A ocupação do Irã e as Repúblicas do Azerbaijão e de Mahabad
O Estado Imperial do Irã, também conhecido como Irã Pahlavi, foi o Estado iraniano governado pela dinastia Pahlavi. Até 1935, o país era oficialmente conhecido nas relações internacionais como Pérsia. A dinastia Pahlavi foi estabelecida em 1925, quando Reza Khan assumiu o trono como Reza Shah Pahlavi, e permaneceu no poder até 1979.
Durante as primeiras décadas do século XX, o Irã sofreu forte influência estrangeira, especialmente do Reino Unido e do Império Russo, posteriormente substituído pela União Soviética. Embora Reza Shah procurasse preservar a independência iraniana e equilibrar a influência das grandes potências, a posição estratégica do país tornou-se especialmente importante durante a Segunda Guerra Mundial.
Em junho de 1941, a Alemanha nazista rompeu o Pacto Molotov–Ribbentrop e invadiu a União Soviética. A partir daquele momento, britânicos e soviéticos passaram a considerar o Irã fundamental para o esforço de guerra dos Aliados, tanto por sua posição geográfica quanto por sua importância como rota de transporte de suprimentos para a União Soviética.
O governo iraniano mantinha uma política de neutralidade. Os britânicos e soviéticos, entretanto, estavam preocupados com a presença de cidadãos alemães no país e com a possibilidade de que a Alemanha utilizasse o território iraniano para ampliar sua influência ou ameaçar as linhas de abastecimento aliadas. Os Aliados pressionaram Reza Shah para que expulsasse os alemães considerados suspeitos de espionagem ou colaboração com o Eixo.
Reza Shah recusou-se a atender integralmente às exigências. Em consequência, em 25 de agosto de 1941, tropas britânicas e soviéticas invadiram o Irã em uma operação coordenada. A resistência iraniana foi limitada, e o governo perdeu rapidamente a capacidade de controlar a situação. As forças aliadas chegaram a Teerã em setembro.
Em 16 de setembro de 1941, Reza Shah foi obrigado a abdicar. Seu filho, Mohammad Reza Pahlavi, assumiu o trono como novo xá do Irã.
A situação foi posteriormente regulamentada pelo Tratado Tripartite de Aliança, assinado em 29 de janeiro de 1942 entre o Irã, o Reino Unido e a União Soviética. O acordo reconhecia a integridade territorial, a soberania e a independência política do Irã e estabelecia que as forças britânicas e soviéticas deixariam o país no prazo previsto após o fim da guerra.
O território iraniano tornou-se uma importante rota de abastecimento dos Aliados, especialmente para o envio de equipamentos e suprimentos à União Soviética. Essa rota ficou conhecida como Corredor Persa.
A crise do Irã e a retirada soviética
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a presença das tropas estrangeiras no Irã tornou-se uma questão internacional. O Tratado Tripartite estabelecia que as tropas aliadas deveriam deixar o território iraniano até seis meses depois do fim das hostilidades. Como o Japão assinou sua rendição em 2 de setembro de 1945, o prazo para a retirada expirava em 2 de março de 1946.
Britânicos e americanos retiraram suas forças dentro do prazo, mas a União Soviética manteve tropas no norte do Irã. A permanência soviética provocou uma crise diplomática envolvendo o governo iraniano, Moscou, Washington e o recém-criado Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Os soviéticos apoiavam movimentos políticos autonomistas no Azerbaijão iraniano e no Curdistão iraniano. No final de 1945 e início de 1946 surgiram duas entidades políticas apoiadas pela União Soviética: o Governo Popular do Azerbaijão, liderado por Sayyid Jafar Pishevari, e a República de Mahabad, no Curdistão iraniano, liderada por Qazi Muhammad.
A crise tornou-se uma das primeiras grandes disputas do período pós-Segunda Guerra Mundial e é considerada um dos episódios importantes da formação da Guerra Fria. Historiadores, entretanto, divergem sobre as motivações exatas de Moscou e sobre o peso relativo das questões territoriais, políticas e petrolíferas na estratégia soviética.
Os Estados Unidos exerceram forte pressão diplomática sobre a União Soviética, enquanto o primeiro-ministro iraniano Ahmad Qavam conduziu negociações com Moscou. Em março e abril de 1946, foram alcançados entendimentos que previam a retirada soviética, negociações sobre o Azerbaijão e a apresentação ao Parlamento iraniano de um acordo para exploração conjunta do petróleo no norte do país.
A retirada das tropas soviéticas foi concluída em maio de 1946. Um telegrama do Departamento de Estado americano de 21 de maio registrou que as forças soviéticas haviam deixado o Azerbaijão iraniano em 6 de maio.
Sem o apoio militar direto soviético, as entidades políticas estabelecidas no Azerbaijão e em Mahabad ficaram muito mais vulneráveis à ação do governo central iraniano.
Governo Popular do Azerbaijão
O Partido Democrático do Azerbaijão (PDA) foi fundado em setembro de 1945 e passou a ser liderado por Jafar Pishevari, político com longa trajetória no movimento revolucionário iraniano.
O partido rapidamente ampliou sua influência pelo Azerbaijão iraniano. Com o apoio político e militar soviético, conseguiu assumir o controle de grande parte da administração local e organizar forças próprias.
Em novembro de 1945, as forças vinculadas ao movimento passaram a controlar importantes cidades e vias da região. Em dezembro, foi estabelecido em Tabriz um governo autônomo conhecido como Governo Popular do Azerbaijão.
O novo governo promoveu reformas políticas, educacionais e linguísticas e procurou ampliar o uso da língua azeri. Ao mesmo tempo, a administração de Pishevari dependia fortemente do contexto criado pela ocupação soviética e pela incapacidade do governo central iraniano de intervir militarmente na região enquanto as tropas soviéticas permanecessem no território.
A retirada soviética alterou completamente esse equilíbrio. Sem a proteção direta do Exército Vermelho, o governo de Pishevari ficou cada vez mais isolado.
O governo iraniano iniciou então negociações e, posteriormente, avançou para restaurar sua autoridade sobre a região. Em dezembro de 1946, tropas iranianas entraram no Azerbaijão e retomaram Tabriz. O governo autônomo entrou em colapso, e Pishevari fugiu para a União Soviética.
A restauração do controle iraniano sobre o Azerbaijão marcou o fim de uma das principais entidades políticas apoiadas por Moscou durante a crise de 1946.
República de Mahabad
No Curdistão iraniano, a situação desenvolveu-se de maneira semelhante, embora apresentasse características próprias.
A República de Mahabad foi proclamada em 22 de janeiro de 1946, tendo Qazi Muhammad como presidente. A nova entidade política tinha como centro a cidade de Mahabad e defendia maior autonomia para os curdos do Irã.
Entre as principais forças militares da república estavam os peshmerga, combatentes curdos. Mustafa Barzani, importante líder curdo iraquiano, desempenhou papel central na organização e no comando das forças militares de Mahabad.
Barzani havia chegado ao Irã com seus combatentes depois de enfrentar o governo iraquiano. Sua presença fortaleceu militarmente a República de Mahabad e aumentou sua capacidade de resistir às forças do governo iraniano.
Apesar disso, a república enfrentava sérios problemas. O apoio entre as diferentes tribos curdas não era uniforme, e havia divergências políticas e territoriais entre os líderes locais. Além disso, a existência de Mahabad estava fortemente ligada à situação criada pela presença soviética no norte do Irã.
Durante 1946 ocorreram confrontos entre forças curdas e tropas iranianas. Os peshmerga conseguiram algumas vitórias locais, mas sua situação militar deteriorou-se à medida que o apoio soviético diminuía.
A queda do Governo Popular do Azerbaijão, em dezembro de 1946, deixou Mahabad praticamente isolada.
O exército iraniano avançou então sobre a região. Diante da superioridade militar iraniana e do enfraquecimento do apoio tribal, Qazi Muhammad e seus aliados não conseguiram organizar uma resistência capaz de impedir a retomada da cidade.
Em 15 de dezembro de 1946, tropas iranianas entraram em Mahabad, encerrando a existência da república.
Qazi Muhammad foi preso e posteriormente julgado pelo governo iraniano. Em 31 de março de 1947, foi enforcado em Mahabad, juntamente com outros dirigentes da República de Mahabad.
A queda de Mahabad não encerrou a trajetória de Mustafa Barzani.
Barzani e seus combatentes recusaram-se a entregar todas as armas e iniciaram uma retirada em direção ao Iraque. Durante o percurso, enfrentaram forças iranianas e iraquianas.
No Iraque, Barzani voltou a entrar em conflito com o governo de Bagdá. Diante da pressão militar, decidiu conduzir seus homens para o território soviético.
A marcha ocorreu em 1947 e foi marcada por combates e dificuldades logísticas. Os combatentes de Barzani tiveram de atravessar o território iraniano enquanto eram perseguidos pelas forças governamentais.
Em junho de 1947, depois de diversos confrontos, Barzani e seus homens alcançaram o rio Araxes e atravessaram a fronteira para a União Soviética.
A chegada de Barzani e de seus combatentes ao território soviético encerrou uma das etapas mais dramáticas da crise curda do pós-guerra. Barzani permaneceria na União Soviética por vários.
A questão do petróleo
A retirada soviética não encerrou completamente a disputa entre Teerã e Moscou. Um dos pontos mais importantes das negociações de 1946 era a questão das reservas de petróleo do norte do Irã.
Em abril de 1946, o primeiro-ministro Ahmad Qavam e o embaixador soviético Ivan Sadchikov chegaram a um acordo para a criação de uma companhia petrolífera conjunta. Pelos termos negociados, os soviéticos teriam 51% de participação durante os primeiros 25 anos, enquanto o Irã teria 49%. Nos 25 anos seguintes, a participação seria dividida igualmente. O acordo, entretanto, precisava ser submetido ao Majlis, o Parlamento iraniano.
A questão petrolífera permaneceu ligada à crise política entre Irã e União Soviética. Depois das eleições parlamentares de 1947, o novo Majlis recusou-se a ratificar o acordo.
Em 22 de outubro de 1947, o Parlamento iraniano declarou nulo o acordo petrolífero firmado em 1946. A votação foi de 102 votos a 2.
A rejeição representou uma importante derrota para as pretensões soviéticas no norte do Irã e reforçou a posição do governo iraniano de preservar o controle sobre seus recursos naturais.
A crise do Irã e a Guerra Fria
A Crise do Irã de 1946 tornou-se um dos primeiros grandes conflitos diplomáticos do período pós-Segunda Guerra Mundial e um importante episódio na formação da Guerra Fria.
A disputa envolveu diretamente o Irã, a União Soviética, os Estados Unidos e, em menor grau, o Reino Unido. O conflito combinou questões de soberania territorial, movimentos autonomistas, interesses estratégicos, petróleo e a crescente rivalidade entre as duas grandes potências que emergiram da Segunda Guerra Mundial.
Para o governo iraniano, a crise demonstrou os riscos de permitir que uma potência estrangeira mantivesse forças militares em seu território. Para os Estados Unidos, o episódio tornou-se um importante exemplo da necessidade de conter a expansão da influência soviética.
A atuação americana foi decisiva para aumentar a pressão internacional sobre Moscou, especialmente por meio das Nações Unidas. A crise também contribuiu para consolidar a percepção, em Washington, de que a União Soviética estava disposta a utilizar sua presença militar e seus aliados locais para ampliar sua influência. A importância do episódio para a formação da política de contenção e para a história inicial da Guerra Fria é reconhecida pela historiografia, embora sua interpretação continue sendo objeto de debate.
Nos anos seguintes, os Estados Unidos ampliariam progressivamente seus vínculos com o Irã, fornecendo assistência econômica, técnica e militar e estabelecendo relações cada vez mais estreitas com o governo do xá.
A crise de 1946, portanto, não foi apenas uma disputa regional. Ela marcou um dos primeiros confrontos da nova ordem internacional do pós-guerra e ajudou a transformar o Irã em uma peça estratégica da disputa entre Estados Unidos e União Soviética no Oriente Médio.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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