O retorno à Bahia frente Ester Amzalack, uma das irmãs "hebreias" cortejadas pelo poeta verso Augusto Guimarães, cunhado e grande amigo do poeta verso Adelaide, a irmã predileta, a quem chamava "Sinhá" Sua chegada em Salvador, em relato transcrito por Archimimo Ornelas, traduziu a decadência física e moral de Castro Alves: "Foi uma cena comovente a sua entrada na casa paterna, recebido pela madrasta e pelas jovens irmãs que o adoravam. Partira forte, ereto, cheio de confiança e audácia, voltava exangue, aleijado, doente do peito, com a alma saturada de amargura".[30] Cercado do amor familiar e dos amigos, reencontrou as judias que um dia lhe inspiraram, sendo que Ester estava noiva agora. Ele fingiu estar desolado com isto e, pela janela do lar ao vê-las passar fingiu com um punhal de papel ferir-se no peito ao que elas, achando graça, fizeram-lhe sinal para que não perdesse as esperanças.[34] A 29 de janeiro partiu para o sertão uma última vez, em viagem de barco que ia "cindindo as ondas do Paraguaçu em demanda da solidão profunda dos desertos, para apascentar, como Saul, os desesperos do meu espírito, e aviventar este sangue exausto e empobrecido pela tristeza e sofrimento", como registrou o condoreiro numa carta a Luiz Cornélio; partiu, então, junto ao cunhado Augusto, para Curralinho, onde, segundo Archimimo Ornelas, achou-se influenciado pela morte de Allan Kardec ocorrida no final do ano anterior e que tivera grande repercussão naqueles dias, e produziu versos em que questionava a vida pós-morte.[30][nota 17] Registrou Fernando Correia da Silva que, "na fazenda de Sta. Isabel do Orobó,[nota 18] o reencontro com Leonídia Fraga, sua prometida de menino e hoje donzela airosa que por ele esperara sempre. Reacender a paixão primeira? Para quê, se a morte ronda?".[22] Castro Alves registrou em versos: "Hoje é o terceiro marco desta história. / Calcinado aos relâmpagos da glória, / Descri do amor, zombei da eternidade… (…) Por ti em rosas mudam-se os martírios! / Há no teu seio a maciez dos lírios… / Anjo da Caridade…"[30] Sobre esses dias escreveu ele: "Talvez tenhas além servos e amantes, / Um palácio em lugar de uma choupana. / E aqui só tens uma guitarra e um beijo, / E o fogo ardente de ideal desejo / Nos seios virgens da infeliz serrana!" — e Correia da Silva conclui: "Leonídia, a “infeliz serrana”, ficará para sempre à sua espera. Acabará por enlouquecer".[22] Ornelas diz que "Leonídia não foi correspondida como merecia" e ela "sem dúvida alguma amou o poeta" e, apesar de haver se casado mais tarde, quando enlouqueceu em suas crises voltava-lhe a lembrança, como registrou Afrânio Peixoto: "Amor divino, que sobreviveu a duas mortes, do coração amado e da razão amante".[30] Do sertão enviou ao futuro cunhado Álvaro Guimarães os manuscritos dos poemas que deveriam integrar a publicação de "Os Escravos"; este pediu-lhe que limitasse o número de poesias, e disse que iria dali retirar a tradução que fizera de Victor Hugo, por extensa, bem como havia enviado cópias para análise dos amigos Amâncio e Plínio de Lima, em Recife.[71] Em 14 outubro de 1870, combalido pela tuberculose, pediu ao amigo José Joaquim da Palma que lhe "empreste a voz" para declamar os versos de "Deusa Incruenta - A Imprensa" como "Antítese a 'Terribilis Dea'" versos de Pedro Luiz, um libelo contra a guerra; este a declama no dia imediato no Teatro São João, sendo ovacionado pela plateia.[72] Em novembro de 1870 ocorreu, finalmente, o lançamento de Espumas Flutuantes.[73] Em sua abertura a dedicatória aos familiares mortos: "À memória de meu pai, minha mãe e de meu irmão".[27] Em Salvador a irmã Adelaide apresentou-o à italiana Agnese Trinci Murri, que se estabelecera na capital, ali vindo ter como cantora lírica e vivia com a mãe, a dar aulas de piano e de canto;[nota 19] a sua beleza encantou o poeta doente, e ela não cedeu aos seus arroubos e versos; escreveu-lhe uma carta de doze laudas; na casa do Sodré tentou roubar-lhe um beijo, que ela evitou dizendo: "mulher beijada, mulher desonrada" — seriam estes arroubos fruto da doença que avançava.[23] Em 9 de fevereiro de 1871 dedicou os versos de "No Meeting du Comité du Pain" à campanha que se fazia na capital baiana de arrecadação de fundos aos franceses mutilados, órfãos e viúvas durante a Guerra Franco-Prussiana.[74] Ele fez, num sarau a 21 de março de 1871, declaração pública de seu amor a Agnese, ao que ela respondeu-lhe cantando trecho de "O Guarani" de Carlos Gomes dizendo "Tutti dobbiamo amar": o sentimento, mesmo platônico, era recíproco.[23] Este amor não correspondido marcou a produção final do poeta; num exemplo de como ela lhe inspirava realizaram juntos um passeio equestre ao Farol da Barra sob o luar, em maio de 1871, que retratou nos versos de "Noite de Maio" onde, por haver Agnese comparado a lua a um espelho, na sexta parte ele assim descreveu o cenário: "O espelho etéreo / Das nuvens nasce / Reflete em júbilo / A tua face".[75] Nos festejos do 2 de Julho (data máxima do estado da Bahia) ela fora convidada a cantar mas o fez somente após consultar o poeta, já gravemente enfermo; com a morte dele Agnese ficou confusa ante a opinião da sociedade a quem servia, e deixou de velar o amado.[23][nota 20] Morte frente Último amor do poeta: a cantora italiana Agnese Trinci Murri verso Casa da família Alves (Solar do Sodré), local onde morreu o poeta Quando eu morrer... não lancem meu cadáver No fosso de um sombrio cemitério... Odeio o mausoléu que espera o morto Como o viajante desse hotel funesto — Castro Alves, "Quando eu Morrer", São Paulo, 1869[76] O escritor gaúcho Múcio Teixeira em sua biografia do poeta de 1896 contou seu último laivo de vaidade: "Na véspera do dia fatal, depois de reiteradas súplicas, deram-lhe um espelho. Ele contemplou-se alguns instantes, visivelmente compungido, e balbuciou: «Já não sou mais o mesmo… Como a morte desfigura as suas vítimas!» Entregou-o, dolorosamente desiludido, e disse: «Ninguém mais pode entrar aqui. Quero que se lembrem do que fui, não do que sou!… Assim que eu morrer, cubram-me de flores e fechem logo o meu caixão»".[77] Relato publicado em 1921 pela revista Bahia Illustrada trouxe o registro familiar da morte do poeta (com atualização ortográfica, aqui):[78] "Recolhera-se na véspera (29 de julho), escreve a irmã do poeta, mais cedo que de costume; uma nuvem de tristeza e desânimo ensombrava-lhe os grandes olhos expressivos e embalde procuravam irmãos e amigos chamar a esperança àquela alma desolada: embalde! Na sua ideia começava a projetar-se a figura da morte… Desejou então que levassem seu leito para o salão onde costumava passar os dias, e foi assim carregado por irmão e amigos, colocado perto de uma janela, porque, dizia ele, «queria morrer olhando para o infinito azul, esse infinito que irá em breve recolher suas últimas aspirações». Dias de sofrimentos atrozes seguiram-se intercalados apenas por ligeiros momentos de alívio e tão cruéis foram eles que na véspera de morrer, à noite, perguntava as horas e se lhe respondia — 12. [replicava] «Será possível, meu Deus, ainda um dia de dor?…» E tanta aflição havia nesta exclamação, tanta, que, tendo fria mão entre as mãos de suas irmãs, sentiu que nela caíra uma lágrima e então apertando-lhas, disse: — «As contas quentes senti…» — reminiscência que lhe acudia no momento, de uma de suas últimas poesias — "A Virgem dos Últimos Amores". No dia imediato — 6 de julho de 1871 — pelas 10 horas da manhã administrava-lhe os últimos sacramentos o ilustrado e virtuoso padre Turíbio Tertuliano Fiúza. Aproximavam-se os últimos momentos e ainda em toda a lucidez de espírito, numa das ocasiões em que uma das irmãs (D. Adelaide), angustiada lhe passa o lenço pela fronte úmida, ele com voz extinta quase, murmurou-lhe: — «Guarda este lenço… com ele enxugaste o suor de minha agonia…» Esta foi sem grandes ânsias nem estertores. Imóvel já, o olhar fixo nessa nesga do céu que se descortinava da janela aberta em frente ao leito em que jazia — pouco a pouco a luz desse olhar foi-se amortecendo, até de todo difundir-se nas sombras da Eternidade… Eram 3 e meia horas da tarde…" Registro do traslado, em 1971, por Ayrton Quaresma Múcio Teixeira, lembrando a reverência que em Florença se tem diante da casa onde morou Dante, ou em Caracas junto ao panteão onde jazem os restos de Simão Bolívar, pregava que "A população baiana, sem distinção de sexo nem de classes, devia ir no dia 6 de julho de cada ano, numa espontânea procissão de imponente majestade, parar por alguns instantes diante do sobrado n. 24 da rua Sodré, onde no dia 6 de julho de 1871, às 3 ½ horas da tarde, expirou Castro Alves, contando apenas 24 anos de idade".[79] Foi sepultado no Cemitério do Campo Santo, num jazigo em que foi inserida uma "caveira de pirata" que, no dizer de uma especialista, "representa uma alusão à morte e ao caráter de transitoriedade da vida”. Seus restos mortais foram, no século XX, trasladados para o monumento em sua homenagem na praça que leva seu nome.[80] O enterro se deu no dia seguinte ao óbito (7 de julho) e foi inumado na carneira 527. Em 1874 os restos foram transferidos para o mausoléu da quadra 1, pertencente à sua madrasta, Maria Ramos Guimarães, que o adquirira para sepulcro do marido e pai do poeta.[81] Sua irmã Adelaide, falecida no Rio de Janeiro a 22 de setembro de 1940, foi a "zeladora fiel da memória do Poeta, conservando seus originais, informando de sua vida", registrou Afrânio Peixoto, concluindo que "muito lhe deve a fama de Castro Alves".[32] Em 1971 ocorreu o centenário de morte do escritor. Apesar da oposição de um sobrinho-neto do poeta que defendia fosse-lhe erguido um panteão, o então prefeito de Salvador Antônio Carlos Magalhães deliberou pelo simples traslado de seus restos mortais para o monumento à Praça Castro Alves. Isto efetivamente ocorreu, sem qualquer cerimônia especial, no dia 6 de julho daquele ano.[82] Após a consagração recebida na então capital imperial com somente vinte e um anos de idade, e as que se seguiram nos "menos de oito anos, anos tontos, que os dentre a adolescência e a mocidade, 'Castro Alves deixara uma obra sem igual em nossas literaturas'", segundo Afrânio Peixoto, que o comparou aos seus contemporâneos que mais tarde se destacariam como Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Rodrigues Alves ou Afonso Pena: tivessem estes morrido, como ele, aos vinte e quatro anos de idade, "nem a memória dos nomes lhes teria ficado e durante esse tempo o outro granjeou a fama duradoura".[3] Obra

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