Nova York tem as bandas, Londres tem as roupas, mas Belfast tem a razão
Enquanto o resto do mundo via o punk como uma rebelião estética ou musical, para Terri Hooley e a juventude da Irlanda do Norte, ele era uma ferramenta de sobrevivência social. Em uma cidade dividida por muros e arame farpado, locais como o The Harp Bar tornaram-se zonas neutras onde ser protestante ou católico era irrelevante perto de ser punk.
O Harp Bar foi o coração pulsante do punk em Belfast e, como o próprio Terri Hooley descreveu, um "depósito de lixo" que salvou a música na cidade. Localizado na Hill Street, em uma área na época degradada e perigosa, ele se tornou o equivalente norte-irlandês ao CBGB de Nova York. Apesar de estar cercado por grades de segurança e barricadas de concreto devido aos conflitos, era um dos poucos lugares onde jovens católicos e protestantes podiam se misturar sem medo, unidos apenas pela música.
O primeiro show punk aconteceu em 21 de abril de 1978. O Harp parou de receber shows punks em meados de 1981, transformando-se brevemente em um bar de temática Country & Western antes de fechar definitivamente nos anos 1990.
No andar superior, onde os shows ocorriam, havia uma pista de dança apelidada de "Murder Alley" (Beco do Assassinato). Embora o nome soe sinistro, ele era usado de forma irônica, pois era extremamente apertada e o local onde ocorria o "pogo", devido ao espaço reduzido e à energia frenética dos jovens, tornava-se um caos de corpos se batendo. O apelido também carregava um humor ácido típico de Belfast durante os Troubles. Em uma cidade onde becos reais eram frequentemente locais de violência política genuína, apelidar a pista de dança de "Murder Alley" era uma forma de os punks se apropriarem do medo e transformarem a agressividade do mundo exterior em uma celebração catártica. Acima dessa pista "assustadora", girava um globo espelhado clássico de discoteca, criando um contraste visual bizarro com a estética punk.
O mesmo espaço que recebia o caos do punk à noite era usado para apresentações de cabaré e strippers nas noites de sábado.
Quando, em setembro de 1978, a Good Vibrations Records de Hooley lançou "Teenage Kicks" do The Undertones, ele não estava apenas lançando um hit, mas provou que Belfast podia exportar cultura e alegria em vez de apenas notícias de violência. Essa música mudou a trajetória do punk na Irlanda do Norte.
Teenage Kicks é muito mais do que um hit; é considerada por muitos como a música pop perfeita. Em Belfast e Derry, a música é frequentemente chamada de "o verdadeiro hino nacional", pois unia jovens que a política insistia em separar. O lendário DJ da BBC, John Peel, amou tanto a música que a tocou duas vezes seguidas em sua estreia — algo sem precedentes em seu programa. Ele declarou ser sua música favorita e, conforme seu desejo, a frase de abertura "Teenage dreams so hard to beat" está gravada em sua lápide.
O guitarrista John O'Neill se inspirou no título de "Teenage Lust" do MC5 e no ritmo dos The Ramones. Após o apoio de Peel, a banda foi contratada pela Sire Records, a mesma gravadora dos Ramones e Talking Heads.
Você sabia que os membros da banda originalmente não achavam a música nada de especial e quase escolheram outra faixa para ser o single?
Enquanto bandas como The Clash focavam em política, o The Undertones preferia cantar sobre o que realmente importava para eles na época: garotas, chocolate e angústia adolescente, oferecendo um refúgio da violência dos Troubles.
Essa era exatamente a genialidade deles. Enquanto o Stiff Little Fingers gritava sobre bombas e arame farpado em "Inflammable Material", os Undertones se recusavam a deixar que o conflito definisse sua arte. Para um jovem em Derry ou Belfast, cantar sobre chocolate ("Mars Bars") ou se apaixonar era, ironicamente, um dos maiores atos de rebeldia política possíveis. Em um lugar onde tudo era politizado, ser "comum" era revolucionário. Eles reivindicavam o direito de ter uma adolescência normal, igual à de um garoto em Londres ou Nova York. Enquanto outras bandas adotavam o visual punk "agressivo" de couro e tachas, eles subiam ao palco de suéter e jeans, parecendo exatamente o que eram: garotos da vizinhança.
Essa abordagem deu ao punk norte-irlandês uma dualidade única: de um lado, o comentário social afiado; do outro, o escapismo puro e doce do pop.
A Good Vibrations também organizava shows com bandas punks locais. O show "Battle of the Bands", realizado no McMordie Hall da Queens University Belfast em 14 de junho de 1978, contou com sete bandas locais, incluindo The Undertones, Rudi e The Outcasts. Conforme citado anteriormente, a Good Vibrations tinha uma forte ligação com a cena punk do Harp Bar, que se tornou um local frequente para bandas punk em 1978.
Apesar do desentendimento que levou à saída de Rudi da gravadora, o guitarrista/segunda voz Brian Young é claro sobre a contribuição de Terri Hooley e da Good Vibration para o movimento punk na Irlanda do Norte: "Sua importância não pode ser subestimada. Ele incentivava as pessoas. Ele era um homem de grandes ideias. Antes disso, as pessoas simplesmente riam de você — 'garotos estúpidos, vocês não vão superar isso'. Mas ele nos levava a sério... E ele tinha entusiasmo. Ele não estava nisso por nenhum motivo cínico. Ele tinha os contatos, o conhecimento e a experiência para seguir em frente e fazer acontecer".
Nos dias 15 e 16 de agosto de 1980, a Good Vibrations organizou o primeiro Festival Internacional de Punk e New Wave no Ulster Hall em Belfast, um local icônico que historicamente recebia eventos muito mais formais como concertos de música clássica, feiras de artesanato e conferências de partidos políticos.
Bandas que tocaram no evento incluíram:
The Stimulators: Banda punk de Nova York que foi a atração principal (headliner). Um fato curioso é que o baterista, Harley Flanagan, tinha apenas 13 anos na época.
The Outcasts: uma das bandas locais mais populares e pilares da cena de Belfast.
The Starjets: Banda de Belfast que misturava punk com power pop.
The Saints: banda australiana pioneira do punk que também participou do festival.
Big Self: Representantes da vertente New Wave/Post-punk local.
Stage B: Outra banda da cena local que se apresentou na primeira noite.
Ruefrex: Banda de Belfast conhecida por suas letras fortes sobre a realidade da classe trabalhadora.
O festival reuniu cerca de mil jovens, sendo considerado um marco de paz e união cultural em meio ao período dos Troubles, e foi notavelmente pacífico. A polícia da época (RUC) chegou a declarar que os punks foram "muito bem comportados", contrastando com a reputação agressiva do gênero.
Aparições na mídia
O documentário independente Shellshock Rock sobre a cena punk na Irlanda do Norte, filmado em 1979, contém trechos de muitas das bandas que gravaram para a Good Vibrations tocando ao vivo, incluindo The Undertones, Rudi, Protex, The Outcasts, The Idiots, Victim e Rhesus Negative. O filme também inclui uma entrevista com Terri Hooley na loja da Good Vibrations.
O programa Something Else da BBC2, transmitido em janeiro de 1980, apresentou uma reportagem sobre a cena punk de Belfast, incluindo apresentações ao vivo de The Undertones e Rudi. Os Undertones já haviam lançado e emplacado cinco singles e um álbum de estreia. A apresentação do Rudi de "The Pressure's On" e "Who? You!" no Something Else captura a banda em seu melhor momento, apresentando duas de suas maiores músicas.
Fechamento
Apesar da crescente popularidade, a Good Vibrations declarou falência em 1982, justamente quando a primeira onda do punk britânico havia chegado ao fim. Bandas que haviam ido para Londres, como Protex e Rudi, retornaram a Belfast. A gravadora era uma empresa desorganizada, tudo sendo deixado à confiança mútua. Em consonância com o espírito punk, tudo era feito de forma barata. As capas dos singles eram impressas em uma fotocopiadora. Tudo era feito com um orçamento apertado.
Embora a loja original Good Vibrations na Great Victoria Street tivesse fechado, os amigos de Hooley não permitiram que sua paixão morresse, ajudando-o a abrir a Vintage Records logo na esquina de onde ficava a Good Vibrations. Ao longo das décadas seguintes, Hooley provou ser inabalável, fechando e reabrindo suas lojas 11 vezes, enfrentando falências e até a destruição de seu acervo em um incêndio em 2004. Devido a problemas de saúde, Hooley fechou a loja definitivamente em 13 de junho de 2015.
Hooley perdeu um olho em um acidente quando tinha seis anos. Em outubro de 2012, Hooley foi verbalmente atacado e empurrado por dois homens enquanto passeava com seu cachorro no leste de Belfast. Durante o incidente, Hooley foi chamado de "amante feniano" e "uma vergonha para os protestantes ". Os agressores mais tarde se desculparam.
Os Fenianos foram revolucionários republicanos irlandeses que buscaram a independência da Irlanda do Império Britânico na segunda metade do século XIX e início do século XX. A principal organização Feniana era a Irmandade Republicana Irlandesa (IRB). Em 1867, eles tentaram uma revolta na Irlanda, que embora tenha fracassado, a IRB continuou existindo e desempenhou um papel central na Revolta da Páscoa de 1916 e na Guerra da Independência da Irlanda (1919-1921), que levou ao estabelecimento do Estado Livre Irlandês.
Em outubro de 2010, o livro Hooleygan foi publicado pela Blackstaff Press e ficou em quarto lugar nas listas locais no Natal. Uma campanha no Facebook "Terri Hooley para Prefeito de Belfast" foi criada, mas ele recusou a oferta dizendo: "Já há tolos suficientes na política de Belfast, eles não precisam de mais um."
Uma cinebiografia baseada em sua vida, Good Vibrations, foi lançada em 2013. O filme foi posteriormente adaptado para um musical off-Broadway de mesmo nome, que apresenta uma banda ao vivo como parte do elenco, tocando músicas de vários artistas da Good Vibrations.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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