Socialismo utópico — História e desenvolvimento sob uma ótica marxista
"Socialismo utópico" é o termo frequentemente usado para descrever a primeira corrente do socialismo moderno e do pensamento socialista, exemplificada pela obra de Saint-Simon (1760–1825), Charles Fourier (1772–1837) e Robert Owen (1771–1858).
O socialismo utópico é frequentemente descrito como a apresentação de visões e esboços para sociedades socialistas ideais, imaginárias ou futuristas, que buscam ideais de relações interpessoais positivas, separadas dos mecanismos capitalistas. No entanto, socialistas posteriores, como os marxistas, e os críticos do socialismo menosprezaram o socialismo utópico por não estar fundamentado nas condições materiais reais da sociedade existente. Socialistas posteriores aplicaram o termo "socialismo utópico" aos socialistas que viveram no primeiro quartel do século XIX como pejorativo para descartar as ideias desses pensadores como fantasiosas e irrealistas.
O socialismo ético, fundado por R. H. Tawney (1880 – 1962) também é menosprezado.
Os anarquistas e marxistas que rejeitaram o socialismo utópico fizeram-no porque os socialistas utópicos geralmente não acreditavam que a luta de classes ou a revolução social fossem necessárias para o surgimento do socialismo. Os socialistas utópicos acreditavam que pessoas de todas as classes poderiam adotar voluntariamente seu plano para a sociedade se este fosse apresentado convincentemente. O socialismo cooperativo poderia ser estabelecido entre pessoas com ideias semelhantes em pequenas comunidades que demonstrariam a viabilidade de seu plano para a sociedade em geral. Devido a essa tendência, o socialismo utópico também estava relacionado ao radicalismo clássico, uma ideologia liberal de esquerda.
Diferente do socialismo científico, o Radicalismo Clássico não queria abolir a propriedade privada, mas sim tornar o capitalismo democrático, removendo os entraves feudais e monárquicos que impediam a competição justa e o progresso individual.
Desenvolvimento
Em A Miséria da Filosofia, Marx criticou os argumentos econômicos e filosóficos de Proudhon apresentados em O Sistema das Contradições Econômicas, ou A Filosofia da Miséria. Marx acusou Proudhon de querer ascender acima da burguesia. Na história do pensamento de Marx e do marxismo, esta obra é fundamental na distinção entre os conceitos de socialismo utópico e o que Marx e os marxistas reivindicavam como socialismo científico.
No Manifesto Comunista, Marx e Friedrich Engels escreveram: "O estado pouco desenvolvido da luta de classes, bem como o seu próprio contexto, leva os socialistas deste tipo a considerarem-se muito superiores a todos os antagonismos de classe. Desejam melhorar a condição de todos os membros da sociedade, mesmo dos mais favorecidos. Por isso, apelam habitualmente à sociedade em geral, sem distinção de classe; aliás, preferencialmente à classe dominante. Pois como é possível que as pessoas, uma vez compreendido o seu sistema, não o vejam como o melhor plano possível para o melhor estado possível da sociedade? Por isso, rejeitam toda a ação política, e especialmente toda a ação revolucionária; desejam atingir os seus objetivos por meios pacíficos e esforçam-se, por meio de pequenas experiências, necessariamente fadadas ao fracasso, e pela força do exemplo, por pavimentar o caminho para o novo Evangelho social."
Marx e Engels usaram o termo socialismo científico para descrever o tipo de socialismo que eles próprios idealizavam.
Segundo Engels, o socialismo não era: "uma descoberta acidental deste ou daquele cérebro engenhoso, mas o resultado necessário da luta entre duas classes historicamente desenvolvidas, a saber, o proletariado e a burguesia. Sua tarefa não era mais fabricar um sistema social o mais perfeito possível, mas examinar a sucessão histórico-econômica de eventos da qual essas classes e seu antagonismo necessariamente surgiram, e descobrir nas condições econômicas assim criadas os meios para pôr fim ao conflito".
A agitação social entre empregados e empregadores em uma sociedade, resultante do crescimento de forças produtivas como a tecnologia e os recursos naturais, é a principal causa do desenvolvimento social e econômico. Essa é a essência do Materialismo Histórico. Para Marx e Engels, o motor da história não são as ideias ou a vontade política, mas as contradições entre o desenvolvimento das forças produtivas (tecnologia, máquinas, matérias-primas) e as relações de produção (a organização social do trabalho e a propriedade). Quando a tecnologia e os meios de produção avançam a ponto de as leis e a estrutura social atual não conseguirem mais comportá-los, ocorre o conflito — a luta de classes. Essa tensão funciona como a "parteira" de um novo sistema social, transformando a economia e a política para se adequarem à nova realidade material.
Essa estrutura econômica sustenta uma superestrutura ideológica que permite à burguesia determinar o salário do trabalhador. Além disso, os governantes capitalistas controlam os modos de produção. Essa estrutura econômica ideológica permite que a burguesia mine a percepção do trabalhador sobre seu lugar na sociedade, visto que a burguesia governa a sociedade baseando-se em seus próprios interesses. Esses governantes da sociedade exploram a relação entre trabalho e capital, permitindo-lhes maximizar seus lucros. Para Marx e Engels, o lucro obtido por meio da exploração dos trabalhadores é a questão central do capitalismo, explicando suas crenças sobre a opressão da classe trabalhadora. O capitalismo atingirá um certo estágio, no qual não poderá mais impulsionar o progresso da sociedade, resultando na semeadura do socialismo.
Esse conceito de infraestrutura e superestrutura, na teoria marxista, a base econômica (propriedade privada e relações de trabalho) determina a superestrutura (leis, política e ideologia). O ponto central é a "minagem da percepção do trabalhador" é o que Marx define como alienação e ideologia dominante. Através do controle dos meios de produção, a burguesia não domina apenas o corpo do operário, mas também o seu intelecto, fazendo com que o trabalhador aceite a exploração como algo natural ou inevitável. Esse fenômeno é o que impede, inicialmente, a formação da consciência de classe.
Como socialista, Marx teorizou as falhas internas do capitalismo. Ele descreveu como as tensões entre as forças produtivas e os modos de produção levariam à queda do capitalismo por meio de uma revolução social. Liderando a revolução estaria o proletariado, visto que a preeminência da burguesia chegaria ao fim. A visão de Marx sobre sua sociedade estabelecia que não haveria classes, haveria liberdade para a humanidade e a oportunidade para o trabalho não egoísta eliminar qualquer alienação.
Desde meados do século XIX, Marx e Engels ultrapassaram o socialismo utópico em termos de desenvolvimento intelectual e número de adeptos. Em certa altura, quase metade da população mundial vivia sob regimes que se diziam marxistas. Correntes como o owenismo e o fourierismo atraíram o interesse de numerosos autores posteriores, mas não conseguiram competir com as escolas marxistas e anarquistas, agora dominantes, a nível político. Observou-se que exerceram uma influência significativa no surgimento de novos movimentos religiosos, como o espiritualismo e o ocultismo.
Os socialistas utópicos eram vistos como querendo expandir os princípios da revolução francesa para criar uma sociedade mais racional. Apesar de serem rotulados como utópicos por socialistas posteriores, seus objetivos nem sempre eram utópicos e seus valores frequentemente incluíam apoio rígido ao método científico e à criação de uma sociedade baseada na compreensão científica.
A distinção entre o socialismo utópico e o científico não reside apenas na meta final — uma sociedade sem classes —, mas no método para alcançá-la.
Enquanto os utópicos desenharam plantas detalhadas de comunidades ideais esperando que a razão e a ética convencessem a humanidade, Marx e Engels deslocaram o socialismo do campo da imaginação para o campo da análise histórica. Para a ótica marxista, o socialismo não é um "plano de sociedade" a ser imposto de fora, mas o resultado inevitável das contradições internas do próprio capitalismo.
Embora o socialismo científico tenha se tornado a força política dominante no século XX, o legado dos utópicos permanece como um lembrete da necessidade de pensar alternativas radicais à lógica do capital, influenciando desde o cooperativismo moderno até críticas éticas à desumanização do trabalho. Assim, a transição do utópico ao científico não apagou o primeiro, mas transformou a esperança moral em uma ferramenta de luta política baseada na realidade material.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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