Além do Medo: A Trajetória Multifacetada de Mojica Marins José Mojica Marins (São Paulo, 13 de março de 1936 – São Paulo, 19 de fevereiro de 2020) foi um cineasta, ator, apresentador e roteirista de cinema e televisão brasileiro. Considerado o "pai" do terror nacional, tendo sua obra grande importância para o gênero e influenciando várias gerações. Seu icônico personagem Zé do Caixão, interpretado pelo próprio Mojica, está presente em diversos de seus filmes e é responsável por torná-lo mundialmente conhecido. Embora seja associado principalmente ao seu trabalho no horror, rodou diversas produções cujos gêneros variam entre faroestes, dramas, aventura e até pornochanchada. Mojica desenvolveu um estilo próprio de filmar que, inicialmente desprezado por parte da crítica nacional, passou a ser reverenciado após seus filmes começarem a ser considerados cult no circuito internacional. Mojica é considerado um dos inspiradores do movimento marginal no Brasil e era reverenciado, enquanto cineasta, por pares como Luis Sergio Person, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Os três diretores citados representam a intersecção entre o cinema novo e o cinema marginal. Sendo Person o elo entre ambos. Nascido em uma fazenda pertencente à fábrica de cigarros Caruso, fundada em 1885, no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, era filho de Antônio André Marin e Carmen Mojica Imperial, ambos filhos de imigrantes espanhóis. Quando tinha três anos, a família de Mojica se mudou para os fundos de um cinema na Vila Anastácio. O pai de Mojica passou a ser gerente do cinema. Quando criança, Mojica passava horas lendo gibis e assistindo a filmes na sala de projeção do cinema em que seu pai trabalhava. Depois que ganhou uma câmera V-8, aos doze anos, não mais parou de fazer cinema, essa era a sua vida. Muitos de seus filmes artesanais feitos nessa época eram exibidos em cidades pequenas, cobrindo assim os custos de produção. Autodidata, montou uma escola de interpretação para amigos e vizinhos e, quando tinha 17 anos, após vários filmes amadores, fundou, com ajuda de amigos, a Companhia Cinematográfica Atlas. Especializado em terror escatológico, criou uma escola de atores (1956), onde, na década seguinte, se tornaria a sua famosa escola de formação de atores "Sinagoga (1964), no bairro do Brás. Mojica foi o maior expoente do terror escatológico, um tipo de terror que usa elementos considerados repugnantes, tabus ou "sujos". Nos filmes de Mojica, isso se traduzia em cenas com insetos reais (aranhas, baratas), sangue e situações de degradação física que buscavam causar repulsa imediata no espectador. Mas, a profundidade de Mojica vai além do meramente escatológico, indo de encontro ao sentido clássico; escatologia é o estudo do fim do mundo e do destino final da humanidade. Mojica explorava temas de vida após a morte, o destino da alma e o niilismo através do personagem Zé do Caixão, que frequentemente questionava dogmas religiosos e buscava a "continuidade do sangue." Na Sinagoga, ele usava elementos escatológicos para "medir a coragem", integrando o horror escatológico à própria formação dos atores. Depois da fundação de sua escola, a carreira profissional de Mojica Marins passou a ficar cada vez mais próxima. Mojica, aos 18 anos, tentou realizar o filme Sentença de Deus. As filmagens ocorreram entre 1954 e 1956, mas a obra permaneceu inacabada, o que contribuiu para a aura "maldita" que cercava suas produções. Sabe o motivo para a obra ser inacabada e, mesmo tão jovem, as obras de Mojica serem "malditas"? Uma das atrizes faleceu afogada pouco antes ou durante o período de produção e outras duas atrizes que interpretariam a mesma personagem faleceram sucessivamente. Além dessas mortes, objetos como cruzes caíam sozinhos durante as gravações. Esses eventos foram tão impactantes que Mojica decidiu interromper a produção. Parte desse material filmado entre 1954 e 1956 foi editada e é frequentemente listada como um curta-metragem de aproximadamente 20 minutos, lançado em 1958. O trauma com Sentença de Deus foi tão grande que ele chegou a declarar que o filme estava "condenado pelas forças do mal", interrompendo o projeto para tentar a sorte em gêneros mais "seguros", como o faroeste, antes de retornar definitivamente ao terror. Após Mojica perceber o impacto das histórias sobre Sentença de Deus, passou a usar o mistério e o medo como ferramentas de divulgação, abraçando o rótulo de cineasta "maldito" para atrair o público curioso. Em 1958, foi concluído A Sina do Aventureiro, com apenas duas pessoas que não eram da escola de atores de Mojica, mas que depois tiveram aulas, Ruth Ferreira e Shirley Alvez. A Sina do Aventureiro é um faroeste caboclo (ou "western feijoada", na definição do pesquisador Rodrigo Pereira), vertente prolífica, mas desprezada pela historiografia clássica do cinema brasileiro. Insere-se, portanto, na tradição mais ampla dos filmes rurais de aventura. Para lançar o filme A Sina do Aventureiro, Mojica contou com a ajuda dos irmãos Valancy, que eram proprietários do Cine Coral, um cinema de rua histórico em São Paulo, localizado na Rua Augusta, que desempenhou um papel fundamental no circuito de cinema de arte da cidade. Cine Coral foi um marco por exibir filmes de diretores renomados como Fellini, Antonioni e Truffaut, fugindo do domínio das produções de Hollywood na época. O sucesso do Cine Coral abriu caminho para a criação de outros cinemas icônicos, como o Cine Belas Artes (esquina da Avenida Paulista com a Consolação). A Sina do Aventureiro ficou em cartaz por 45 dias no Cine Coral, o que foi considerado um recorde absoluto para a época e para o local. Mojica explicou, posteriormente, como foi o sucesso do filme: "Para fazer sucesso, eu usei um estratagema, porque já era difícil você entrar uma semana, e ficar três semanas em cartaz num cinema era mais difícil ainda. O que eu fiz? Eu pegava os meus alunos, numa época em que os cinemas tinham fila, e dividia um grupo de alunos numa fila, outro grupo em outra e mais outra. Todos eram atores, né? Então ficavam todos no meio da fila e diziam: "Pô, a gente perdendo tempo nessa fila, passando uma fita tão boa no Cine Coral!" Com isso, eles saíam de lá e levavam o pessoal da fila. E ia todo mundo para o Cine Coral. A fita foi muito bem nas capitais. Estourou em Salvador, em Porto Alegre. Porque ela tem uma miscelânea de nordeste, de roupa nordestina com roupa gaúcha, com roupa americana. Misturo tudo, tem uma miscelânea. No final, tem uma curiosidade: a fita realmente agradou, só não agradou aos padres. Aí tive uma desavença com os padres que me acompanhariam a vida toda". Os padres proibiram os fiéis de assisti-lo devido a cenas de nudez. Essa perseguição acabou gerando o efeito inverso, aumentando a curiosidade do público. Após aceitar a proposta de Augusto de Cervantes, de fazer um filme que agradasse aos padres, Mojica criou a história de Meu Destino em Tuas Mãos e procurou Ozualdo Candeias para elaborar o roteiro — que não foi creditado. As tragédias familiares são apresentadas pelo cineasta com requintes de maldade, temperados por aquele neo-realismo involuntário das produções sem dinheiro. A direção de Mojica deixou o filme ainda mais cru e violento. O filme conta o drama de cinco crianças pobres que vivem infelizes com suas respectivas famílias. Cansados de abuso e desprezo, os amigos fogem de casa e saem pelas estradas, acompanhados do violão e da cantoria de Carlito (vivido por Franquito), o mais velho deles. O jovem Franquito, o "garoto da voz de ouro", foi uma aposta para embarcar no sucesso de Pablito Calvo, astro-mirim de Marcelino, pão e vinho (1955). Mojica compôs três das dez canções interpretadas por Franquito. Meu destino em tuas mãos foi realizado com o dinheiro da venda dos long plays de Franquito, hoje uma raridade por ser um dos primeiros filmes a ter disco com todas as músicas lançado pela gravadora Copacabana. O filme, apesar de ter agradado os padres, não teve repercussão nenhuma e acabou esquecido. Algum tempo depois, o produtor Nelson Teixeira Mendes contratou Mojica para ser ator no O diabo de Vila Velha, um bang-bang. Como condição, o Mojica pediu para poder levar o pai, que estava muito doente, para o Paraná, onde o filme ia ser feito. Após muitas discussões com o diretor Ody Fraga, este veio a se afastar e Mojica assumiu a direção do filme, onde demonstrou afinidade com o gênero faroeste, que já havia exercitado em A sina do aventureiro e ao qual voltaria em D’Gajão mata para vingar. Alex

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