Protesto contra o tabaco
Irã, oficialmente República Islâmica do Irã, anteriormente conhecido como Pérsia, é um país localizado na Ásia Ocidental. Tem fronteiras ao norte com Armênia, Azerbaijão e Turcomenistão, com o Cazaquistão e a Rússia através do Mar Cáspio; a leste com Afeganistão e Paquistão; ao sul com o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã; a oeste com o Iraque; e a noroeste com a Turquia. Composto por uma área de 1 648 195 km², é a segunda maior nação do Oriente Médio e a 18.ª maior do mundo. Com mais de 77 milhões de habitantes, o Irã é o 17.º país mais populoso do mundo.
A partir do século XIX, o Irã (Pérsia) da dinastia Qajar (1789-1925) encontrou-se em uma situação precária devido à crescente presença estrangeira. Abalado pelas derrotas nas guerras contra o Império Russo em 1813 e 1828, bem como contra o Império Britânico em 1857, o governo de Naser al-Din (17 de julho de 1831 - 1 de maio de 1896) foi o quarto Xá (rei) Qajar, de 5 de setembro de 1848 a 1 de maio de 1896, quando foi assassinado. Essas derrotas forçaram o governo Naser al-Din a conceder inúmeras concessões a potências estrangeiras. Como resultado, os comerciantes iranianos (persas) ficaram em uma posição extremamente vulnerável, pois não conseguiam competir com as inúmeras vantagens econômicas obtidas pelos comerciantes europeus. Isso tornou o governo extremamente impopular. Relatos posteriores sugerem que a razão pela qual a dinastia não foi derrubada antes, diante do descontentamento generalizado, foi devido à intervenção britânica e russa, que essencialmente sustentou o xá.
Entretanto, inicialmente, Naser al-Din pretendia modernizar o Irã (Pérsia). Foi o primeiro monarca iraniano moderno a visitar formalmente a Europa. Seu reinado, que durou quase 48 anos, tornou-se mais ditatorial ao longo do tempo.
Naser al-Din permitiu o estabelecimento de jornais no país e utilizou tecnologias modernas como o telégrafo e a fotografia, além de planejar concessões para ferrovias e obras de irrigação. Apesar de suas reformas modernizadoras na educação, suas reformas tributárias, no entanto, foram usurpadas por pessoas no poder, e o governo era visto como corrupto e incapaz de proteger o povo dos abusos das classes altas, o que levou a um crescente sentimento antigovernamental.
Em 1872, Naser al-Din Shah negociou uma concessão com Paul Reuter, um cidadão britânico, concedendo-lhe o controle sobre estradas, telégrafos, moinhos, fábricas, extração de recursos e outras obras públicas em troca de uma quantia estipulada por cinco anos e 60% de toda a receita líquida por 20 anos. A concessão de Reuter foi recebida não apenas com indignação interna na forma de protestos, mas também com oposição do governo russo. Sob imensa pressão, Naser al-Din Shah cancelou o acordo, apesar de sua situação financeira estar se deteriorando. Embora a concessão tenha durado aproximadamente um ano, o desastre lançou as bases para as revoltas contra a concessão do tabaco em 1890, demonstrando que qualquer tentativa de uma potência estrangeira de infringir a soberania iraniana enfureceria a população, bem como as potências europeias rivais.
Em 20 de março de 1890, Naser al-Din concedeu ao Major GF Talbot o monopólio total da produção, venda e exportação de tabaco por cinquenta anos. Em troca, Talbot pagava ao imperador uma quantia anual de £ 15.000 (equivalente a £ 1.501.963, US$ 3.402.551 ou R$ 18.101.571,32 hoje), além de um quarto dos lucros anuais após o pagamento de todas as despesas e um dividendo de cinco por cento sobre o capital. No outono de 1890, a concessão foi vendida para a Corporação Imperial de Tabaco da Pérsia, uma empresa que alguns especulam ser essencialmente o próprio Talbot, já que ele promoveu intensamente as ações da corporação. Na época da concessão, a safra de tabaco era valiosa não apenas por causa do mercado interno, mas também porque os iranianos cultivavam uma variedade de tabaco "muito apreciada nos mercados estrangeiros" que não era cultivada em outros lugares. Posteriormente, foi estabelecida a Régie do Tabaco (monopólio) e todos os produtores e proprietários de tabaco no Irã (Pérsia) foram obrigados a vender seus produtos a agentes da Régie, que revenderiam o tabaco comprado a um preço mutuamente acordado entre a empresa e os vendedores, com as disputas resolvidas por arbitragem obrigatória.
A arbitragem obrigatória ocorre quando as partes de um conflito são forçadas, por lei ou por um contrato prévio, a resolver suas disputas por meio de um árbitro — um terceiro imparcial — em vez de recorrerem ao Poder Judiciário comum.
Na época, a indústria do tabaco no Irã (Pérsia) empregava mais de 200.000 pessoas e, portanto, a concessão representou um grande golpe para os agricultores e comerciantes, cujo sustento dependia em grande parte do lucrativo negócio do tabaco. Agora, eles eram obrigados a solicitar licenças da Tobacco Régie, bem como a informar os concessionários sobre a quantidade de tabaco produzida. Em essência, a concessão não apenas violou a relação de longa data entre os produtores e vendedores de tabaco persas, mas também ameaçou a segurança do emprego de uma parcela significativa da população.
Em setembro de 1890, ocorre o primeiro protesto contra a concessão. Contudo, não partiu da classe mercantil persa ou dos ulemás (o corpo de sábios e clérigos muçulmanos que possuem conhecimento profundo em teologia e lei islâmica sharia). Mas sim do governo russo, que afirmou que a Régie do Tabaco violava a liberdade de comércio na região, conforme estipulado pelo Tratado de Turkmenchay (1828), foi o acordo de paz que encerrou a Guerra Russo-Persa (1826-1828), sendo um dos momentos mais humilhantes da história diplomática persa. Apesar da desaprovação do Império Russo, Naser al-Din Shah estava determinado a manter a concessão. Em fevereiro de 1891, o major GF Talbot viajou ao Irã (Pérsia) para instalar a Régie do Tabaco e, pouco depois, o imperador tornou pública a notícia da concessão pela primeira vez, provocando imediata desaprovação em todo o país.
Apesar das crescentes tensões, o diretor da Régie do Tabaco, Julius Ornstein, chegou a Teerã em abril, sendo assegurado pelo primeiro-ministro Amin al-Soltan de que a concessão tinha o apoio total da dinastia Qajar. Entretanto, cartas anônimas estavam sendo enviadas a altos membros do governo, enquanto cartazes circulavam em cidades como Teerã e Tabriz, ambos demonstrando a indignação pública com a concessão de direitos a estrangeiros.
Durante a primavera de 1891, começaram a surgir protestos em massa contra a Régie nas principais cidades iranianas. Inicialmente, foram os comerciantes dos bazares que lideraram a oposição, convictos de que era o seu rendimento e sustento que estavam em risco. Comerciantes abastados como Hajji Mohammad Kazem Malek el-Tojjar, o "rei dos comerciantes", desempenharam um papel vital no movimento do tabaco, organizando protestos nos bazares e apelando a mujtahids conhecidos para obterem o seu apoio na oposição à Régie.
Na estrutura religiosa e jurídica do Irã, um Mujtahid é um clérigo de alto escalão que possui o conhecimento e a autoridade necessários para praticar o Ijtihad — o processo de interpretação independente e original das fontes do Islã (Alcorão e Sunnah) para emitir decisões legais e religiosas. O Mujtahid é um membro dos ulemás que atingiu o nível mais alto de autoridade técnica e teológica. No grupo de mujtahids (Aiatolás) detém o poder de interpretar a Constituição e a Sharia para validar ou anular leis do governo. Todo Mujtahid é um Ulemá, mas nem todo Ulemá possui conhecimento e autoridade para ser um Mujtahid. Os Mujtahids são os "generais" intelectuais, enquanto os Ulemás são o "exército" clerical.
Os ulemás provaram ser aliados extremamente valiosos dos comerciantes, pois os principais líderes religiosos buscavam proteger os interesses nacionais da dominação estrangeira. Desde a conversão do Irã (Pérsia) ao islamismo xiita pelos safávidas após 1501, os ulemás desempenharam um papel fundamental na sociedade – administravam escolas religiosas, mantinham a caridade dos fundos de doação, atuavam como árbitros e juízes e eram vistos como intermediários entre Deus e os muçulmanos no país. Se tais concessões exorbitantes fossem concedidas a estrangeiros não muçulmanos, os ulemás acreditavam que a comunidade sob sua supervisão estaria gravemente ameaçada. Além disso, os ulemás mantinham laços com várias famílias de comerciantes e guildas, ao mesmo tempo que detinham interesses econômicos no tabaco cultivado em terras waqf.
O Waqf é um instituto jurídico do Direito Islâmico que consiste na doação perpétua de um bem (como terras, prédios ou dinheiro) para fins religiosos, educacionais ou de caridade. Uma vez que um bem se torna Waqf, ele não pode mais ser vendido, herdado ou confiscado, por pertencer simbolicamente a Deus.
O Waqf foi a fonte de independência dos Ulemás e Mujtahids iranianos e, por isso, conseguiam desafiar o Xá. Por fim, como apontaram os clérigos, a concessão contradizia diretamente a sharia, pois os indivíduos não tinham permissão para comprar ou vender tabaco por livre e espontânea vontade e não podiam ir a outros lugares para fazer negócios. Mais tarde, durante a época da colheita de tabaco de 1891, o produtor de tabaco Mahmud Zaim, de Kashan, coordenou com outros dois grandes produtores de tabaco a queima de todo o seu estoque.
As cidades de Shiraz, Tabriz e Teerã se tornariam os centros mais proeminentes de oposição à concessão do tabaco. Em maio de 1891, Sayyid Ali Akbar, um proeminente mulá de Shiraz, foi expulso do país por ordem do Imperador devido à sua pregação contra a concessão.
Mulá é o título dado a clérigos muçulmanos que completaram estudos básicos em teologia e lei islâmica. Diferente dos Mujtahids ou Aiatolás, que são a elite intelectual, o Mulá é geralmente o líder religioso local, responsável por mesquitas de bairro ou vilarejos.O Mulá é a figura mais próxima da base da sociedade. Após a Revolução Islâmica, muitos mulás assumiram cargos políticos e administrativos, tornando-se parte do aparato estatal.
Durante seu exílio, Ali Akbar se encontrou com o proeminente ativista pan-islamista Jamal al-Din al-Afghani e, a pedido de Akbar, al-Afghani escreveu uma carta a Mirza Shirazi (25 de abril de 1815 – 20 de fevereiro de 1895), foi o mais importante líder religioso xiitta do século XIX. Na carta foi pedido que Shirazi "salvasse e defendesse o país" deste "criminoso que ofereceu as províncias da terra da Pérsia para leilão entre as Grandes Potências".
Os comerciantes de bazares em Teerã estavam entre os primeiros grupos a protestar contra a concessão, escrevendo cartas de desaprovação ao imperador mesmo antes de a concessão ser anunciada publicamente. Argumenta-se que essa oposição inicial decorreu de uma tentativa russa de incitar a frustração na comunidade mercantil de Teerã.
Embora o Azerbaijão, a região noroeste, não fosse uma área de cultivo de tabaco, houve uma enorme oposição à concessão devido à grande concentração de comerciantes locais e varejistas na região. Em Isfahan, um boicote ao consumo de tabaco foi implementado mesmo antes da fatwa de Shirazi, enquanto na cidade de Tabriz, o bazar fechou e os ulemás pararam de ensinar nas madraças (escolas tradicionais de ensino islâmico). As cidades de Mashhad e Kerman também viram manifestações contra a concessão, mas o historiador Mansoor Moaddel argumenta que estes últimos movimentos foram relativamente ineficazes. Outras cidades do país, como Qazvin, Yazd e Kermanshah, também estiveram envolvidas na oposição ao imperador e à Régie do Tabaco.
Em dezembro de 1891, uma fatwa - um parecer jurídico-religioso emitido por um especialista em lei islâmica para responder a uma questão específica onde a jurisprudência tradicional não é clara - foi emitida pela mais importante autoridade religiosa do Irã (Pérsia), Mirza Shirazi: " Em nome de Deus, o Misericordioso, o Beneficente. Hoje, o uso de ambas as variedades de tabaco, de qualquer forma, é considerado uma guerra contra o Imã da Era – que Deus apresse seu advento." A referência ao Imã Oculto, uma figura crítica no xiismo duodecimano, significava que Shirazi estava usando a linguagem mais forte possível para se opor à Régie.
Xiismo Duodecimano é o maior ramo do Islã Xiita e a religião oficial da República Islâmica do Irã. O termo "duodecimano" refere-se à crença em 12 imãs sucessores legítimos do profeta Maomé.
Inicialmente, houve ceticismo quanto à legitimidade da fatwa; no entanto, Shirazi confirmaria a declaração posteriormente.
Os residentes da capital, Teerã, recusaram-se a fumar tabaco e esta resposta coletiva espalhou-se pelas províncias vizinhas. Num gesto de solidariedade, os comerciantes iranianos responderam fechando os principais bazares em todo o país. À medida que o boicote ao tabaco crescia, Naser al-Din Shah e o primeiro-ministro Amin al-Soltan viram-se impotentes para travar o movimento popular, temendo a intervenção russa caso uma guerra civil se materializasse.
Antes da fatwa, o consumo de tabaco era tão difundido no Irã (Pérsia) que era fumado em todos os lugares, inclusive nas mesquitas. Observadores europeus notaram que "a maioria dos persas preferia abrir mão do pão a abrir mão do tabaco, e a primeira coisa que faziam ao quebrar o jejum durante o mês do Ramadã era acender seus cachimbos". Apesar da popularidade do tabaco, a proibição religiosa foi tão bem-sucedida que se dizia que as mulheres do harém Qajar pararam de fumar e seus servos se recusaram a preparar seu narguilé.
Em janeiro de 1892, quando o xá viu que o governo britânico estava hesitando em seu apoio à Companhia Imperial do Tabaco, ele cancelou a concessão. Em 26 de janeiro de 1892, os principais ulemás em Teerã anunciaram que Shirazi havia revogado a fatwa.
Consequências
Após o cancelamento da concessão, ainda havia dificuldades entre o governo Qajar e a Corporação Imperial de Tabaco da Pérsia em termos de negociação do valor da compensação a ser paga à empresa. Finalmente, decidiu-se que a quantia seria de £ 500.000 (equivalente a 594. 700.000 reais). Embora muitos iranianos estivessem satisfeitos por impedir a influência comercial estrangeira no país, o movimento do tabaco teve implicações muito maiores do que eles sequer imaginavam. A historiadora Nikki Keddie observa que o movimento foi significativo porque "os iranianos viram pela primeira vez que era possível vencer o Xá e os interesses estrangeiros."
Para Naser al-Din, o protesto deixou-o financeiramente debilitado e publicamente humilhado. O Irã (Pérsia) foi forçado a contrair um empréstimo da Rússia e tornou-se um estado devedor. No final de seu governo, Naser al-Din tornou-se muito mais hostil ao ocidente, impedindo qualquer forma de educação ou viagens à Europa.
Este é um cupom de ação da The Imperial Tobacco Corporation of Persia Limited. O cupom dava direito ao dividendo de uma ação ordinária, pagável em Londres, Paris, Teerã e outros locais.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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