Jean Genet
Jean Genet (Paris, 19 de dezembro de 1910 – 15 de abril de 1986) foi um proeminente e controverso escritor, poeta, dramaturgo e ativista francês. Suas obras exploram notavelmente a homossexualidade e o erotismo através da celebração de personagens ambivalentes que se desenvolvem em mundos obscuros.
Jean nasceu na capital francesa. Filho de uma prostituta, Camille Gabrielle Genet (1888-1919), que o criou até os 7 meses de vida, e de pai desconhecido, o pequeno Jean Genet foi enviado para uma família de acolhimento na região de Morvan (a família Régnier, composta por pequenos artesãos da aldeia de Alligny-en-Morvan) na cidade provinciana de Alligny-en-Morvan, no departamento de Nièvre, no centro da França. Segundo a biografia de Edmund White, a família adotiva de Genet proporcionou-lhe uma educação comunitária, uma mãe adotiva gentil e amorosa e um ambiente protegido. Ali, ele era feliz, um bom aluno e coroinha, mas reservado e taciturno. Foi durante esse período que Genet experimentou os primeiros sinais de afeto por homens, na pessoa do jovem Lou Culafroy — que mais tarde se tornaria "Divine", o herói e depois a heroína de Nossa Senhora das Flores — bem como por homens mais velhos. Ele obteve a nota mais alta em sua comuna no certificado de conclusão do ensino fundamental.
Ele cometeu seu primeiro furto aos dez anos de idade. Este é o ato fundador da mitologia de Genet que, condenado por seu ato, dá uma reviravolta existencialista ao santificar seu gesto, reivindicando assim uma profunda associalidade. Por este e outros delitos, incluindo repetidos atos de vadiagem, em outubro de 1924, aos 13 anos, Genet foi enviado para a École d'Alembert, uma instituição de ensino profissionalizante destinada a órfãos e jovens sob cuidados do Estado. Enquanto alguns estudantes pobres, mas merecedores, como Albert Camus, recebiam bolsas de estudo que lhes permitiriam melhorar sua posição social, Genet foi enviado para se formar como tipógrafo. De acordo com o acadêmico Ivan Jablonka, isso foi uma humilhação adicional além do abandono: vítima da " cegueira burocrática e do ruralismo fanático dos responsáveis pelo serviço de Assistência Pública", Genet desenvolveu um sentimento de desilusão e ressentimento que mais tarde explica sua atitude hostil em relação às instituições republicanas. A passagem pela École d'Alembert é frequentemente citada em biografias (como a de Edmund White) como o momento em que Genet rejeitou o caminho da integração social e profissional oferecido pelo Estado, optando pela marginalidade.
Genet permaneceu na escola por pouco tempo. Em menos de um mês (novembro de 1924), ele fugiu da instituição, levando consigo uma pequena quantia de dinheiro. Essa fuga marcou o início de sua vida de errância, pequenos furtos e passagens por prisões, temas que seriam centrais em sua obra literária. Aos 15 anos, foi enviado para a Colônia Penal de Mettray, onde ficou detido entre 2 de setembro de 1926 e 1 de março de 1929.
A Colônia Penal de Mettray era um reformatório privado, sem muros, inaugurado em 1840 para a reabilitação de jovens delinquentes do sexo masculino com idades entre 6 e 21 anos. Naquela época, crianças e adolescentes eram normalmente encarcerados com adultos. Aspectos da organização progressista da Colônia anteciparam o sistema de reformatórios inglês estabelecido no início do século XX.
Foi em Mettray, onde provavelmente toda a liturgia de dominação/submissão, a hierarquia masculina e viril, bem como o feudalismo brutal que dela resultou, cristalizou-se aos seus olhos. Em "Milagre da Rosa" (1946), ele relata esse período de detenção, que terminou aos 18 anos, quando, prevendo sua convocação, alistou-se por dois anos na Legião Estrangeira Francesa. Durante seus dois anos de carreira militar, foi enviado à Síria e ao Marrocos, então administrados pela França, países que o impressionaram profundamente devido às paixões que ali reinavam e ao forte carisma masculino de seus habitantes.
Acabou sendo expulso do exército por desonra, por ser flagrado em um ato homossexual, e passou um período como vagabundo, pequeno ladrão e prostituto pela Europa — experiências que ele narra em "O Diário do Ladrão" (1949). Em setembro de 1937, tendo retornado a Paris, vivendo de pequenos furtos (incluindo furto de livros), Genet passou quase quatro anos em prisões para adultos, principalmente em La Santé e na prisão de Fresnes. Foi durante uma de suas muitas estadias na prisão que Genet teve sua epifania: dedicar-se à escrita. Na prisão, escreveu os seus primeiros poemas e alguns rascunhos de romances, constantemente revistos, retrabalhados e rejeitados.
Genet era um perfeccionista, eternamente insatisfeito, obcecado com a beleza da palavra. Ele, que sacralizava o gesto, o significado do ato, só admitia a viabilidade da palavra quando esta era bela, poderosa e refinada.
No início de 1942, ele começou a escrever seu primeiro romance, Nossa Senhora das Flores (publicado em 1943), que conta a história de um travesti, apelidado de Divine (com seu passado como um menino chamado Louis Culafroy), seu cafetão Mignon-les-Petits-Pieds e seu colega de quarto, um africano chamado Seck. Divine é uma assassina de 16 anos de beleza estonteante. O romance nos apresenta ao mundo desses travestis e às noites de Montmartre. Genet evoca as criaturas ambíguas da vida noturna homossexual parisiense do período pré-guerra. Seus primeiros escritos, compostos na prisão, foram inicialmente publicados em Lyon pela revista L'Arbalète, a partir de março de 1943, por Olga e Marc Barbezat. Seus primeiros escritos, considerados pornográficos, foram censurados e distribuídos clandestinamente.
Sua primeira publicação foi o poema "O Condenado", impresso às suas próprias custas, em setembro de 1942, numa edição de aproximadamente 100 exemplares, a maioria distribuída gratuitamente a amigos e conhecidos. Um exemplar chegou às mãos do famoso escritor Jean Cocteau, que expressou seu entusiasmo: "este longo poema é maravilhoso". O poema trata de Maurice Pilorge, que foi executado pelo assassinato de seu amante aos vinte e quatro anos.
Jean Cocteau (1889–1963) foi um influente artista francês multidisciplinar, destacando-se como poeta, romancista, dramaturgo, cineasta e artista visual. Ele é uma figura central do modernismo e do surrealismo no século XX. Cocteau foi um dos primeiros a reconhecer o gênio de Genet.
O poema era tão explicitamente homossexual que, entre outros, Paul Valéry desaconselhou sua publicação.
Paul Valéry (1871–1945) foi um dos intelectuais mais influentes da França no século XX, destacando-se como poeta, ensaísta e filósofo da escola simbolista. Sua obra é marcada por um rigor intelectual extremo, comparando frequentemente a composição literária a processos matemáticos e científicos.
No entanto, a fama de Genet já havia disparado em 1943, embora a maioria dos círculos artísticos de Paris não tivesse lido nada de sua obra.
Nossa Senhora das Flores ainda não havia sido publicada; as correções finais e as questões pendentes estavam sendo resolvidas. No entanto, Genet já havia recebido um adiantamento para seu segundo romance, O Milagre da Rosa. Além disso, sua peça Sob Vigilância estava quase concluída, e o drama As Criadas estava em fase de planejamento. Mesmo assim, em 24 de setembro de 1943, ele foi preso novamente por roubo de livros. Desta vez, ele não compareceu sozinho perante o juiz, pois Cocteau imediatamente lhe providenciou um advogado. Uma avaliação psicológica foi realizada, que concluiu: "Genet pode ser descrito como pertencente à categoria de pessoas cuja responsabilidade moral é ligeiramente diminuída".
Genet foi condenado à prisão perpétua com trabalhos forçados. Sob a lei francesa da época, uma décima condenação por roubo resultava automaticamente em prisão perpétua, sem possibilidade de apelação ou liberdade condicional. Em 15 de março de 1944, Genet foi libertado após Cocteau e outras figuras proeminentes, incluindo Jean-Paul Sartre e Pablo Picasso, solicitarem com sucesso ao presidente francês a anulação da sentença. De 1944 a 1947, a situação jurídica de Genet era muito precária, caso cometesse outro crime seria preso definitivamente. Genet nunca mais voltou para a prisão.
Círculos parisienses
Cocteau descobriu as primeiras obras de Genet e, depois dele, Sartre. Eles elogiaram esse rebelde da cena literária francesa e o consideraram o gênio de sua época. Após ser libertado da prisão, Jean Genet encontrou crescente aceitação nos círculos artísticos parisienses. Inicialmente, frequentou o círculo de Jean Cocteau, onde conheceu, entre outros, Boris Kochno, Christian Bérard (que mais tarde desenhou o cenário para As Criadas) e o ator Jean Marais. Em seguida, passou a se aproximar cada vez mais da cena artística de Saint-Germain-des-Prés. Lá, conheceu Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Roger Blin, Alberto Giacometti, Pablo Picasso, Dora Maar e Jacques Préver.
Cocteau e Sartre viam Genet como um moralista. Ao mostrar à sociedade o espetáculo de sua própria imundície, Genet encurralou a burguesia cuja ordem era governada pela violência normalizada (sendo a pena de morte seu ápice): ele viu na derrota de 1940 uma oportunidade de inverter os termos dessa violência, de fazer do carrasco uma vítima desprezível.
Em julho de 1947, Genet recebeu o Prêmio Pléiade da Gallimard por As Criadas e Sob Vigilância (somente Albert Camus e Jacques Lemarchand votaram contra).
O "Prêmio Pléiade" não era um prêmio literário tradicional, mas sim uma referência ao prestígio de ter a obra de um autor selecionada para integrar a aclamada coleção Bibliothèque de la Pléiade da editora Gallimard, criado em 1943 pela Éditions Gallimard e encerrado em 1947. Embora de curta duração, o prêmio é historicamente relevante pelos seus jurados e vencedores:é considerado por muitos autores como uma honraria "maior que o Nobel".
No ano seguinte, estreou o balé Adame Miroi. Foi um sucesso. Mas logo uma sombra pairou sobre Genet ainda enfrentava a ameaça de prisão perpétua caso fosse novamente acusado e condenado. Para evitar isso, Sartre e Cocteau escreveram uma carta aberta ao então presidente Vincent Auriol. Camus, se recusou a assinar a petição ao presidente francês para finalmente remover Genet de seus antecedentes criminais. A carta foi datada de 15 de julho de 1948. Genet foi perdoado em 1949.
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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