Maracatu Nação: História, Ritmo e Tradição de Pernambuco
O maracatu é uma manifestação cultural afro-brasileira que reúne música, dança, cortejo e ritual de sincretismo religioso, originária do estado de Pernambuco.
Existem dois principais tipos de maracatu, definidos pelo baque (batida): o Maracatu Nação ou Baque Virado e o Maracatu Rural ou Baque Solto. O primeiro, bastante presente na Região Metropolitana do Recife, é considerado o mais antigo ritmo afro-brasileiro; o segundo é característico de Nazaré da Mata, na Zona da Mata Norte de Pernambuco.
O maracatu foi registrado como forma de expressão e patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), ao lado de manifestações como o marabaixo (Amapá), o carimbó (Pará), o tambor de crioula (Maranhão) e a arte kusiwa do povo indígena Waiãpi (Amapá).
Maracatu Nação (Baque Virado)
O maracatu nação, também chamado de maracatu de baque virado, é formado por um conjunto percussivo que acompanha um cortejo real. Os grupos apresentam um espetáculo marcado pela riqueza estética, pela musicalidade e por fortes simbolismos ligados à ancestralidade africana.
O momento de maior destaque ocorre durante o Carnaval, quando as nações saem às ruas em desfiles e apresentações públicas.
História
O registro mais antigo conhecido do maracatu nação data de 1711, embora sua origem exata permaneça incerta. Sabe-se, porém, que a manifestação surgiu em Pernambuco e vem se transformando ao longo dos séculos.
Um dos maracatus mais antigos é o Maracatu Nação Elefante, fundado em 15 de novembro de 1800, no Recife, por Manuel Santiago, após sua dissidência do Maracatu Brilhante. O elefante foi escolhido como símbolo por ser associado a Oxalá, orixá ligado à criação do mundo e da humanidade.
Uma das peculiaridades do Nação Elefante é a condução de três calungas — Dona Leopoldina, Dom Luís e Dona Emília — em vez das duas mais comuns em outras nações. Elas representam, respectivamente, Iansã, Xangô e Oxum.
Outra característica singular foi ter sido a primeira nação conduzida por uma matriarca, rompendo a tradição de liderança exclusivamente masculina.
Dona Santa
Maria Júlia do Nascimento (1877–1962), conhecida como Dona Santa, é considerada a mais célebre rainha de maracatu da história do Recife. Filha e neta de africanos escravizados, nasceu no Recife e cresceu em meio aos cultos afro-brasileiros e às festas populares.
Na década de 1930, assumiu a presidência administrativa do Nação Elefante, fato incomum para as mulheres da época. Após a morte do rei João Vitorino, passou a liderar plenamente a agremiação e foi coroada rainha em 1947.
Além de rainha, era respeitada como ialorixá e juremeira, atuando em práticas religiosas e de cura. Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, utilizava os ensaios do maracatu como forma de proteger os cultos de candomblé da perseguição policial.
Nos desfiles carnavalescos, usava vestidos luxuosos inspirados nas cortes europeias do século XIX e carregava um espadim metálico com o qual abençoava o público.
Dona Santa faleceu em 1962, aos 85 anos. Sua morte causou forte impacto na comunidade maracatuzeira, levando o Nação Elefante a interromper suas atividades, retomadas apenas em 1985.
Cortejo
Os cortejos de maracatu recriam simbolicamente antigas cortes africanas. Mesmo submetidos à escravidão, muitos africanos preservaram referências de suas estruturas políticas e nobiliárquicas, que passaram a ser representadas nessas celebrações.
O desfile é aberto pelo porta-estandarte, seguido pela dama do paço, responsável por conduzir a calunga, boneca sagrada que simboliza a ancestralidade e o axé da nação.
A palavra calunga, de origem bantu, relaciona-se ao mar e ao cemitério, espaços considerados sagrados de passagem entre a vida e a morte. No maracatu nação, a calunga é vista como elo espiritual entre os ancestrais e a comunidade.
Atrás da dama do paço seguem as iabás, representação da nobreza feminina da nação. No contexto afro-brasileiro, o termo passou a designar os orixás femininos em geral, especialmente aqueles associados à maternidade, à fertilidade e à realeza.
Ao lado da corte aparecem as catirinas, geralmente jovens vestidas com roupas de chitão, tecido estampado e colorido muito presente na cultura popular nordestina.
Encerrando o cortejo vêm os batuqueiros, responsáveis pela base rítmica do desfile. Entre os instrumentos utilizados destacam-se:
alfaias (grandes tambores);
caixas ou taróis;
ganzás;
gonguês;
xequerês;
maracás;
abês, tradicionalmente tocados por mulheres.
O toque coletivo desses instrumentos constitui um dos aspectos mais marcantes do espetáculo.
Personagens do cortejo
Porta-estandarte — conduz o estandarte da agremiação.
Dama do paço — leva a calunga.
Rei e rainha — figuras centrais do cortejo.
Vassalo — conduz o pálio que protege os soberanos.
Príncipes, ministros e embaixadores — representam a corte.
Damas da corte — senhoras ligadas simbolicamente à nobreza.
Catirinas — personagens populares do cortejo.
Batuqueiros — músicos responsáveis pela percussão.
Atualmente, existem grupos de Maracatu Nação em diversas regiões do Brasil e também no exterior, especialmente na Europa e na América do Norte, onde a manifestação se difundiu por meio de projetos culturais, oficinas e grupos de música percussiva.
Dona Santa, Rainha do Maracatu Elefante. Foto tirada por volta de 1935.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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