Malthus: A Vida e o Universo Intelectual do Pai da Demografia Thomas Robert Malthus (Surrey, 13 ou 14 de fevereiro de 1766 — Bath, 23 de dezembro de 1834) foi um clérigo anglicano, economista, matemático e iluminista britânico. É amplamente considerado o pai da demografia moderna por suas teorias sobre o crescimento populacional e a produção de alimentos. Em 1799, Thomas Robert Malthus realizou uma viagem pelo continente europeu acompanhado de seu amigo e colega de Cambridge, o reverendo William Otter (1768–1840). Nascido em Nottinghamshire, Otter estudou no Jesus College, da Universidade de Cambridge, onde se tornou fellow e desenvolveu uma estreita amizade com Malthus e com o viajante e orientalista Edward Daniel Clarke (1769–1822). Mais tarde, Otter seguiria carreira eclesiástica, tornando-se o primeiro diretor do King's College, em Londres, e, em 1836, bispo de Chichester. Após a morte de Malthus, seria também seu primeiro grande biógrafo, escrevendo a memória publicada na segunda edição de Principles of Political Economy, em 1836. A expedição começou em 20 de maio de 1799. Malthus, Otter, Clarke e o jovem estudante John Marten Cripps partiram de Cambridge em direção a Hamburgo. A viagem passou posteriormente, pela Escandinávia e pela Rússia. Clarke e Cripps acabaram seguindo por uma rota diferente, enquanto Malthus e Otter continuaram juntos por partes da Suécia, Noruega, Finlândia e Rússia. Para Malthus, a viagem possuía também um propósito intelectual: observar sociedades diferentes e reunir informações demográficas e econômicas que poderiam contribuir para seus estudos sobre população. Edward Daniel Clarke (1769–1822) foi um importante viajante, escritor e professor britânico. Professor de mineralogia em Cambridge, tornou-se conhecido principalmente por suas extensas viagens pela Europa, Ásia Menor, Egito e Rússia. Seu interesse por geografia, arqueologia, história natural e culturas estrangeiras fazia dele uma companhia especialmente adequada para a expedição de 1799. John Marten Cripps, estudante de Cambridge que participou da primeira parte da viagem, pertencia a uma família abastada e posteriormente se dedicou à política e à administração de suas propriedades. Sua presença na expedição mostra como as viagens acadêmicas e culturais entre jovens das elites britânicas constituíam uma extensão da formação universitária no final do século XVIII. Em 1802, durante a Paz de Amiens, período de breve suspensão das guerras entre a Grã-Bretanha e a França napoleônica, Malthus viajou novamente pelo continente, passando pela França e pela Suíça. Entre seus acompanhantes estava Harriet Eckersall, sua parente e futura esposa. Em 13 de março de 1804, Malthus casou-se com Harriet Eckersall, filha mais velha de John e Catherine Eckersall, seus primos que viviam nas proximidades de Bath. Harriet era onze anos mais jovem que Malthus e posteriormente tornou-se uma figura conhecida no círculo intelectual de Haileybury, onde o marido lecionava, por organizar encontros que reuniam cientistas, intelectuais e outras personalidades de destaque. O casal teve três filhos: Henry, Emily e Lucille. Henry Malthus (1808–1882) seguiu a carreira religiosa do pai e tornou-se vigário de Effingham, em Surrey, em 1835, e de Donnington, em Sussex, em 1837. Casou-se com Sophia Otter, filha do bispo William Otter, aproximando ainda mais as duas famílias. Henry morreu em agosto de 1882, aos 76 anos. Emily Malthus morreu em 1885, depois de seus pais e irmãos. Lucille Malthus, a filha mais nova, morreu solteira e sem filhos em 1825, aos 17 anos. Harriet sobreviveu ao marido por cerca de três décadas e posteriormente voltou a se casar. A carreira acadêmica de Malthus também se consolidou nesse período. Em 1803, tornou-se reitor de Walesby, em Lincolnshire, e, em 1805, assumiu o cargo de professor de História e Economia Política no East India Company College de Haileybury, instituição criada para formar funcionários destinados ao serviço da Companhia Britânica das Índias Orientais. Malthus permaneceu ligado à instituição até sua morte. A morte de Malthus e sua memória Thomas Robert Malthus morreu subitamente em 23 de dezembro de 1834, na casa de seu sogro, em St Catherine's, perto de Bath. A Royal Society, da qual Malthus era fellow desde 1818, registra como causa sua morte súbita por doença cardíaca e confirma seu sepultamento na Abadia de Bath. As descrições de seus contemporâneos apresentam Malthus como um homem alto e de aparência agradável, embora tivesse uma fenda palatina, característica também registrada nos arquivos da Royal Society. Seu amigo William Otter desempenhou papel importante na construção da memória de Malthus. A biografia que escreveu para a edição de 1836 de Principles of Political Economy tornou-se uma das principais fontes para os estudiosos interessados na vida pessoal, formação intelectual e trajetória religiosa do economista. Malthus e o círculo da economia política Nos últimos anos de sua vida, Malthus esteve profundamente envolvido com o desenvolvimento da economia política, área que naquele período ainda estava se constituindo como campo intelectual independente. Em 1821, participou da fundação do Political Economy Club, em Londres. O Political Economy Club foi criado para reunir economistas, comerciantes, políticos e intelectuais interessados nos grandes debates econômicos da época, especialmente nas questões relacionadas ao comércio e ao livre-comércio. A primeira reunião ocorreu em 18 de abril de 1821, na residência de Swinton Holand, e a primeira reunião formal aconteceu em 30 de abril, na Freemasons' Tavern. Thomas Tooke (1774–1858) foi um dos principais articuladores da criação do clube, enquanto James Mill ficou encarregado de elaborar suas regras. Entre seus fundadores estavam Malthus, David Ricardo, James Mill e Robert Torrens. David Ricardo (1772–1823) foi um economista britânico de origem judaico-portuguesa, autor de On the Principles of Political Economy and Taxation (1817). Tornou-se um dos principais representantes da economia política clássica e manteve com Malthus uma amizade marcada por intensos debates intelectuais. Embora divergissem em vários pontos fundamentais, os dois trocaram extensa correspondência e influenciaram profundamente o desenvolvimento da economia clássica. James Mill (1773–1836) foi filósofo, historiador, economista e funcionário da Companhia Britânica das Índias Orientais. Influenciado pelo utilitarismo de Jeremy Bentham, tornou-se um dos principais divulgadores das ideias de Ricardo e participou ativamente da organização do Political Economy Club. O clube surgiu, em parte, de reuniões de economistas realizadas anteriormente na residência de Ricardo. Entre os membros do clube estava também John Cazenove (1788–1879), economista e escritor que se tornou um importante aliado de Malthus nos debates contra Ricardo e James Mill. Cazenove era amigo próximo de Malthus, que o considerava um economista talentoso. Registros da época indicam que, durante os debates do clube, Ricardo e Mill frequentemente se posicionavam de um lado, enquanto Malthus e Cazenove defendiam posições diferentes. Definitions in Political Economy e a controvérsia com McCulloch Em 1827, Malthus publicou Definitions in Political Economy, obra dedicada a uma questão aparentemente técnica, mas que revelava um problema central da economia política de seu tempo: a falta de precisão na utilização de conceitos econômicos. No primeiro capítulo, Malthus apresentou regras para a definição e aplicação dos termos utilizados na economia política. No décimo e penúltimo capítulo, reuniu 60 parágrafos numerados contendo termos e definições que considerava adequados para o debate econômico. A obra criticava a terminologia utilizada por diversos economistas contemporâneos, entre eles Jean-Baptiste Say, David Ricardo, James Mill, John Ramsay McCulloch e Samuel Bailey. Jean-Baptiste Say (1767–1832) foi economista francês e um dos principais divulgadores das ideias de Adam Smith na França. Tornou-se conhecido pela chamada "Lei de Say", segundo a qual a produção gera poder de compra suficiente para absorver a produção agregada, embora a interpretação dessa formulação tenha sido objeto de intenso debate posterior. John Ramsay McCulloch (1789–1864) foi um economista escocês, escritor e jornalista. Tornou-se um dos principais defensores da economia clássica de inspiração ricardiana e foi editor do jornal The Scotsman, de Edimburgo. Sua posição intelectual o colocou em oposição a vários aspectos das concepções econômicas de Malthus. Samuel Bailey (1791–1870) foi um economista e filósofo britânico, conhecido sobretudo por seus estudos sobre valor, moeda e teoria econômica. Sua obra A Critical Dissertation on the Nature, Measures, and Causes of Value (1825) havia participado dos debates sobre a teoria do valor que envolviam Ricardo, Malthus e outros economistas clássicos. A crítica mais contundente a Definitions in Political Economy veio justamente de McCulloch. Em março de 1827, ele publicou no The Scotsman uma resenha extremamente hostil, insinuando que Malthus pretendia impor aos demais economistas suas próprias definições e teorias. A resposta de McCulloch também serviu para defender sua própria interpretação da economia política e de seus Principles of Political Economy. O episódio revela a intensidade dos debates dentro da economia política clássica. Mais do que uma simples disputa terminológica, a controvérsia envolvia diferentes interpretações sobre conceitos fundamentais como valor, riqueza, renda, capital e demanda. A tentativa de Malthus de estabelecer uma linguagem econômica mais precisa foi, portanto, parte de uma disputa maior sobre os próprios fundamentos da nova disciplina. As instituições científicas e literárias Malthus também participou da formação das primeiras instituições britânicas voltadas à organização do conhecimento científico e estatístico. Em 1824, foi eleito um dos dez Royal Associates da Royal Society of Literature, instituição fundada em 1820 com o objetivo de promover o estudo e o desenvolvimento da literatura e da produção intelectual. Sua eleição demonstra que sua influência ultrapassava os limites da economia e da demografia. Em 1818, Malthus já havia sido eleito fellow da Royal Society, uma das mais antigas e prestigiosas sociedades científicas do mundo, fundada em Londres em 1660. A instituição reunia pesquisadores das ciências naturais e matemáticas e, ao reconhecer Malthus, reconhecia também o caráter científico de seus estudos sobre população e sociedade. Malthus também esteve entre os primeiros integrantes da Statistical Society of London, fundada em 1834 e posteriormente transformada na Royal Statistical Society. A sociedade nasceu com o objetivo de coletar, organizar e analisar informações estatísticas sobre a sociedade britânica. Entre seus fundadores e figuras associadas à sua criação estavam Malthus, Charles Babbage e Richard Jones. Charles Babbage (1791–1871) foi matemático, inventor e pioneiro da computação mecânica. É lembrado sobretudo pelo projeto da Difference Engine e da Analytical Engine, máquinas que anteciparam conceitos fundamentais da computação moderna. Richard Jones (1790–1855) foi economista e clérigo britânico, crítico de alguns aspectos da economia clássica ricardiana. Participou da formação da Statistical Society e posteriormente tornou-se professor de economia política em Cambridge. Sua preocupação com dados históricos e institucionais aproximava-se, em alguns aspectos, do interesse de Malthus pelas evidências concretas sobre população, produção e condições sociais. Em 1827, Malthus também prestou depoimento a uma comissão da Câmara dos Comuns sobre a questão da emigração. A Câmara dos Comuns, uma das duas casas do Parlamento britânico, era naquele período um dos principais espaços institucionais para o debate das questões econômicas e sociais que preocupavam a Grã-Bretanha. Os últimos debates e o legado intelectual Apesar da repercussão negativa provocada por McCulloch, Malthus continuou contando com importantes defensores e interlocutores. Entre eles estava Thomas Chalmers (1780–1847), teólogo e economista escocês que estudou questões relacionadas à pobreza, população e assistência aos pobres e que foi profundamente influenciado pelas ideias de Malthus. Malthus também encontrou apoio entre os chamados Noéticos de Oriel, grupo de intelectuais associados ao Oriel College, da Universidade de Oxford, que se destacou no início do século XIX por seus debates sobre religião, filosofia, moral e política. Outro de seus defensores foi William Whewell (1794–1866), filósofo, cientista, historiador da ciência e mestre do Trinity College, em Cambridge. Whewell foi uma das figuras intelectuais mais versáteis da Grã-Bretanha vitoriana e manteve interesse por ciência, filosofia, teologia e economia política. A presença desses intelectuais em torno de Malthus demonstra que sua influência não se limitava à teoria da população. Seus trabalhos estavam inseridos em uma ampla transformação intelectual que envolvia economia, estatística, demografia, filosofia moral, ciência e política. Ao morrer, em 1834, Malthus deixava uma obra que já havia provocado algumas das mais importantes controvérsias intelectuais de seu tempo. Seu nome permaneceria associado sobretudo ao estudo das relações entre população, recursos e crescimento econômico, mas sua contribuição foi mais ampla: ajudou a transformar a observação estatística da sociedade em instrumento de investigação científica e participou diretamente da formação das instituições que deram à economia política e à estatística um espaço permanente na vida intelectual britânica. Alex

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