Castro Alves - Eugénia Câmara, desavença com Tobias Barreto e amputação do pé
Antônio Frederico de Castro Alves (Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, 14 de março de 1847 — Salvador, 6 de julho de 1871) foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que lhe deram a alcunha de "poeta dos escravos"
Havia uma percepção entre os românticos condoreiros, escritores da terceira geração do Romantismo brasileiro, cujo nome vem do condor, símbolo da liberdade e visão ampla poetas, como Sousândrade e Tobias Barreto (considerado o fundador do conderismo), usavam a poesia para criticar problemas sociais, especialmente a escravidão, e para defender a liberdade; nenhum deles, entretanto, atingiu a sua popularidade e capacidade em dar visibilidade à arte poética de Castro Alves.
No Recife, Castro Alves se destacou pelas manifestações nos momentos históricos pelos quais convulsionava a opinião pública; em começos de 1866, na mesma rua do Hospício onde morou, juntou-se a Augusto Guimarães, Rui Barbosa, Plínio de Lima, Regueira Costa e outros na fundação de uma sociedade abolicionista. Apesar de ter manifestado interesse em se alistar, não foi simpático à Guerra do Paraguai — sentimento que não o impediu de prestar homenagem patriótica ao amigo Maciel Pinheiro, que partira para o teatro das lutas; numa manifestação popular em defesa da república, que a polícia reprimiu, onde ele proferiu de improviso: "A praça, a praça é do povo / Como o céu é do condor."
Castro Alves e Tobias Barreto eram amigos e considerados as duas maiores expressões da academia recifense; mas o escritor sergipano, dez anos mais velho, era dotado de temperamento nervoso, por vezes insociável — antítese do baiano, de índole meiga e que atraía os que lhe conheciam. A disputa entre ambos se deu quando Barreto se enamorou da atriz Adelaide Amaral, da mesma companhia de Eugénia Câmara, e passou a defendê-la em detrimento da outra: formaram-se, assim, dois partidos na cidade em que cada grupo defendia suas musas.
Eugénia Infante da Câmara (Lisboa, 9 de abril de 1837 - Rio de Janeiro, 28 de maio de 1874) foi uma atriz de teatro portuguesa, poetisa, autora e tradutora de peças teatrais.
Eugénia Câmara chegou ao Rio de Janeiro em 1859, levada pelo artista e empresário Furtado Coelho, que, em determinada época, foi seu amante. Em 1863, a companhia transferiu-se para a cidade de Recife e Eugênia se apresentou no Teatro Santa Isabel.
Após uma noite em que Tobias e seus aliados vaiaram Eugênia, Castro Alves improvisou avassaladoramente uma réplica e, dias depois, em novo confronto, nova vitória sobre o rival com "versos que ficaram memoráveis", onde o baiano aludia ao fato de Adelaide ser casada e, portanto, infiel: "Sou hebreu, não beijo as plantas / Da mulher de Putifar…", levando a disputa para as páginas da imprensa e a uma derrota fragorosa de Barreto. Castro Alves assim conquistara a amante e o público e, já tendo perdido o pai, perdeu também "o recato aos seus caprichos amorosos".
A mulher de Potifar é uma figura bíblica, mencionada no Livro de Gênesis, que ficou conhecida por tentar seduzir José e, ao ser rejeitada, acusá-lo falsamente de tentativa de estupro.
A partir dessa narrativa bíblica, surgiu a expressão "Síndrome da Mulher de Potifar" no contexto jurídico e social. Esse termo é usado para descrever situações em que uma pessoa, geralmente uma mulher rejeitada, faz uma denúncia falsa com a intenção de vingança.
Tamanha foi sua paixão e insistência que não restou a Eugénia Câmara senão ceder-lhe ao assédio; ela então vivia com o abastado guarda-livros Veríssimo Chaves, que mantinha seus luxos. Abandonando um amante por outro.
Ela não seguiu com a Companhia quando esta partiu em sua turnê para a Bahia, e junto ao jovem poeta foi morar numa pequena casa à rua do Barro, no caminho do Jaboatão, e compôs ali a peça Gonzaga, fez traduções e até iniciou a escrita de uma novela (que se perdeu). Ficaram até maio de 1867, quando ambos partiram para Salvador.
Passagem pela Bahia
Em Salvador, o casal de amantes se hospedou no Hotel Figueiredo, no centro, atendendo ao desejo de Castro Alves de que os notem, uma afronta à sociedade baiana; mas logo a atriz, tendo o amor a esmaecer, manifestou o desejo de voltar aos palcos e os dois se transferiram para a quinta da Boa Vista, onde fora o hospital do Dr. Alves e morou a família alguns anos (a casa estava abandonada, após a morte do pai). Ela passou a se apresentar numa companhia que atuava no Teatro S. João: ali estreou em 20 de junho de 1867.
Em 7 de setembro, estreou Gonzaga, tendo Eugênia no papel principal, e foi tão grande o triunfo alcançado que a atriz recebeu uma coroa de prata por seus méritos, e obteve grande sucesso, sendo elogiada por figuras como José de Alencar e Machado de Assis.
Aumentava a popularidade, mas diminuía o encanto que os unira em Pernambuco, especialmente por parte da atriz: em Castro Alves cresceu o ciúme, que foi motivo de brigas e cenas violentas; ela queria viajar para o Rio de Janeiro e ele decidiu transferir-se para São Paulo, em cuja faculdade já militavam alguns amigos e onde Eugênia ser-lhe-ia infiel.
No Rio de Janeiro e em São Paulo
Em 10 de fevereiro de 1868, Castro Alves embarcou com Eugênia para o Rio de Janeiro, a bordo do navio Picardie, para uma breve parada antes de seguir o casal para São Paulo. No Rio, foi recebido pelo consagrado escritor José de Alencar, a quem leu os esboços de "A Cascata de Paulo Afonso" (título provisório do poema).
Desse encontro resultou o artigo "Um Poeta" publicado pelo autor de Iracema, no dia 22 de fevereiro, no jornal Correio Mercantil. Alencar fez mais, apresentou-o a Machado de Assis com uma missiva de recomendação em que indicava-lhe o "Poeta dos Escravos" com as seguintes palavras: "Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente à glória, os quais são os três círculos máximos da divina comédia do talento".
Alude José de Alencar à obra-prima de Dante Alighieri, Divina Comédia, comparando assim Castro Alves a um dos principais poetas da humanidade.
Durante sua estadia no Rio, ocorreu a vitória brasileira na Guerra do Paraguai, a Passagem de Humaitá. Acorreu grande multidão às ruas, festejando a conquista. Saiu Castro Alves à sacada do jornal Diário do Rio de Janeiro (na Rua do Ouvidor, n.º 97), onde declamou de improviso uma de suas raras poesias guerreiras, sendo aplaudido pela multidão e louvado pela imprensa, mas que ele mesmo depois escreveria no manuscrito em que registrou o poema: "não se publica" (recomendação não seguida pelos editores de sua obra). Foi ainda num dos salões deste jornal que ele recitou a uma plateia de intelectuais cenas de Gonzaga. Tais sucessos encheram-no de orgulho, apesar de simular condição humilde; em março seguiu com Eugênia para a capital paulista, onde granjeou admiração da juventude, e o ciúme em figuras como Joaquim Nabuco.
Participou em São Paulo da Loja América da Maçonaria, da qual Joaquim Nabuco e Rui Barbosa eram membros ativos. A Loja América baixará um decreto obrigando os seus afiliados à imediata libertação dos cativos que lhes pertenciam. A loja maçônica era uma instituição de relevo no cenário político, e a participação dos jovens alunos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco se seguiu à participação deles no "Ateneu", órgão estudantil desta, no qual Alves fora integrante da "comissão de literatura", da qual também era membro Joaquim Nabuco. Nos tempos acadêmicos, Rui e Castro Alves também fizeram parte da Bucha Paulista. Uma sociedade secreta originalmente criada com base nas Burschenschaften alemãs, destinada a apoiar estudantes em situação precária, mas que, em São Paulo, transcendeu o ambiente acadêmico e conquistou o poder no país através do apoio mútuo, a ponto de três dos cinco participantes da comissão que elaborou o anteprojeto da Constituição de 1891 serem integrantes da Bucha Paulísta.
Burschenschaft é uma forma tradicional de corporação estudantil, ainda hoje encontrada na Alemanha, Áustria e Chile. Em sua maioria, as "Burschenschaften" seguem princípios liberais e nacionalistas estabelecidos pela primeira "Original Burschenschaft", fundada no ano de 1815. A Burschenschaft era composta por antigos combatentes das guerras contra Napoleão Bonaparte, que haviam retomado seus estudos, em 1815, na Universidade de Jena.
Em São Paulo, cursou o terceiro ano da faculdade onde, embora sem grande dedicação ao estudo, logrou aprovação. A situação com Eugénia continuou em meio a crises marcadas por brigas, separações e reconciliações; ela continuou a se apresentar na sua peça Gonzaga. O sucesso que a cidade lhe oferecera, segundo o biógrafo Archimimo Ornelas, o fez "descuidar-se de Eugênia" e ela, "para vingar-se, procuraria outros amores", ao que ele fingiu ignorar, pois ainda lhe era constante. Em outubro, ela ainda atuou na peça e houve uma "trégua" que, contudo, cedeu a novas e fortes brigas ante o falatório sobre a conduta infiel dela, culminando na separação definitiva: "o episódio final foi de uma violência imprevista. A atriz indicou-lhe a porta…"
Acidente de caça e amputação do pé
Diante do desgaste emocional do constante chamamento às apresentações públicas e do drama passional com Eugénia, tornou-se o poeta vítima de "profundo abatimento" e procurou momentos de solidão. "Não lia, não escrevia; passeava, fumava, saía à caça, sem disparar sequer um tiro", disse Afrânio Peixoto.
No dia primeiro de novembro de 1868, segundo relata Peixoto, com a piora de sua tuberculose: "foi passar um dia no arrabalde do Brás, e à tarde desse dia tomara a espingarda e saíra para o campo. Ao transpor uma vala, com o salto, a arma voltada para baixo dispara no seu pé esquerdo. Pôde arrastar-se até a casa de seu amigo e correspondente, o médico baiano, Dr. Lopes dos Anjos. Além deste médico e amigo, prestou-lhe serviços o cirurgião Dr. Cândido Borges Monteiro, Barão de Itaúna, presidente da província.
Durante esse período, o amigo Luís Cornélio dos Santos, que morava no Rio, chamava-o para lá, onde os recursos médicos eram melhores. Em 19 de março de 1869, ele finalmente embarcou, acompanhado de um amigo; àqueles de quem não pudera se despedir pessoalmente, o fez por meio de nota publicada no jornal Ypiranga que noticiara antes sua partida e, no dia 30, publicou no Correio Paulistano uma comovente carta de agradecimento aos amigos da capital paulista.
Chegou ao Rio em 21 de março; ali passou pelo martírio de uma amputação sem qualquer anestesia. A situação pulmonar, agravada com várias hemoptises, impossibilitou o uso do clorofórmio (então o único meio anestésico): ele teve somente um lenço para morder a fim de mitigar a dor.
Hemoptise é a eliminação de sangue pela tosse, com origem nas vias aéreas inferiores (pulmões e brônquios).
A operação, realizada nos primeiros dias de junho, foi noticiada pelo jornal paulista Ypiranga no dia 21 de julho; teve início a longa convalescença, onde o poeta, agora portando uma prótese de madeira, imaginou alcançar uma "nova primavera". No período em que se hospedou com Luís Cornélio e a esposa, a casa se tornou o "Petit Salon", frequentado por jovens artistas e intelectuais, e ele teve breves paixões como as de Cândida e Laura, que relembraria no poema "Os Anjos da Meia-Noite".
Terminado com Eugênia e, em 17 de novembro, escreveu à atriz os versos de "Adeus": "Adeus! P'ra sempre, adeus! A voz dos ventos / Chama por mim batendo contra as fragas, / Vou partir... em breve o oceano / Vai lançar entre nós milhões de vagas..."; a este poema, escreveu ela uma réplica, publicada em 1910 por Xavier Marques: "Adeus, irmão desta alma, digo-te Adeus! Mas deixa que evito esse jamais! — Que o céu se compadeça aos rogos meus / E um dia cessarão teus e meus ais!" e "Sim que Deus iluminou a tua fronte / Com um raio divinal de Gênio! E Glória! Vive, sonha, canta, este horizonte!… / O Brasil quer teu nome em sua história" e conclui "Adeus! Se um dia o Destino / Nos fizer ainda encontrar / Como irmã ou como amante / Sempre! Sempre! Me hás de achar".
Após instâncias da família, junto a amigos embarcou para Bahia em 25 de novembro de 1869; ao singrar a Baía de Guanabara teve ali a ideia do título do livro que planejava publicar: "Espumas Flutuantes".
Autorretrato: Castro Alves também era desenhista.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
Comentários
Postar um comentário