A Vida é Curta Aproveite o seu Café Entre Repetências e Pela-Sacos: Meus Anos no Heitor Nasci em uma quarta-feira na antiga Maternidade São Paulo e vivi no Centro até os seis anos. Meus pais se separaram quando eu estava prestes a completar três. Pouco depois, minha mãe conheceu meu padrasto, que vivia desde a infância em Veleiros — um bairro de classe média à beira da Represa de Guarapiranga. Aos sete anos, mudamo-nos para a rua João Guilherme de Brito, 49. Para uma criança vinda da esquina da Avenida Ipiranga, Veleiros era o paraíso: eu podia andar de bicicleta e brincar na rua. Naqueles primeiros tempos, fiz amigos da minha idade: os irmãos Junior e Rodrigo, o André, o Peterson e o outro Rodrigo. Ingressei no Heitor de Andrade na 2ª série. Na 3ª, repeti pela primeira vez. Hoje entendo que aquela reprovação foi fruto do isolamento causado por uma briga com meus amigos. Tudo começou em uma casa abandonada, onde decidimos criar peixes em uma caixa d'água. Certo dia, o Rodrigo me empurrou acidentalmente; caí sobre a madeira que escorava a caixa e ela estourou. Os peixes morreram e nós ganhamos horas de broncas. Aquele incidente selou o fim das minhas amizades. Ser repetente tornou-se um estigma; a vergonha que senti moldou minha personalidade. Além de repetente, eu não teria amigos por anos. Tornei-me um jovem introvertido, mergulhado em quadrinhos. Pratiquei karatê, mas, embora soubesse me defender, suportava as agressões estoicamente. Quando cheguei à faixa verde, a filosofia pacifista começou a me irritar. Eu não queria mais apenas me defender; eu queria atacar. A pá de cal na minha vida social veio com um "fora" que se transformou em linchamento público. Além da rejeição, a garota fez questão de me ridicularizar diante de todos. Virei um pária, e o bullying tornou-se ainda mais agressivo. Minha mãe era sócia do clube da Eletropaulo, na beira da represa. Certa tarde, enquanto eu caminhava por lá, um conhecido chamado Manfredini me pediu um isqueiro. Eu havia começado a fumar semanas antes, roubando cigarros da minha mãe. Mas Manfredini estava bolando um baseado. Fumei maconha pela primeira vez e, naquele momento, fiz a pior associação da minha vida: se eu não tinha amigos e era "feio e esquisito" para as garotas, drogas e álcool preencheriam esse vazio. Abandonei as amarras do karatê. Um dia, enquanto dormia sobre a mesa em uma aula vaga, alguém bateu na minha nuca. Levantei-me e desferi um soco no peito do primeiro que vi. O susto que causei nos outros me agradou. Decidi, então, que me tornaria um "cuzão". Mas minha fase de valentão durou pouco. Tentei intimidar um garoto, mais baixo e aparentemente fraco, até que ele reagiu. Foi a briga mais violenta da minha vida; saímos sangrando e eu levei uma surra inesquecível. Abalado por essa humilhação, voltei ao meu casulo de silêncio. Até que, no primeiro dia na 8ª série, o Leonardo — um antigo conhecido — veio falar comigo. Através dele, conheci o Hunter. Semanas depois, um sujeito de cabelos compridos e cara de maluco entrou na sala. Tinha um nome peculiar e durante a chamada disse à professora: "Me chame de Junior!". O modo calmo e pausado com que ele falava impunha respeito. Quem grita assusta, mas quem ameaça em voz baixa é quem realmente preocupa. Ele logo se tornou o "Doidão". O apelido se consolidou, quando eu e o Hunter fomos intimidados por um dos maiores pela-sacos da escola e seus amigos. Do nada, o Doidão surgiu e avisou que, se eu precisasse de ajuda, ele estaria lá. Nós três nos tornamos inseparáveis. Lembro-me de quando o Doidão chamou um amigo, o Joe, para dar um "apavoro" em nossos inimigos. Nesse dia o Hunter não foi à escola. Na saída, um mala aproximou-se pedindo um cigarro. O Joe, achando que era um dos nossos inimigos, nem quis saber de conversa: deu um empurrão que mandou o cara longe. O sujeito levantou puto e pronto para brigar, mas o Joe era um tanque de guerra. O cara mediu o tamanho do prejuízo e desistiu na hora. Eu e o Doidão repetimos a 8ª série. As brigas pioraram e, no meio do ano, eu, o Hunter e o Doidão mudamos para o Colégio Elevação, na Cidade Dutra. Se sou quem sou, para o bem ou para o mal, devo àquela vivência. Acabei repetindo novamente em um supletivo pago e, por algum motivo do destino, retornei ao Heitor. Repeti de novo. Mas, dessa vez, meus inimigos não eram mais pela-sacos; eram as drogas. --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog