O Quarto Sem Espelhos Quando Yúsuf abriu os olhos, acreditou estar sonhando. O teto era baixo, de gesso rachado, e uma única lâmpada amarela balançava sem vento. Não havia janelas. A porta, de madeira escura, não possuía maçaneta. O ar tinha o cheiro de poeira antiga e de páginas esquecidas. Havia três cadeiras. Numa delas estava uma mulher de vestido verde-escuro, os dedos entrelaçados com uma serenidade inquietante. Noutra, um homem magro de barba curta e olhar febril tamborilava os dedos no braço da cadeira. A terceira estava vazia. — Finalmente — disse a mulher. — Pensei que o quarto tivesse desistido de você. — Onde estamos? — perguntou Yúsuf. O homem sorriu. — Se descobrir, avise. Estamos aqui há um tempo que não pode ser medido. Yúsuf aproximou-se da porta e tentou forçá-la. Nada aconteceu. Bateu, gritou, encostou o ouvido. Silêncio. — Não adianta — disse a mulher. — A porta só se abre para quem não precisa mais dela. Ela se apresentou como Samira. O homem chamava-se Farid. Nenhum dos dois lembrava o momento exato em que chegara ali; recordavam apenas um corredor escuro e uma voz que lhes perguntara o próprio nome. Yúsuf sentou-se na cadeira restante. Assim que o fez, percebeu um detalhe perturbador: não havia espelhos no quarto. Nem vidro, nem metal polido, nem superfície capaz de refletir um rosto. — Por quê? — perguntou. Farid soltou uma risada seca. — Porque aqui o reflexo anda. Yúsuf franziu a testa. Samira desviou o olhar para um canto sombrio do aposento. — Você conhece a palavra Qarīn? Ele conhecia. Desde criança ouvira a avó contar que cada ser humano nasce acompanhado por um espírito invisível, um companheiro feito de fumaça sem fogo, que sussurra desejos, medos e pensamentos obscuros. Alguns o chamavam de gêmeo espiritual; outros, de tentador. — Isso é superstição — respondeu, embora a voz lhe saísse fraca. Farid inclinou-se para a frente. — Continue repetindo isso. Foi o que fiz durante anos. A lâmpada oscilou. Por um instante, Yúsuf viu uma quarta sombra projetada na parede. Piscou e ela desapareceu. Passaram-se horas — ou minutos; o tempo ali escorria sem forma. Conversaram sobre a vida. Samira confessou ter dedicado a existência inteira a ser admirada. Casara-se por conveniência, sorrira quando queria gritar, transformara o próprio rosto numa máscara para sobreviver ao olhar alheio. Farid admitiu algo pior: denunciara um amigo por inveja, convencendo-se de que agira em nome da justiça. Quando chegou sua vez, Yúsuf hesitou. — Fui um homem comum. Os outros dois o encararam em silêncio. — Um homem comum não vem parar aqui — disse Samira. Naquela noite — se é que havia noite — Yúsuf acordou com um murmúrio junto ao ouvido. “Você não contou tudo.” Ergueu-se assustado. Os outros dormiam. A voz parecia vir de dentro de sua cabeça. “Diga a eles.” — Quem está aí? Nenhuma resposta. Apenas o zumbido da lâmpada. No dia seguinte, Samira observou: — Você o ouviu, não foi? Yúsuf sentiu o sangue gelar. — Ouvir o quê? Farid respondeu antes dela: — O seu Qarīn. Yúsuf tentou rir, mas o som morreu na garganta. — Vocês estão brincando comigo. Farid apontou para o chão. Havia pegadas de cinza ao lado da cadeira de Yúsuf. A partir de então, o quarto tornou-se mais estreito. As paredes pareciam aproximar-se alguns centímetros a cada conversa. O ar pesava. As vozes aumentaram. Samira passou a ouvir críticas incessantes sobre sua beleza perdida. Farid escutava o amigo traído chamando-o de covarde. Yúsuf ouvia algo diferente: a própria voz. “Você a deixou morrer.” Ele tapava os ouvidos, mas o sussurro continuava. Finalmente confessou. Anos antes, sua irmã mais nova lhe telefonara pedindo ajuda. Estava doente, sozinha, e ele prometera visitá-la “na próxima semana”. Não foi. Quando decidiu ir, ela já havia morrido. — Eu não a matei — disse, ofegante. “Mas escolheu não ir”, sussurrou a voz. Samira fechou os olhos. Farid não demonstrou surpresa. — É isso — murmurou ele. — O quarto não pune nossos atos. Obriga-nos a habitá-los. A lâmpada apagou-se. Na escuridão, ouviram passos. Não eram passos humanos; soavam leves demais, como cinzas sopradas pelo chão. Quando a luz voltou, três figuras estavam de pé atrás de cada cadeira. Yúsuf encarou a que lhe pertencia. Tinha sua altura, seus traços, sua cicatriz na sobrancelha. Os olhos, porém, eram fundos e antigos, como poços sem água. — Não — sussurrou. A criatura sorriu com sua própria boca. Samira começou a chorar ao ver a sua. Farid recuou até a parede. Os Qarīns não falavam alto. Murmuravam junto ao ouvido de seus companheiros, e cada sussurro parecia arrancar um pedaço da pele invisível que os separava de si mesmos. Yúsuf percebeu então o verdadeiro horror: aquelas criaturas não eram demônios estrangeiros. Eram as versões de si mesmos alimentadas por tudo o que esconderam. Ele tentou afastar o Qarīn, mas sua mão atravessou a fumaça escura. — O que vocês querem? — gritou. A criatura respondeu com sua própria voz: — Apenas ser reconhecido. Seguiu-se um silêncio tão profundo que Yúsuf ouviu o próprio coração. Samira foi a primeira a ceder. Aproximou-se de sua sombra e disse: — Passei a vida implorando para ser vista. Nunca me vi. A figura tocou-lhe o rosto e dissolveu-se no ar. Samira desapareceu junto dela, como se tivesse atravessado uma cortina invisível. Farid permaneceu imóvel por muito tempo. Depois caiu de joelhos. — Eu o traí porque queria ser ele. Seu Qarīn inclinou a cabeça. Ambos sumiram. Restaram apenas Yúsuf e sua sombra. — Eu deveria ter ido — murmurou ele. O Qarīn aproximou-se. — Por que não foi? Yúsuf sentiu as palavras queimarem. — Porque eu estava cansado. Porque achei que haveria tempo. Porque minha vida parecia mais urgente do que a dela. A criatura ergueu a mão. Pela primeira vez, Yúsuf não recuou. — Você me odeia? — perguntou. O Qarīn sorriu tristemente. — Sou o ódio que você guardou de si mesmo. Então o quarto começou a desaparecer. As paredes tornaram-se neblina; a lâmpada dissolveu-se em poeira dourada. Restou apenas a porta. Agora havia uma maçaneta. Yúsuf olhou para o Qarīn. — Você vem comigo? — Sempre vim. Ele abriu a porta. Do outro lado não havia paraíso nem fogo eterno, mas um corredor infinito revestido de espelhos. Em cada espelho via-se caminhando ao lado de sua sombra, inseparáveis. Yúsuf deu o primeiro passo e compreendeu, tarde demais, a sentença daquele lugar: o inferno não era estar preso com os outros. Era descobrir que nunca se esteve sozinho.

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