William Godwin e a Revolução Francesa: filosofia, radicalismo e as origens do anarquismo moderno
William Godwin (3 de março de 1756 – 7 de abril de 1836) foi um jornalista, filósofo político e romancista inglês. É considerado um dos primeiros expoentes do utilitarismo e o primeiro defensor moderno do anarquismo. O teórico anarquista russo Peter Kropotkin (1842–1921), geógrafo, historiador e um dos principais formuladores do comunismo anarquista, afirmaria mais tarde que Godwin foi um importante precursor dessa corrente política.
Contexto político da Grã-Bretanha
No final do século XVIII, a política britânica era dominada por dois grandes agrupamentos:
Whigs: defendiam limites ao poder real, maior influência do Parlamento e reformas políticas graduais. Muitos simpatizaram inicialmente com a Revolução Francesa.
Tories: apoiavam a monarquia, a Igreja Anglicana e a preservação das instituições tradicionais, tornando-se os principais opositores das ideias revolucionárias francesas.
Esses grupos ainda não eram partidos modernos, mas alianças parlamentares que dariam origem aos futuros partidos Liberal e Conservador britânicos.
Primeiros escritos políticos
Em 1793, enquanto a Revolução Francesa estava em pleno andamento, Godwin publicou anonimamente uma biografia de William Pitt, o Velho (1708–1778), estadista whig que serviu como Primeiro-Ministro da Grã-Bretanha entre 1766 e 1768 e ficou conhecido por sua liderança durante a Guerra dos Sete Anos. Em seguida, escreveu panfletos políticos favoráveis aos whigs.
Godwin tentou brevemente retornar ao ministério religioso em Beaconsfield, pregando que “a fé deveria ser subordinada à razão”. Poucos meses depois, durante a inauguração de um seminário em Epsom, em Surrey, fez um discurso politicamente radical no qual denunciou o poder estatal como uma instituição “artificial” e exaltou o potencial emancipador da educação, que acreditava ser capaz de substituir governos autoritários.
Crítica literária e jornalismo
Godwin trabalhou como crítico satírico no periódico The Herald of Literature, onde resenhava obras fictícias atribuídas a autores reais, imitando seus estilos literários. O sucesso dessas críticas levou-o a colaborar com a English Review, editada pelo escocês John Murray (1737–1793), importante editor londrino.
Murray encomendou-lhe também a tradução das memórias de Simon Fraser, 11º Lord Lovat (c. 1667–1747), proprietário de terras escocês e chefe do Clã Fraser de Lovat. Fraser participou da Revolta Jacobita de 1745, tentativa de restaurar a dinastia Stuart ao trono britânico, e foi condenado por alta traição, tornando-se o último homem executado por decapitação na Grã-Bretanha.
Obras literárias e crítica religiosa
Em 1784, Godwin publicou os romances Damon and Delia e Imogen, este apresentado como tradução de um antigo manuscrito galês. No mesmo ano lançou Sketches of History, coleção de sermões sobre figuras bíblicas como Aarão, Hazael e Jesus.
Inspirando-se em Paraíso Perdido de John Milton (1608–1674), poeta inglês e autor de uma das maiores epopeias da língua inglesa, Godwin interpretou Satanás como símbolo de rebelião contra a autoridade e passou a criticar o Deus cristão como um governante tirânico, aproximando-se do ateísmo.
A Grub Street e os jornais whigs
Para melhorar sua situação financeira, Godwin começou a escrever para jornais whigs da Grub Street, tradicional centro do jornalismo e da literatura comercial londrina. Tornou-se jornalista político do New Annual Register após ser apresentado ao editor George Robinson (1736–1801) por Andrew Kippis (1725–1795), pastor dissidente, biógrafo e intelectual ligado ao Iluminismo inglês.
Posteriormente colaborou com o Political Herald, usando o pseudônimo “Mucius” para atacar os tories. Nesses textos criticou o domínio colonial britânico na Irlanda e na Índia, escreveu sobre a Revolta Holandesa — guerra de independência dos Países Baixos contra a Espanha no século XVI — e previu uma futura onda revolucionária europeia, antecipando de forma notável as revoluções de 1848.
Sheridan, Holcroft e a ruptura com o cristianismo
Após a morte do editor do Political Herald, Godwin recusou o convite de Richard Brinsley Sheridan (1751–1816), dramaturgo e político whig famoso por The School for Scandal, para assumir a direção do jornal, temendo perder sua independência editorial.
Por intermédio de Sheridan, conheceu Thomas Holcroft (1745–1809), dramaturgo, romancista e radical político. As discussões com Holcroft levaram Godwin a abandonar definitivamente o cristianismo e a adotar o ateísmo.
Nesse período também atuou como tutor de Thomas Abthorpe Cooper (1776–1849), futuro ator britânico-americano. Após uma relação inicialmente difícil, Godwin tornou-se seu pai adotivo e desenvolveu uma pedagogia baseada em franqueza, confiança mútua e diálogo entre mestre e aluno.
A Revolução Francesa e os radicais ingleses
A Revolução Francesa começou em 1789 com a convocação dos Estados Gerais, a tomada da Bastilha e a derrubada do absolutismo. Muitos reformistas britânicos viram nela uma continuação dos princípios da Revolução Gloriosa de 1688, que havia limitado o poder da monarquia inglesa e fortalecido o Parlamento.
Godwin participou da Sociedade Revolucionária de Londres, fundada em 1788 para celebrar o centenário da Revolução Gloriosa. Ali conheceu Richard Price (1723–1791), pastor dissidente e filósofo político, autor do influente Discurso sobre o Amor à Pátria, que defendia liberdade religiosa, representação política mais ampla e o direito dos povos à revolução.
A controvérsia sobre a Revolução
O discurso de Price desencadeou a chamada Controvérsia da Revolução, um intenso debate público travado por meio de panfletos.
O principal opositor de Price foi Edmund Burke (1729–1797), político e filósofo irlandês-britânico, autor de Reflexões sobre a Revolução na França (1790). Burke defendia a tradição, a monarquia constitucional e mudanças graduais, tornando-se um dos fundadores do conservadorismo moderno.
Em resposta, Thomas Paine (1737–1809), escritor anglo-americano e participante das Revoluções Americana e Francesa, publicou Direitos do Homem (1791–1792), obra que defendia soberania popular, direitos naturais e reformas democráticas. Godwin apoiou entusiasticamente o livro, afirmando que ele continha “sementes de revolução” impossíveis de serem sufocadas.
Investigação sobre a Justiça Política
Apesar de simpatizar com os revolucionários franceses, Godwin participou pouco da controvérsia pública porque trabalhava em sua grande obra de filosofia política. Com apoio financeiro de George Robinson, abandonou o emprego no New Annual Register e dedicou-se integralmente ao projeto.
Após dezesseis meses de trabalho, e justamente quando a Revolução Francesa entrava em sua fase mais radical — marcada pela execução do rei Luís XVI em janeiro de 1793 e pelo início das guerras revolucionárias contra as monarquias europeias — Godwin publicou, em fevereiro de 1793, Investigação sobre a Justiça Política (An Enquiry Concerning Political Justice).
Nessa obra, argumentou que a razão humana e a cooperação voluntária poderiam substituir grande parte das instituições coercitivas, como o Estado, os governos autoritários e certas formas de propriedade. O livro tornou-se um marco do pensamento político radical e exerceu influência duradoura sobre o anarquismo, o socialismo libertário e diversos movimentos reformistas do século XIX.
Esse retrato é uma das imagens mais conhecidas de William Godwin. Trata-se de uma gravura baseada em um desenho do pintor inglês Sir Thomas Lawrence (1769–1830), importante retratista da aristocracia e dos intelectuais britânicos. A legenda indica “William Godwin, aged 48”, portanto ele teria cerca de 48 anos, o que situa o retrato por volta de 1804.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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