Carolina Maria de Jesus: Autenticidade e Resistência
Carolina Maria de Jesus (1914–1977) foi uma escritora, cantora, compositora e poetisa — que se tornou uma das autoras mais influentes e estudadas do Brasil.
Em 1958, o jornalista Audálio Dantas (8 de julho de 1929–30 de maio de 2018) visitou a favela do Canindé, local onde Carolina vivia, para uma reportagem do jornal Folha da Noite*. Ele relatou ter se encantado com a autora, que, "apesar de ser uma mulher extremamente pobre e simples, demonstrava uma grande lucidez crítica". Após esse encontro, é publicado, em agosto de 1960, pela editora da Livraria Francisco Alves, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada.
O livro reproduz o diário de Carolina e descreve suas vivências no período de 1955 a 1960. A autora relata o sofrimento e as angústias dos habitantes da favela. Carolina se sustentava recolhendo papel nas ruas. Quando não conseguia papel suficiente, ela e seus filhos não comiam.
O texto de Carolina é um marco da escrita feminista no Brasil porque ele subverte a lógica da literatura brasileira da época. Até a publicação de Quarto de Despejo, a escrita feminina no Brasil era majoritariamente produzida por mulheres da elite.
Carolina trouxe um lugar de fala inédito: ela escreve de dentro da favela, não como uma observadora externa (socióloga ou jornalista), mas como protagonista da própria miséria e resistência. Para retratar sua realidade, Carolina utilizava uma linguagem objetiva marcada pela oralidade, ao mesmo tempo culta e popular, oscilando entre um registro popular e o discurso literário, conferindo uma autenticidade que chocou e fascinou a crítica, legitimando a voz das periferias como literatura. Diferente da ficção, o diário dela expunha a fome, a política local e o descaso público cruamente, refletindo a visão da autora sobre a favela como o "quarto de despejo" da cidade — um lugar onde se joga o que não se quer ver na "sala de visitas" (o centro rico de São Paulo).
Com uma tiragem inicial de dez mil exemplares que se esgotou em apenas uma semana, já foi traduzido para mais de treze idiomas desde o seu lançamento. A obra resultou de uma edição cuidadosa do repórter Audálio Dantas e da equipe da Livraria Francisco Alves, que compilou o conteúdo de 20 cadernos escritos por Carolina. Além de selecionar os trechos do diário e redigir o prefácio, Dantas foi o principal articulador da estratégia de divulgação do livro na imprensa.
A primeira matéria jornalística de Audálio Dantas sobre o livro foi a reportagem de página inteira do jornal Folha da Noite, de 9 de maio de 1958, intitulada: "Retrato da favela escrito por uma favelada no diário de Carolina." Carolina faz um retrato sem retoque do mundo sórdido em que vive, no qual se destaca sua singularidade enquanto escritora e moradora da favela.
Posteriormente, o jornalista publicou matéria na revista O Cruzeiro, da qual era editor-chefe, com o título Retrato da favela no diário de Carolina: a fome fabrica uma escritora. Os dois textos são anteriores à publicação do livro e contribuíram para tornar sua autora uma figura conhecida do público.
Grandes autores brasileiros escreveram sobre a obra, tais como Rachel de Queiroz, Manuel Bandeira, Sérgio Milliet, Helena Silveira, entre outros.
Porém, de acordo com Dantas, alguns questionaram a veracidade dos textos, argumentando que "só podia ser obra de um espertalhão, um golpe publicitário". Dantas então cita Manuel Bandeira, que "em lúcido artigo, colocou as coisas no devido lugar [...] ninguém poderia inventar aquela linguagem, aquele dizer as coisas com extraordinária força criativa, mas típico de quem ficou a meio do caminho da instrução primária."
Análise
A obra foi inicialmente considerada como "literatura documentária de contestação" pelo jornalismo de denúncia, que oferece meios de reportar a situação social vivida pelas camadas tradicionalmente sem meios de expressão. Na atualidade, a obra se enquadra nas narrativas femininas que tiveram início na década de 1970, dentro da "literatura das vozes subalternas".
Na década de 1990, acadêmicos interessados nas vozes excluídas periféricas das décadas de 1950 e 1960 resgataram a obra de Carolina Maria de Jesus no contexto universitário. Quarto de Despejo foi objeto de várias teses e dissertações defendidas nas principais universidades brasileiras, como se pode constatar em buscas na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da Universidade de São Paulo.
* O jornal Folha da Noite foi o primeiro título do atual Grupo Folha, fundado em 19 de fevereiro de 1921 pelos jornalistas Olival Costa e Pedro Cunha. Ele era um diário vespertino (saía à tarde/noite) focado nas classes médias urbanas de São Paulo.
Em 1925, foi criada a Folha da Manhã (edição matutina) e, mais tarde, a Folha da Tarde (1949). Em 1º de janeiro de 1960, os três títulos foram fundidos para dar origem à atual Folha de S.Paulo. As três estrelas que aparecem até hoje sob o logotipo da Folha de S.Paulo simbolizam os três jornais originais.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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