Lula — Origens até a vida sindical Luiz Inácio Lula da Silva (nascido Luiz Inácio da Silva; Garanhuns, 27 de outubro de 1945), conhecido mononimamente como Lula, é um ex-metalúrgico, ex-sindicalista e político brasileiro, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT). Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945, em Caetés, no interior de Pernambuco, Caetés surgiu de um povoado fundado por Miguel Quirino dos Santos. Até 1938, a localidade chamava-se "São Caetano". Emancipou-se como município em 13 de setembro de 1963, desmembrando-se do município de Garanhuns. Caetés destaca-se na geração de energia eólica. Luiz Inácio é o sétimo dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, conhecida como Dona Lindu, um casal de lavradores iletrados que vivenciou a fome e a miséria na zona mais pobre de Pernambuco. Aristides decidiu tentar a vida como estivador em Santos, levando consigo Valdomira Ferreira de Góis, a "Mocinha", prima de Dona Lindu, com quem formaria uma segunda família. Quando viajaram, Mocinha já estava grávida. Aristides e Valdomira tiveram dez filhos juntos. Nos primeiros anos, Aristides enviava dinheiro a Dona Lindu. A casa em que Lula nasceu era uma meia-água. Uma meia-água se refere a um tipo de construção ou telhado com uma única inclinação. Esse modelo de telhado, que possui somente uma "água" ou plano de escoamento para a chuva, difere do telhado convencional, que geralmente tem duas ou mais águas. Por ter uma estrutura mais simples e usar menos material, é um tipo de construção mais barata. A estrutura pode ser construída encostada em um muro ou outra parede, otimizando o espaço, especialmente em terrenos pequenos ou irregulares. É comum ser usada para construir anexos, edículas, garagens, ou mesmo casas simples de um cômodo. Meia-água é uma gíria que, em algumas regiões do Rio de Janeiro, pode se referir a uma casa pequena com poucos cômodos, muitas vezes construída nos fundos de um quintal (como uma edícula). Em contextos informais no litoral brasileiro, o termo pode ter um significado vulgar que se refere a uma prática sexual na água. A casa de Lula possuía um quarto e uma sala. Não havia banheiro, de modo que os banhos ocorriam em açudes que se localizavam de seis a oito quilômetros de distância. Os filhos dormiam juntos em redes. Havia dificuldade em acessar água potável; a água que a família bebia era transportada de açudes ou de barreiros, precisando ser coada diante da quantidade de sujeira. Em dezembro de 1952, Dona Lindu migrou para o litoral do estado de São Paulo com seus filhos para se reencontrar com Aristides. Ela acreditava que seu marido havia feito esse pedido, quando na verdade foi seu filho Jaime, que já morava com o pai, quem escreveu dizendo que esse era o desejo de Aristides. Após treze dias de viagem em um "pau-de-arara", um caminhão adaptado para transportar passageiros na caçamba, geralmente com bancos improvisados de madeira e uma cobertura de lona. Finalmente chegaram ao Guarujá, onde tiveram que dividir a convivência de Aristides com sua segunda família. A convivência difícil com Aristides, que era obsessivamente controlador, violento e arbitrário, levou Dona Lindu a sair de casa com os filhos, morando inicialmente em um barraco próximo de Aristides e, em 1955, se mudando para a Vila Carioca, um bairro de São Paulo, no distrito do Ipiranga. Lula e seu irmão José Ferreira de Melo — o Frei Chico — moraram algum tempo ainda com o pai e sua segunda família, mudando-se para a capital em 1956. Após a separação, Lula quase não se reencontrou mais com seu pai, que faleceu em 1978 sendo enterrado como indigente. Lula e seus irmãos só souberam da morte de Aristides vários dias após o enterro. Educação e trabalho Durante o período em que ambas as famílias de seu pai conviveram, Lula foi alfabetizado no Grupo Escolar Marcílio Dias, apesar da falta de incentivo do pai, analfabeto, que entendia que seus filhos não deveriam ir à escola, somente trabalhar. Ainda quando morava no Guarujá, aos oito anos, trabalhou como vendedor no cais. Aos doze anos, já em São Paulo, começou a trabalhar como entregador de roupas de uma tinturaria a fim de contribuir na renda familiar. Durante o mesmo período, também trabalhou como engraxate e auxiliar de escritório. Em 1960, conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada, como office-boy nos Armazéns Gerais Colúmbia. Após, passou a trabalhar como aprendiz de torneiro mecânico na metalúrgica Parafusos Marte. Em 1961, foi aprovado em um curso de tornearia mecânica que era mantido por um convênio entre o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e a Parafusos Marte. Nos próximos dois anos, trabalhava por meio período na Parafusos Marte e no outro meio período estudava no SENAI. Em 1963, recebeu seu diploma de meio-oficial de torneiro-mecânico no SENAI. Um "diploma de meio-oficial" envolve a conclusão de um programa de aprendizagem em um ofício ou a aprovação em um exame de certificação. Esse diploma, também chamado de licença de meio-oficial, atesta que o profissional tem as habilidades e conhecimentos necessários para trabalhar de forma autônoma. Posteriormente, refletindo sobre o impacto de sua formação como torneiro mecânico, Lula afirmou: "O SENAI foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Por quê? Por ser o primeiro filho da minha mãe a ter uma profissão. Fui o primeiro filho da minha mãe a ganhar mais que o salário mínimo, eu fui o primeiro a ter uma casa, eu fui o primeiro a ter um carro, eu fui o primeiro a ter uma televisão, eu fui o primeiro a ter uma geladeira. Tudo por conta dessa profissão, de torneiro mecânico, por causa do SENAI". Na Parafusos Marte, Lula participou de movimentos grevistas pela primeira vez. Quando sua reivindicação por aumento salarial não logrou êxito, deixou a Parafusos Marte pela Metalúrgica Independência. Foi ali que, em 1964, esmagou seu dedo em um torno mecânico, tendo que esperar horas até que o dono da fábrica chegasse e o levasse ao médico, que optou por cortar o resto do dedo mínimo da mão esquerda. Nos meses iniciais, sentia muita vergonha da mutilação, buscando esconder a mão no bolso. Relembrando o acidente, Lula afirmou: "Quebrou o parafuso de uma prensa. Fiz o parafuso e, quando fui colocar, o companheiro prensista que estava cochilando distraiu-se, largou o braço da prensa, a prensa fechou e eu perdi meu dedo." De 1964 a 1965, trabalhou na Fris-moldu-car como meio oficial torneiro. Após não ir trabalhar em um sábado, foi demitido. No ano de 1965, ficou muito tempo desempregado, passando por privações, sobrevivendo de "bicos". Em 1966, foi admitido nas Indústrias Villares, uma grande empresa metalúrgica de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista. Ali, Lula trabalhou como torneiro mecânico, recebendo um salário muito mais alto que o dos seus empregos anteriores. As Indústrias Villares eram maiores e mais organizadas se comparadas com as metalúrgicas em que havia trabalhado. Lula se manteve ligado à empresa até 1980. Sindicalismo Quando o golpe de Estado de 1964 foi deflagrado, Lula não se insurgiu; naquele momento, não possuía interesse em temas que envolviam a política e, como descreveu mais tarde, "eu não tinha a menor noção do significado daquilo. As pessoas confiavam no exército brasileiro [...] [e] eu achava que o golpe era uma coisa boa." Lula era um "típico jovem trabalhador": fanático por futebol e não muito interessado em política ou sindicatos. Lula considerava que os sindicatos eram uma perda de tempo, um espaço para disputas triviais e com uma capacidade limitada. Em 1968, filiou-se ao Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Apesar de não ter nenhuma experiência sindical, já era apontado como pessoa carismática, que se destacava e dizia o que os trabalhadores queriam escutar. Convencido a integrar a chapa, sob influência de seu irmão Frei Chico, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul, Lula elegeu-se no 19.º lugar na lista dos 25 diretores e suplentes, continuando a exercer suas atividades de operário. Empossado suplente no Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, Lula passou a gostar das atividades sindicais e, segundo narrou, foi quando obteve "um mínimo de consciência de classe". Tornou-se uma presença ativa na vida sindical, procurando acompanhar o atendimento jurídico conferido aos filiados. Tinha uma abordagem conciliadora com seus adversários durante as negociações, o que lhe garantiu destaque entre as lideranças sindicais da região, mas não era considerado um orador notável. Conforme recordou, "eu era tão inibido que, quando citavam meu nome numa assembleia, eu já ficava vermelho". No decorrer de seu período como sindicalista, participou de inúmeros cursos que abordavam relações entre empresas e trabalhadores, a legislação sobre o tema e estudou oratória. Nas eleições sindicais de 1972, seu trabalho na suplência lhe rendeu a indicação unânime para a primeira secretaria, que na hierarquia era superada somente pela presidência. Após a vitória de sua chapa, que era liderada por Paulo Vidal, foi dispensado das atividades como operário, recebendo seu salário integral. Foi criada a Diretoria de Previdência Social e FGTS, que lhe foi atribuída. Também viajou pelo Brasil buscando representar o sindicato e defendendo a visão que a entidade possuía sobre o "novo sindicalismo brasileiro". Na época, o líder comunista Emílio Bonfante Demaria tentou convencê-lo a filiar-se, mas Lula não se interessou nem pelo PCB, nem por "nenhuma outra organização clandestina". Embora Lula tivesse contatos indiretos com vários comunistas, ele não gostava dos métodos de atuação dos comunistas, por meio de subterfúgios, e afirmou a seu irmão Frei Chico que não voltaria a fazer parte de reuniões secretas. Em 1975, Lula foi eleito presidente do sindicato, em um pleito que não contou com chapas opositoras. Nos bastidores do movimento sindical, acreditava-se que Vidal, agora primeiro secretário, continuaria liderando a categoria, enquanto Lula, como uma estrela em ascensão do "novo sindicalismo", exerceria um papel decorativo. A posse da nova diretoria contou com a presença do governador Paulo Egydio Martins; anos depois, Paulo Egydio revelou que decidiu ir à solenidade pois acreditava que Lula era um desafeto dos comunistas. Lula afastou eventualmente a influência de Vidal no sindicato. De acordo com o depoimento de José de Segadas: "Lula encarnava a esperança, há muito tempo mantida por homens de poder [incluindo Paulo Egydio] de que um dirigente sindical legítimo e não comunista poderia um dia emergir para libertar os patrões e funcionários do governo de homens desonestos que eles não respeitavam, mas sem os quais não conseguiriam viver face à ameaça 'comunista'." José de Segadas Vianna (Rio de Janeiro, 1 de julho de 1906 — Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1991) foi um político brasileiro. Foi ministro do Trabalho, Indústria e Comércio no governo Getúlio Vargas, de 5 de setembro de 1951 a 17 de junho de 1953. Voltou a assumir o mesmo posto interinamente no governo Ranieri Mazzilli, de 28 de agosto a 8 de setembro de 1961. Ranieri Mazzilli (Caconde, 27 de abril de 1910 — São Paulo, 21 de abril de 1975) foi um advogado, jornalista e político brasileiro, tendo sido presidente da República em dois momentos durante a década de 1960. O primeiro, após a renúncia do titular Jânio Quadros, e durante a ausência do vice-presidente João Goulart, que estava em visita oficial à República Popular da China. Neste período, Mazzilli governou o país durante treze dias, de 25 de agosto a 7 de setembro de 1961. Mazzilli governou o Brasil, pela segunda vez, novamente por treze dias, de 2 de abril de 1964 até 15 de abril de 1964, por ocasião da cassação do mandato de João Goulart pelo Congresso Nacional em decorrência do Golpe de 1964. Segadas foi deputado constituinte em 1946 e em 1954. Saiu do Ministério do Trabalho no governo Vargas por discordar da aliança do então deputado João Goulart com os comunistas. Em 1958, desligou-se do PTB, por discordar da aliança oficial entre o PTB (comandado por Jango) e partidos comunistas. Segadas foi Secretário de Segurança do antigo Estado da Guanabara em 1961, sob a gestão de Carlos Lacerda. Jornalista, coautor da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), membro da Organização Internacional do Trabalho, elaborou a Constituição da República Dominicana em 1960. Diretor no Ministério do Trabalho, na gestão de Lindolfo Collor, deu um parecer contrário à entrada da Coca-Cola no Brasil, seguindo pareceres técnicos da época. Na presidência do sindicato, Lula ganhou projeção nacional ao liderar reivindicações pela reposição dos salários. Lula tentou estabelecer sua imagem como um agente independente, "sem o rabo preso", ao mesmo tempo em que cultivava relações com autoridades da ditadura militar, da indústria e da mídia. Quando o presidente da República, Ernesto Geisel, esteve em São Bernardo do Campo, Paulo Egydio apresentou-lhe Lula, que buscava entregar uma carta com as reivindicações. O governador descreveu Lula como "o mais importante dirigente sindical do país". Nas suas viagens para Brasília, considerou que a representatividade de trabalhadores no Congresso era baixa e, apesar de reiterar que não gostava de política, começou a se aproximar da política convencional; neste período, foi-lhe atribuído um bordão que afirmava que, se alguém quisesse criar um "partido dos trabalhadores", teria que "usar macacão". Lula foi reeleito presidente do sindicato em 1978, novamente sem oposição. No segundo mandato, com a inflação crescente diminuindo o poder de compra, a campanha pela reposição salarial ganhou força. Lula e o sindicato adotaram uma postura mais assertiva e conflituosa, organizando greves de metalúrgicos da Região do ABC no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. A primeira se iniciou em 12 de maio de 1978, reivindicando aumento salarial e melhores condições de trabalho. Nos quatro meses seguintes, as paralisações abrangeram 235 mil trabalhadores; em 1978, 539 mil trabalhadores tomaram parte de 24 greves. Em março de 1979, uma greve geral envolveu 600 fábricas da região. No Estádio 1.º de Maio, o sindicato organizou manifestações que reuniram entre 55 mil e 105 mil grevistas, familiares e espectadores. Ao término do movimento, o governo concedeu aumentos salariais superiores ao previsto. O Poder Judiciário declarou ilegais as greves dos metalúrgicos. Por seu papel de liderança, Lula foi detido por 31 dias nas instalações do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) paulista, sob a acusação de violar a Lei de Segurança Nacional. Na prisão, Lula foi relativamente bem tratado. Recebeu assistência odontológica e, quando sua mãe faleceu, as autoridades permitiram que fosse ao velório. O sindicato sofreu intervenção, aprovada pelo ministro Murilo Macedo, e Lula teve seu mandato suspenso temporariamente. Em 1981, foi condenado pela Justiça Militar a três anos e meio de detenção por incitação à desordem coletiva, tendo, porém, após recorrer, foi absolvido no ano seguinte. As greves no ABC fizeram com que Lula ganhasse proeminência nacional e internacional. O The New York Times escreveu em 1981 que "Luiz Inácio da Silva é para o Brasil o que Lech Wałęsa é para a Polônia". Lech Wałęsa (29 de setembro de 1943) é um estadista polonês, dissidente e ganhador do Prêmio Nobel da Paz que foi presidente da Polônia entre 1990 e 1995. Após vencer a eleição de 1990, Wałęsa tornou-se o primeiro presidente democraticamente eleito da Polônia desde 1926 e o primeiro presidente polonês eleito pelo voto popular. Eletricista de profissão, Wałęsa, em 1980, liderou a greve no estaleiro de Gdansk, que resultou na criação do Solidariedade, o primeiro sindicato independente do Bloco Soviético. Liderando um esforço pró-democrático bem-sucedido, que em 1989 pôs fim ao regime comunista na Polônia e marcou o fim da Guerra Fria. Lula ao lado da irmã Maria em 1949 e em sua juventude. Alex

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