trabalhou em Hollywood durante várias décadas e participou do desenvolvimento inicial de O Mágico de Oz, sendo um dos responsáveis por defender Garland para o papel de Dorothy. Louis B. Mayer Louis Burt Mayer (1884–1957) foi um dos mais poderosos executivos da história de Hollywood. Chefiou a MGM durante grande parte de sua fase de maior prestígio e ajudou a transformar o estúdio em uma das maiores empresas cinematográficas do mundo. Shirley Temple Shirley Temple (1928–2014) foi uma atriz, cantora e dançarina norte-americana que se tornou uma das maiores estrelas infantis de Hollywood durante a década de 1930. Recebeu o primeiro Oscar Juvenil, em 1935, pelo trabalho realizado no ano anterior. A MGM tentou contratá-la para interpretar Dorothy, mas não conseguiu. Deanna Durbin também foi considerada para o papel, mas não estava disponível. Deanna Durbin Deanna Durbin (1921–2013) foi uma atriz e cantora norte-americana, conhecida principalmente por sua voz de soprano e por seus filmes musicais. Tornou-se uma das principais estrelas da Universal Pictures durante a década de 1930 e recebeu um Oscar Juvenil em 1939, juntamente com Mickey Rooney. A transformação de Garland em Dorothy Durante a preparação do filme, a MGM trabalhou intensamente para fazer Garland parecer mais jovem. Ela inicialmente deveria usar uma peruca loira, mas a ideia foi abandonada. O figurino de Dorothy também foi cuidadosamente planejado para dar à personagem uma aparência infantil. Garland enfrentou condições de trabalho extremamente exigentes. A produção utilizou jornadas longas e métodos hoje considerados abusivos para controlar o peso e a aparência de jovens atores. Fontes biográficas relatam que Garland foi submetida a controle rigoroso de alimentação e recebeu estimulantes e posteriormente sedativos para lidar com as exigências do sistema de estúdio. Uma história muito repetida afirma que Garland teria sobrevivido durante as filmagens praticamente à base de cigarros, sopa e café. Entretanto, os pesquisadores Jay Scarfone e William Stillman, autores de estudos importantes sobre O Mágico de Oz, contestaram essa versão específica. Jay Scarfone Jay Scarfone é pesquisador e historiador especializado na história de O Mágico de Oz e do cinema clássico de Hollywood. Ao lado de William Stillman, escreveu obras dedicadas aos bastidores, à produção e ao legado do filme de 1939. William Stillman William Stillman é historiador e pesquisador especializado em O Mágico de Oz. Em parceria com Jay Scarfone, estudou documentos, fotografias, objetos e outros registros relacionados à produção do filme, contribuindo para corrigir ou contextualizar alguns relatos populares sobre seus bastidores. O episódio envolvendo Victor Fleming Outro episódio bastante conhecido ocorreu durante a filmagem de uma cena envolvendo o Leão Covarde, interpretado por Bert Lahr. Garland teve dificuldade para controlar o riso durante várias tomadas. Segundo relatos sobre a produção, o diretor Victor Fleming levou a atriz para um canto do cenário e deu-lhe um tapa no rosto, ordenando que voltasse ao trabalho. O episódio é mencionado em relatos históricos e biográficos, embora alguns detalhes tenham recebido versões diferentes ao longo dos anos. Victor Fleming Victor Fleming (1889–1949) foi um dos mais importantes diretores de Hollywood da década de 1930. Dirigiu O Mágico de Oz e também Gone with the Wind (...E o Vento Levou, 1939), pelo qual ganhou o Oscar de melhor diretor na cerimônia de 1940. A Academia confirma Fleming como vencedor de direção por Gone with the Wind. É importante observar que O Mágico de Oz teve mais de um diretor. Fleming dirigiu a maior parte da produção, enquanto Richard Thorpe trabalhou inicialmente no projeto e King Vidor posteriormente dirigiu algumas sequências. Richard Thorpe Richard Thorpe (1896–1991) foi um diretor norte-americano que trabalhou principalmente em Hollywood. Inicialmente dirigiu O Mágico de Oz, mas deixou a produção depois de algumas semanas, sendo substituído por George Cukor e posteriormente por Victor Fleming. King Vidor King Vidor (1894–1982) foi um importante diretor de cinema norte-americano, cuja carreira se estendeu do cinema mudo ao cinema sonoro. Em O Mágico de Oz, dirigiu algumas das sequências ambientadas no Kansas. As filmagens e o orçamento As filmagens de O Mágico de Oz começaram em 13 de outubro de 1938 e terminaram em 16 de março de 1939. O custo de produção chegou a aproximadamente US$ 2,777 milhões. Além de O Mágico de Oz, Garland participou de Babes in Arms, musical da MGM lançado em 1939, ao lado de Mickey Rooney. Mickey Rooney Mickey Rooney (1920–2014) foi ator, cantor e artista de vaudeville norte-americano. Começou a trabalhar ainda criança e tornou-se uma das maiores estrelas juvenis de Hollywood. Atuou ao lado de Garland em diversos filmes, incluindo Babes in Arms. Em 1939, recebeu um Oscar Juvenil pelo trabalho realizado no ano anterior. Busby Berkeley Busby Berkeley (1895–1976) foi um famoso coreógrafo e diretor de musicais de Hollywood. Tornou-se conhecido por números musicais grandiosos, com grandes grupos de dançarinos organizados em complexas formações geométricas. O sucesso de O Mágico de Oz Embora O Mágico de Oz tenha sido um grande sucesso de crítica, seu enorme orçamento e os elevados custos de promoção dificultaram inicialmente a obtenção de lucro. A produção custou cerca de US$ 2,777 milhões. Em uma conversão cambial simples para reais, utilizando a cotação aproximada de R$ 5,15 por dólar, isso corresponderia a aproximadamente R$ 14,3 milhões. Essa conversão não representa o poder de compra atual do dinheiro de 1939. Para isso, seria necessário corrigir o valor pela inflação norte-americana antes de convertê-lo para reais. O filme acabou se tornando um dos maiores clássicos da história do cinema e uma das obras mais reconhecidas da cultura popular mundial. O Oscar Juvenil de Judy Garland A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas concedeu a Judy Garland um Special Award, reconhecendo seu desempenho como atriz juvenil durante o ano anterior. O registro oficial da Academia descreve o prêmio como destinado a Garland por sua “outstanding performance as a screen juvenile during the past year”. A premiação ocorreu na 12ª cerimônia do Oscar, em 29 de fevereiro de 1940, que homenageou os filmes lançados em 1939. A Academia registra Judy Garland como vencedora do Special Award, com Mickey Rooney como apresentador. O prêmio ficou conhecido posteriormente como Oscar Juvenil ou Academy Juvenile Award. Garland foi a quarta pessoa a receber essa distinção. O prêmio reconhecia jovens intérpretes que ainda não se enquadravam nas categorias competitivas tradicionais do Oscar. O Oscar Juvenil seria o único Oscar recebido por Judy Garland em toda a sua carreira. Posteriormente, ela seria indicada ao Oscar de melhor atriz por A Star Is Born (1954) e ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por Judgment at Nuremberg (1961), mas não venceria nessas categorias. Um legado maior que o filme O Mágico de Oz transformou Judy Garland em uma estrela internacional e fez de Dorothy uma das personagens mais reconhecidas da história do cinema. Por trás da imagem alegre da jovem que cantava “Over the Rainbow”, porém, estava uma adolescente submetida às enormes pressões do sistema de estúdios de Hollywood. A carreira de Garland continuaria por três décadas, atravessando períodos de enorme sucesso e graves dificuldades pessoais. Ainda assim, sua interpretação de Dorothy e sua gravação de “Over the Rainbow” permaneceriam como alguns dos maiores símbolos da história de Hollywood.

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