DOR (30-40 anos): Rosto cansado, mas olhar observador. COLEGAS (Flashbacks): O Mórmon, o Amigo de Escola, o Falecido. CENA 1: INTERIOR. SALA DE ESTAR - NOITE O NARRADOR está sentado em uma poltrona, segurando um copo de bebida. Ele encara uma parede vazia, como se visse fotos que não estão lá. NARRADOR (OFF) Dizem que a primeira vez a gente nunca esquece. Mas o destino de quem te deu o "cartão de visitas" é que é a piada. CENA 2: MONTAGEM DE FLASHBACKS RÁPIDOS [CIGARRO/ÁLCOOL] O NARRADOR jovem, sozinho num quarto escuro, acendendo um cigarro. NARRADOR (OFF) Cigarro e álcool? Fiz o serviço sozinho. Sem cúmplices. [MACONHA] Um homem sorridente faz um churrasco com a família no jardim. Crianças correm ao fundo. NARRADOR (OFF) Quem me apresentou a maconha hoje é o herói do domingo. Casado, dois filhos e um gramado aparado. [COLA] Um homem jovem, sorrindo em frente a uma casa de classe média. Uma mulher e crianças pequenas saem para encontrá-lo. NARRADOR (OFF) O cara da cola, voltou pra casa. Casou, teve filhos. Vida que segue. [COCAÍNA] Um corredor de escola barulhento. Um garoto entrega algo e caminha em direção à luz da saída, desaparecendo. NARRADOR (OFF) O da cocaína sumiu no mundo. Saiu da escola e virou fantasma. Nunca mais vi a cor do sujeito. [CRACK] Uma imagem estática, granulada e em preto e branco de um rapaz jovem. A imagem escurece até o preto total. NARRADOR (OFF) Já o cara que me apresentou o crack... esse não teve tempo de casar, nem de sumir. Só morreu. CENA 3: INTERIOR. SALA DE ESTAR - NOITE O NARRADOR termina o gole. Ele dá um sorriso amargo para a câmera. NARRADOR E eu? Eu ainda estou aqui, tentando entender quem saiu ganhando nessa história. FADE OUT.Inventário das Sombras CENA 1: INT. QUARTO DO NARRADOR - NOITE O quarto é desorganizado. O NARRADOR (35 anos) está sentado na beira da cama. Ele segura um maço de cigarros, mas não acende. O silêncio é pesado. NARRADOR (OFF) Engraçado como a memória da gente guarda o rosto de quem abriu a porta, mas esquece de quem tentou fechar. Eu olho pro espelho e não vejo os caras. Vejo o que sobrou deles em mim. CENA 2: FLASHBACK - RUA DESERTA / IGREJA - DIA (MEMÓRIA) Vemos o MÓRMON (20 anos na época), de camisa branca social e gravata, mas com os olhos inquietos. Ele e o Narrador estão escondidos atrás de um muro baixo, dividindo um frasco de cola. NARRADOR (OFF) O cara que me deu a cola era Mórmon. Ele falava de salvação enquanto a gente flutuava no solvente. CORTE PARA: Anos depois. O mesmo homem, agora mais velho, saindo da igreja com uma Bíblia sob o braço e uma esposa ao lado. Ele sorri para os vizinhos. NARRADOR (OFF) Ele voltou pro rebanho. Casou com a namorada que ele traía com travestis na época da bagunça. Ele se limpou... ou só aprendeu a esconder melhor a sujeira. A redenção dele me dá um nó no estômago. CENA 3: INT. QUARTO DO NARRADOR - NOITE O Narrador caminha até o espelho do banheiro. Ele abre a torneira e joga água no rosto. NARRADOR (V.O.) O da maconha virou pai de família. O da cocaína virou fumaça. O do crack virou estatística. E eu virei o quê? O curador desse museu de gente que passou e me deixou o boleto pra pagar. Ele encara o próprio reflexo. A iluminação é dura, realçando as olheiras. NARRADOR (Sussurrando para o espelho) Eles seguiram. Ou pararam. Eu só fiquei... estacionado na primeira vez de cada um deles. CENA 4: FLASHBACK RÁPIDO - O AMIGO DO CRACK Uma imagem borrada de um jovem rindo, que se transforma subitamente em uma coroa de flores barata em um velório vazio. NARRADOR (OFF) A morte é a única que não finge que nada aconteceu. CENA 5: INT. QUARTO DO NARRADOR - NOITE O Narrador volta para a cama. Ele acende o cigarro agora. A fumaça sobe lentamente. NARRADOR (OFF) Cigarro e álcool... pelo menos esses eu não devo a ninguém. Comecei sozinho. Vou terminar sozinho. É mais honesto assim. FADE OUT.MONÓLOGO: O MUSEU DOS OUTROS (CENÁRIO: Um palco vazio. No centro, apenas uma cadeira de madeira e uma garrafa de água — ou algo mais forte. O ATOR entra, senta-se e encara a plateia por alguns segundos em silêncio.) NARRADOR Engraçado como a memória da gente é seletiva, né? Todo mundo lembra do primeiro beijo, do primeiro emprego... Eu lembro de quem abriu as portas pra mim. E as portas nem sempre davam pra varandas com vista pro mar. (Ele ri, um som seco, sem alegria.) NARRADOR Se eu for fazer um inventário da minha vida, o que eu tenho são fantasmas. E fantasmas bem-sucedidos, o que é pior. O cara que me apresentou a maconha? Tá lá. Casado. Tem filhos. Deve levar as crianças no parque todo domingo e reclamar do preço da gasolina. Virou um "cidadão de bem". Me pergunto se ele ainda lembra do cheiro da fumaça ou se o cheiro de fralda nova apagou tudo. (Ele se levanta e caminha pelo palco, gesticulando como se contasse um segredo.) NARRADOR Agora, o da cola... esse é o meu favorito. Ele era Mórmon. Frequentava a igreja, pregava a palavra, mas a gente se escondia pra derreter o cérebro. Hoje? Tá lá. Voltou pra igreja, casou com a mesma namorada. É a imagem da redenção. Ele se limpou. Ou talvez só tenha aprendido a esconder a sujeira embaixo de um tapete muito mais caro. (Pausa dramática. O ton fica mais baixo, mais pesado.) NARRADOR O da cocaína sumiu. Simples assim. Um dia estávamos no pátio da escola, no outro ele era só um nome na chamada que ninguém respondia. Virou fumaça. Já o cara que me apresentou o crack... (Ele para de andar. Olha fixamente para um ponto no chão.) (O ator volta para a cadeira, senta-se de forma desleixada.) NARRADOR E eu? Eu fico aqui, olhando pro retrovisor. Cigarro e álcool eu comecei sozinho. Ninguém me empurrou. Foi escolha. Mas o resto... o resto foi um convite. O problema de aceitar convites é que, às vezes, o anfitrião vai embora da festa e larga você sozinho limpando a bagunça. (Ele encara a plateia uma última vez.) NARRADOR Eles seguiram a vida. Ou perderam a vida. Eu? Eu sou o cara que ficou guardando o casaco de todo mundo enquanto eles iam dançar no escuro. (A luz diminui lentamente até o apagão total.)

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