Além de Belfast: Como o Punk Desafiou os Troubles
Embora Belfast tenha sido o epicentro, a cena punk da Irlanda do Norte espalhou-se com força total por outras cidades, desenvolvendo identidades muito particulares longe da capital. O movimento punk funcionou como um raro espaço de convivência entre jovens católicos e protestantes durante o auge dos Troubles — o conflito político, nacionalista e violento que durou de 1968 a 1998 e dividiu a sociedade em duas grandes facções: Unionistas (protestantes): Defendiam a permanência da Irlanda do Norte no Reino Unido. Nacionalistas (católicos): buscavam a separação e a união com a República da Irlanda.
Enquanto o punk de Belfast era frequentemente político e agressivo, o de Derry (oficialmente conhecida como Londonderry), a segunda maior cidade do país, tendia a ser mais melódico e focado no cotidiano juvenil.
O berço do punk em Derry foi o lendário The Casbah era um pub pequeno. O Casbah funcionava como uma espécie de refúgio cultural durante o período mais intenso dos Troubles. Por esse motivo, o Casbah ganhou um espaço eterno na história da música, além de ser um dos raros refúgios na cidade onde jovens podiam ouvir sons modernos, fugindo do tradicional circuito de bandas de baile (showbands) dominantes na época.
Em abril de 1973, a estrutura original do pub foi destruída por uma explosão provocada pelo IRA. Ele foi reconstruído logo depois no mesmo local e voltou a funcionar com ainda mais energia até encerrar suas atividades no início dos anos 1980. Toda a área foi reestruturada na década de 1990 para dar lugar ao Foyleside Shopping Centre.
Hoje, o ponto exato onde o Casbah ficava corresponde à entrada superior desse shopping.
Foi no Casbah que os Undertones, a banda mais icônica da cidade. Formada em 1974, a banda surgiu a partir de um grupo de amigos de infância dos bairros de Creggan e Bogside. A formação clássica contava com o vocalista Feargal Sharkey, os irmãos John e Damian O'Neill nas guitarras, Michael Bradley no baixo e Billy Doherty na bateria.
Os Undertones ajudaram a moldar a identidade cultural da região. A banda se separou em 1983, mas retornou às atividades em 1999 com o vocalista Paul McLoone.
Embora os The Undertones sejam o nome mais famoso da cena musical de Derry, a cidade possui uma rica história de bandas influentes que abrangem desde o punk clássico até o eletrônico.
The Moondogs: contemporâneos dos Undertones, faziam um power pop/punk rock altamente enérgico. Lançaram o aclamado álbum That's What Friends Are For... em 1981.
The Mighty Shamrocks: conhecidos por misturar o espírito do punk rock com fortes elementos de folk e rock de garagem.
The Divine Comedy: liderada por Neil Hannon (nascido em Derry), é uma das bandas de chamber pop mais respeitadas do Reino Unido. O chamber pop (ou pop de câmara) é um subgênero do indie pop/rock que mistura melodias pop com instrumentação orquestral clássica. Em vez de guitarras distorcidas, ele foca em arranjos acústicos ricos (como cordas, sopros e harpas), letras poéticas e produção de estúdio minuciosa.
Além do Casbah, o The Rocking Chair (carinhosamente apelidado pelos locais de "The Rocker") é um dos pubs mais emblemáticos, históricos e vibrantes de Derry.
Situado no coração do centro histórico da cidade (número 15–17 da Waterloo Street). Ele fica estrategicamente localizado bem na sombra das famosas Muralhas de Derry e oferece uma vista privilegiada para o bairro do Bogside.
O local carrega uma enorme mística musical. Além de ter sido o quartel-general dos The Undertones no início da carreira — onde moldaram a energia ao vivo antes de estourarem mundialmente com o clássico hino "Teenage Kicks" —, o pub foi palco do show de estreia dos The Tearjerkers, em 23 de fevereiro de 1979. O espaço conseguiu preservar o espírito de um autêntico "pub de bairro", mas com a estrutura moderna de um polo de entretenimento.
The Tearjerkers foram uma excelente banda de power pop e punk melódico formada na Irlanda do Norte em outubro de 1978. Embora tenham nascido na cidade vizinha de Portadown e contassem com músicos de Belfast, a banda tinha uma ligação histórica forte com a cena musical de Derry.
Em vez do punk agressivo e cru, os Tearjerkers apostavam em um power pop polido, com refrões marcantes, guitarras enérgicas e forte apelo melódico — uma fórmula parecida com a que consagrou os Undertones. A banda chamou a atenção do lendário radialista da BBC, John Peel, gravando duas prestigiadas Peel Sessions entre 1979 e 1980, o que deu grande visibilidade à banda no Reino Unido. Em março de 1979, durante um show no famoso Harp Bar (epicentro do punk em Belfast), o visual ou estilo mais pop da banda irritou uma parte do público purista. A banda foi alvo de garrafas e latas, resultando em ferimentos leves nos músicos, que chegaram a revidar a agressão. Apesar de terem durado poucos anos e não terem alcançado o estrelato comercial dos conterrâneos de Derry, os Tearjerkers continuam muito respeitados pelos fãs do clássico punk/power pop da Irlanda do Norte da virada dos anos 1970 para os 1980.
A cena em outras cidades
O movimento punk não se limitou às duas maiores cidades; a filosofia "faça você mesmo" (DIY) permitiu que o punk surgisse em várias regiões. Saindo do eixo principal de Belfast e Derry, a cidade litorânea de Bangor (a leste de Belfast) também teve um papel importante. Se Derry tinha o The Rockin' Chair e Belfast tinha o The Harp Bar, o epicentro absoluto de Bangor era o The Trident.
O pub era gerenciado por Joy Carson e seu marido. Sendo eles próprios um casal de "casamento misto" (católico e protestante, algo raro e perigoso na época), eles decidiram abrir as portas do pub para os punks com um objetivo claro: unir os jovens e quebrar as barreiras do preconceito através da música.
O grande diferencial da cena de Bangor (e da Irlanda do Norte) é que o punk funcionou como uma ferramenta social. Enquanto as ruas eram divididas por barreiras militares e ódio sectário, o ambiente do The Trident era um refúgio de paz. Conforme relatado por frequentadores da época, no momento em que você entrava no pub, ninguém se importava com a sua religião, classe social ou orientação sexual; era um espaço seguro para jovens que queriam apenas se divertir ajudando a espalhar a subcultura punk para fora das duas grandes capitais industriais da província.
Embora as grandes bandas de Belfast e Derry viajassem até Bangor para tocar devido à excelente recepção do público, a região litorânea também gerou as suas bandas.
The Outcasts: embora tenham se estabelecido em Belfast, a banda foi formada pelos irmãos Cowan (Greg, Colin e Martin), criados em Bangor. Eles foram um dos pilares da gravadora Good Vibrations e eram conhecidos pelo punk agressivo e visual rebelde.
Snow Patrol: a banda de indie rock que vendeu milhões de discos mundialmente (famosa pelo megahit "Chasing Cars") nasceu em Bangor. O líder Gary Lightbody e o guitarrista Nathan Connolly cresceram e formaram a base musical da banda na cidade.
Two Door Cinema Club: naturais de Bangor e de Donaghadee (cidade vizinha), o trio estourou globalmente nos anos 2010 com seu indie pop/dance-punk altamente dançante. O álbum de estreia Tourist History virou um clássico moderno do gênero.
Durante o auge dos Troubles, a região que englobava Portadown, Lurgan e Armagh ficou tragicamente conhecida como o "Triângulo do Assassinato". Eram áreas de segregação extrema, onde cruzar a rua errada ou frequentar o bairro vizinho podia ser fatal devido à forte presença de grupos paramilitares leais à coroa britânica ou republicanos irlandeses.
A vida social para os jovens nesses locais era quase inexistente, sufocada pelo medo, pela vigilância militar e pelo ódio sectário. Nesse ambiente hostil, o surgimento de bandas era um ato de rebeldia pura. Diferente de Belfast e Derry, que tinham estruturas um pouco maiores e pubs dedicados ao gênero, as bandas dessas cidades menores precisavam criar circuitos do zero, tocando em porões, galpões comunitários ou qualquer pub que aceitasse o risco de abrir as portas para aquela juventude barulhenta. A música deles não falava necessariamente de política partidária, mas sim sobre o tédio, a falta de perspectiva e o desejo de simplesmente ter uma vida normal longe das bombas.
Operando quase como uma sociedade secreta no fim dos anos 1970, essa microcena gerou nomes que fincaram seus marcos na história do rock alternativo local:
Além dos já citados Tearjerkers, outra banda que desafiou a tensão da região foi o Speed. A banda foi responsável pelo lançamento do primeiríssimo disco de punk rock da Irlanda do Norte. Em 1977 — antes mesmo de Stiff Little Fingers ou Undertones gravarem seus discos —, a banda de Portadown lançou, de forma independente, um compacto de 7 polegadas com as faixas "No Solution" e "Abuse". O som do Speed era cru, veloz e direto. Eles abriram caminhos e provaram para os jovens do interior que era perfeitamente possível gravar e lançar a própria música, sem qualquer dependência das grandes gravadoras de Londres.
Static Rousers: formada entre Portadown e Lurgan, foi a banda que melhor unificou os jovens rebeldes das duas cidades vizinhas com seu punk clássico misturado a ganchos de power pop. Tornaram-se lendários por organizar shows improvisados em pequenos salões comunitários que serviam como o principal ponto de encontro daquela comunidade resiliente — o único lugar onde podiam usar jaquetas de couro e cabelos espetados sem medo.
Para os punks de Portadown e Lurgan, a loja de discos Good Vibrations, comandada pelo lendário Terri Hooley em Belfast, não era apenas um comércio, mas uma espécie de Meca ou embaixada cultural. No entanto, era uma jornada perigosa, pegar um ônibus ou trem dessas cidades até Belfast no fim dos anos 1970 exigia coragem. As estradas tinham postos de controle do exército e as estações eram alvos frequentes de atentados.
Ao chegarem na loja na Great Victoria Street, esses jovens encontravam um ambiente único na Irlanda do Norte. Na Good Vibrations, o rapaz católico de Lurgan e o rapaz protestante de Portadown sentavam no mesmo balcão para ouvir singles de bandas locais e debater sobre o Clash ou os Ramones. Eles compravam fanzines feitos à mão e voltavam para suas cidades com os discos de vinil debaixo do braço. Esses discos eram copiados em fitas cassete e distribuídos localmente, alimentando e mantendo viva a pequena comunidade do interior.
A existência de micro-cenas em cidades como Coleraine (no norte) e Newry (no sul, colada à fronteira com a República da Irlanda) comprova que o punk na Irlanda do Norte não foi um fenômeno puramente metropolitano. Onde houvesse segregação religiosa e tédio juvenil durante os The Troubles, o punk surgia como uma resposta direta e libertadora.
Coleraine operava dentro de um circuito muito dinâmico de praias e resorts da costa norte, dividindo o público jovem com as vizinhas Portrush e Portstewart.
The Xdreamysts é a banda mais célebre de Coleraine, tocavam um rock com forte pegada new wave e pub rock, eles estrearam pela lendária gravadora Good Vibrations em 1978 com o single "Right Way Home". O impacto foi tão imediato que eles foram contratados pela gigante Polydor Records no mesmo ano, lançando um álbum completo.
The Spare Mentals: banda inovadora estabelecida em 1979 que ficou conhecida como a primeira do punk norte-irlandês a usar uma bateria eletrônica no palco. Em um show histórico no Chesters, o grupo misturou a crueza punk com o pós-punk eletrônico nascente. O show no Chesters virou lenda justamente porque, na época, a mentalidade vigente ditava que "punk de verdade não usa robôs".
Quando o vocalista Rodney Orpheus subiu ao palco carregando a máquina rudimentar, o público purista se sentiu profundamente ofendido. Para piorar, o aparelho falhou devido à instabilidade técnica da época, soltando batidas robóticas, agudas e totalmente fora de tempo.
A reação da plateia foi imediata e violenta, iniciando uma vaia massiva. Em poucos minutos, copos, latas e garrafas de cerveja foram arremessados em direção ao palco na tentativa de atingir os músicos e quebrar o equipamento eletrônico "intruso". Em vez de pararem a apresentação, Rodney Orpheus e a banda aumentaram o volume do sintetizador e continuaram tocando em meio aos destroços, transformando o local em uma verdadeira praça de guerra entre o pós-punk futurista e a fúria punk tradicional.
Apesar do desastre imediato, aquela noite caótica marcou o nascimento oficial do pós-punk eletrônico e industrial na Irlanda do Norte. Pouco tempo depois, Orpheus mudou-se para a Inglaterra, onde usou essa mesma mentalidade experimental para fundar o The Cassandra Complex, banda que se tornou cultuada na cena gótica e industrial europeia.
Por ser uma cidade colada à fronteira com a República da Irlanda e de maioria católica, Newry vivia sob um clima asfixiante de militarização, cercada por postos de controle do exército britânico. Ali, os punks desafiavam o sectarismo cruzando os limites territoriais para tocar em Dundalk (já no país vizinho) ou subindo de ônibus para Belfast.
Suas principais bandas deixaram marcas ousadas na região: The Nerves: Vindos do conjunto habitacional de Derrybeg, em Newry, a banda foi formada pelos três irmãos McCaul.
Eles gravaram uma fita demo e a deixaram despretensiosamente na Good Vibrations, Terri Hooley e o DJ Davy Simms ficaram tão impressionados com a energia melódica dos garotos que, quando eles voltaram para buscar a fita, receberam uma proposta direta para gravar um álbum inteiro.
Impact/The Suburbanites: Ativa no início dos anos 1980 e liderada pelo vocalista Gary "Titch" Rafferty, a banda marcava época com suas letras ácidas. Em um protesto puramente punk contra o tédio e a repressão local, eles organizaram um show clandestino em cima do telhado do Newry Arts Centre. A apresentação barulhenta atraiu uma multidão de jovens e causou tanta polêmica na cidade que resultou na renúncia forçada do chefe do conselho de artes local.
Na Irlanda do Norte, o visual punk tradicional — composto por cabelos espetados, alfinetes e jaquetas customizadas — funcionava curiosamente como um uniforme de neutralidade. Relatos da época apontam que os punks usavam a estética chocante do movimento para "se tornarem invisíveis" às divisões políticas e religiosas tradicionais.
Ao adotarem aquela identidade, eles deixavam de ser vistos como católicos/republicanos ou protestantes/legalistas. Passavam a ser reconhecidos apenas como "punks" — membros de uma tribo urbana unida que rejeitava categoricamente a guerra de seus pais.
Alex
Christiane F. Vera Christiane Felscherinow, mais conhecida como Christiane F. (Hamburgo, 20 de maio de 1962), é uma escritora e blogueira alemã, que se tornou célebre por contribuir para o livro autobiográfico Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, publicado e editado pela revista alemã Stern em 1978, que descreve sua luta contra o vício durante a adolescência. A Stern (em português: Estrela) é uma revista semanal de tendência liberal de esquerda, fundada em 1 de agosto de 1948, publicada em Hamburgo pela editora Gruner + Jahr, que pertence ao grupo de mídia Bertelsmann. A Stern trata de questões políticas e sociais, fornece jornalismo utilitário e histórias clássicas, galerias de fotos e mostra retratos de celebridades. Tradicionalmente, a revista dá mais ênfase à fotografia do que outras revistas de notícias em geral. Excepcionalmente para uma revista popular na Alemanha Ocidental do pós-guerra, a Stern investigou a origem e a natureza das tragédias precedentes da história alemã. Em 1983...
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