Culpados por Ideologia: O Caso Haymarket e a Criminalização do Pensamento Anarquista A polícia presumiu que um anarquista havia lançado a bomba como parte de uma conspiração; seu problema era como provar isso. Na manhã de 5 de maio, eles invadiram os escritórios do Arbeiter-Zeitung, prendendo Spies e seu irmão, que não foi acusado. Também foram presos o assistente editorial Michael Schwab e o tipógrafo Adolph Fischer. Uma busca nas instalações resultou na descoberta do "Cartaz da Vingança" e outras evidências consideradas incriminatórias pela acusação. Em 7 de maio, a polícia vistou as instalações de Louis Lingg, onde encontraram bombas e materiais para fabricação de bombas. O senhorio de Lingg, William Seliger, também foi preso, mas cooperou com a polícia, identificou Lingg como fabricante de bombas e não foi acusado. Um associado de Spies, Balthazar Rau, suspeito de ser o autor do atentado, foi localizado em Omaha e trazido de volta a Chicago. Após interrogatório, Rau ofereceu-se para cooperar com a polícia. Ele alegou que os réus haviam experimentado bombas de dinamite e os acusou de terem publicado o que ele disse ser uma palavra-código, "Ruhe" ("paz"), no Arbeiter-Zeitung como um chamado às armas na Praça Haymarket. Réus Rudolf Schnaubelt, o principal suspeito da polícia de ser o autor do atentado, foi preso duas vezes no decorrer das investigações e libertado. Em 14 de maio de 1886, quando ficou evidente que ele havia desempenhado um papel significativo no evento, ele fugiu do país. Em 4 de junho de 1886, outros oito suspeitos foram indiciados pelo grande júri e julgados por cumplicidade no assassinato de Degan. Destes, apenas dois estavam presentes quando a bomba explodiu. Spies e Fielden haviam discursado e estavam cumprindo às ordens da polícia para dispersar, pouco antes da explosão. Fischer e Parsons estavam presentes no início do comício, mas haviam saído e estavam no Zepf's Hall, um ponto de encontro anarquista, no momento da explosão. Parsons, que acreditava que as provas contra todos eles eram fracas, entregou-se voluntariamente em solidariedade aos acusados. Não diretamente ligados ao comício na Haymarket, mas presos por seu radicalismo militante, estavam George Engel, que estava em casa jogando cartas naquela noite, e Lingg. Outro réu que não estava presente naquela noite foi Oscar Neebe, que estava associado ao Arbeiter-Zeitung e tentou reativá-lo após os acontecimentos em Haymarket. Dos oito réus, Spies, Fischer, Engel, Lingg e Schwab eram imigrantes alemães, enquanto Neebe, embora de ascendência alemã, era cidadão nato, nascido nos EUA. Já Parsons e Fielden eram de ascendência britânica — sendo Parsons nascido nos EUA (Alabama) e Fielden um imigrante vindo da Inglaterra. Julgamento O julgamento Illinois vs. August Spies et al. ocorreu entre 21 de junho e 11 de agosto de 1886, imerso em uma atmosfera de hostilidade extrema por parte do público e da imprensa. O processo foi presidido pelo juiz Joseph Gary, cuja conduta foi marcada por uma parcialidade aberta: ele decidiu sistematicamente a favor da acusação, negligenciou o decoro judicial e negou o pedido da defesa para julgar os réus separadamente. A defesa, composta por Sigmund Zeisler e William Perkins Black, enfrentou um processo de seleção de júri extenuante. Ao longo de três semanas, quase mil candidatos foram convocados, mas qualquer pessoa ligada a sindicatos ou que expressasse simpatia pelo socialismo era sumariamente dispensada. O júri final de 12 pessoas era composto, em sua maioria, por indivíduos que admitiram ter preconceitos contra os réus. No entanto, o juiz Gary manteve-os, aceitando a alegação de que seriam capazes de absolver os acusados caso as provas assim o exigissem.A estratégia da acusação, liderada por Julius Grinnell, não focou na autoria direta do atentado, mas argumentou que, ao não desencorajarem o lançador da bomba, os réus eram legalmente responsáveis como conspiradores. Das 118 testemunhas ouvidas, 54 eram policiais de Chicago. Entre os depoimentos, destacou-se o do irmão de Albert Parsons, que mencionou evidências ligando a agência Pinkerton à bomba — uma suspeita amplamente compartilhada pelos grevistas da época, que viam o atentado como uma possível armadilha. A Agência Pinkerton foi a primeira e mais famosa agência de detetives particulares dos Estados Unidos. Fundada em 1850 por Allan Pinkerton, ela se tornou uma força poderosa que moldou a investigação criminal moderna e serviu de base para o que hoje conhecemos como o FBI. A reputação da agência foi manchada no final do século XIX, quando começaram a ser contratados por grandes industriais para infiltrar sindicatos e reprimir greves de trabalhadores de forma violenta, como no famoso incidente de Homestead em 1892. A Pinkerton ainda existe, mas atua como uma subsidiária da empresa sueca Securitas AB, focada em gerenciamento de riscos e segurança corporativa. No Brasil, inclusive, possuem um escritório na Vila Olímpia, em São Paulo. Hoje, eles são muito conhecidos por serem os principais antagonistas no jogo Red Dead Redemption 2, onde perseguem a gangue de Dutch van der Linde. Investigadores liderados pelo Capitão Michael Schaack realizaram perícias químicas em estilhaços de chumbo retirados de uma das vítimas. Os resultados ligaram o material às bombas encontradas na casa de Lingg, levando Schaack a concluir que o grupo anarquista refinou seus artefatos explosivos ao longo de anos de testes. Já na fase final do julgamento, percebeu-se que as orientações sobre a possibilidade de homicídio culposo haviam sido omitidas.O júri foi então reconvocado às pressas para que as devidas instruções fossem integradas às deliberações finais. Veredicto e medo vermelho O veredicto foi unânime: o júri declarou todos os oito réus culpados. No entanto, antes de ouvir sua sentença, Oscar Neebe confrontou o tribunal, denunciando que os oficiais sob o comando de Schaack agiam como uma das piores gangues da cidade, realizando saques e roubando pertences como dinheiro e relógios. Diante do riso debochado de Schaack, Neebe foi incisivo: 'Não ria disso, Capitão Schaack. Você é um deles. Dentro da sua própria definição, você é um anarquista. Na verdade, todos vocês são anarquistas nesse sentido da palavra.' O juiz Gary condenou sete dos réus à morte por enforcamento e Neebe a 15 anos de prisão. A sentença provocou indignação nos movimentos trabalhistas e operários e seus apoiadores, resultando em protestos em todo o mundo e elevando os réus à condição de mártires, especialmente no exterior. As representações dos anarquistas como fanáticos estrangeiros sedentos de sangue na imprensa, juntamente com a publicação em 1889 do relato sensacionalista do Capitão Schaack, Anarquia e Anarquismo, inspiraram medo e repulsa generalizados do público contra os grevistas e um sentimento anti-imigração geral, polarizando a opinião pública. Em um artigo datado de 4 de maio, intitulado "A Mão Vermelha da Anarquia", o The New York Times descreve o incidente como o "fruto sangrento" dos "ensinamentos vilões dos anarquistas". O Chicago Times descreveu os réus como "arquiconselheiros de motim, pilhagem, incêndio criminoso e assassinato"; outros repórteres os descreveram como "brutos sanguinários", "assassinos" e "demônios". O jornalista George Frederic Parsons escreveu um artigo para o The Atlantic Monthly no qual identifica os temores dos estadunidenses de classe média em relação ao radicalismo trabalhista e afirma que os trabalhadores só tinham a si mesmos a culpar por seus problemas. Edward Aveling observou: "Se esses homens forem enforcados, será o Chicago Tribune que o fará". Schaack, que liderou a investigação, foi demitido da força policial por supostamente ter fabricado provas no caso, mas foi reintegrado em 1892. Após Haymarket, o movimento operário foi esmagado por uma dura retaliação. As conquistas trabalhistas retrocederam e a jornada exaustiva de dez horas voltou a ser a norma. Apoiada financeiramente pela elite empresarial, a polícia de Chicago lançou uma ofensiva implacável contra imigrantes e ativistas, atropelando direitos constitucionais em batidas violentas. Por dois meses, o terror policial se espalhou por salões de reuniões e escritórios, focando especialmente na redação do Arbeiter-Zeitung. A narrativa oficial era clara: os anarquistas não eram apenas agitadores, mas fabricantes de bombas que planejavam o caos desde as primeiras horas daquele fatídico dia. Desenvolveu-se um consenso de que a supressão da agitação anarquista era necessária, enquanto, por sua vez, organizações sindicais como os Cavaleiros do Trabalho e sindicatos de ofício se apressaram em se dissociar do movimento anarquista e em repudiar as táticas violentas como contraproducentes. Apelações Em 1887, o processo avançou para a fase recursal, sendo apreciado inicialmente pela Suprema Corte de Illinois e, logo depois, levado ao Supremo Tribunal dos Estados Unidos. Na instância máxima, os réus foram representados por uma bancada de renome, que incluía John Randolph Tucker, Roger Atkinson Pryor, o General Benjamin F. Butler e William P. Black. Apesar do peso da defesa, o pedido de certiorari — o dispositivo para revisão judicial do caso — foi indeferido, ratificando as condenações impostas anteriormente. Comutações e suicídio Após esgotados os recursos, coube ao governador de Illinois, Richard James Oglesby, decidir se comutaria as penas dos condenados. Centenas de milhares de pessoas em todo o país fizeram petições para que o fizesse, embora a imprensa na época defendesse amplamente as execuções. O advogado de Parson observou no julgamento que enforcar esses homens seria o equivalente a enforcar abolicionistas que simpatizavam com John Brown. Oglesby, um ex -republicano radical, reconheceu que, sob essas leis, "todos nós, abolicionistas, já teríamos sido enforcados há muito tempo". No final, Oglesby decidiu que perdoaria apenas aqueles que pedissem clemência. Quatro dos sete recusaram categoricamente, alegando que não haviam cometido nenhum crime, e assim, apenas os dois que solicitaram clemência, Fielden e Schwab, tiveram suas sentenças comutadas para prisão perpétua em 10 de novembro de 1887. Na véspera da execução, Lingg cometeu suicídio em sua cela com um detonador contrabandeado que ele supostamente segurava na boca como um charuto (a explosão arrancou metade de seu rosto e ele sobreviveu em agonia por seis horas). Execuções No dia seguinte (11 de novembro de 1887), quatro réus — Engel, Fischer, Parsons e Spies — foram levados para a forca vestidos com túnicas e capuzes brancos. Cantaram a Marselhesa, o hino do movimento revolucionário internacional. Familiares, incluindo Lucy Parsons, que tentaram vê-los pela última vez, foram presos e revistados em busca de bombas (nenhuma foi encontrada). Segundo testemunhas, nos momentos que antecederam o enforcamento, Spies gritou: "Chegará o tempo em que nosso silêncio será mais poderoso do que as vozes que vocês sufocam hoje." Em suas últimas palavras, Engel e Fischer exclamaram: "Viva o anarquismo!" Parsons então pediu para falar, mas foi interrompido quando foi dado o sinal para acionar o alçapão. Testemunhas relataram que os condenados não morreram imediatamente ao caírem, mas foram estrangulados lentamente até a morte, uma cena que deixou os espectadores visivelmente abalados. Esboço artístico do julgamento, Illinois vs. August Spies et al. Alex

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