Lester Bangs: O Homem que Inventou o Punk e Morreu Ouvindo Synth- Leslie Conway "Lester" Bangs (1948–1982) não foi apenas um jornalista e crítico musical; ele é amplamente considerado a voz mais visceral e influente da crítica de rock. Conhecido por seu estilo "gonzo" — subjetivo, caótico e brutalmente honesto — Bangs imortalizou seu nome em publicações icônicas como as revistas Creem e Rolling Stone. O crítico Jim DeRogatis chegou a defini-lo como "o maior crítico de rock da América". Nascido em Escondido, Califórnia, Bangs teve uma infância marcada por contrastes: era filho de uma devota Testemunha de Jeová e de um caminhoneiro que faleceu tragicamente em um incêndio quando Lester ainda era jovem. Essas raízes complexas moldaram sua visão de mundo quando se mudou com sua mãe para El Cajon aos 11 anos. Suas influências eram uma mistura explosiva de alta cultura e contracultura: A prosa febril da Geração Beat, especialmente de William S. Burroughs. O experimentalismo do jazz de John Coltrane e Miles Davis e quadrinhos e da ficção científica. No final dos anos 1960, escrevendo para o jornal underground The San Diego Door, Bangs cruzou o caminho de um jovem Cameron Crowe (13 de julho de 1957). Essa amizade foi tão marcante que Crowe mais tarde homenageou Bangs no filme Quase Famosos (interpretado por Philip Seymour Hoffman), consolidando a imagem do crítico como o "guardião moral" da integridade do rock. Rolling Stones Bangs tornou-se escritor freelancer em 1969, depois de ler um anúncio na Rolling Stone solicitando resenhas de leitores. Seu primeiro texto aceito foi uma crítica devastadora do álbum Kick Out the Jams, do MC5. Bangs chamou o disco de "ridículo", "clichê" e uma "barulheira feia". Ele criticou duramente a postura política da banda (ligada aos Panteras Brancas - um grupo de extrema-esquerda fundado por John Sinclair para apoiar os Panteras Negras), considerando-a um marketing barato para esconder uma música que ele achava primitiva e sem ideias originais. Bangs enviou o texto com um bilhete desaforado aos editores: "Olha aqui, seus idiotas, eu sou tão bom quanto qualquer escritor que vocês têm aí. É melhor publicarem isso ou me darem um motivo para não fazê-lo". A revista publicou e o contratou em seguida. Porém, fiel ao seu estilo imprevisível, Bangs não manteve esse ódio para sempre. Com o tempo, ele se tornou um dos maiores defensores da banda. Apenas alguns anos depois, na revista Creem, ele revisou sua opinião e passou a elogiar o MC5 como um dos pilares do que ele ajudaria a definir como punk rock. Ele chegou a se tornar amigo próximo do vocalista Rob Tyner e frequentemente ouvia o álbum que antes havia destruído. No filme Quase Famosos, há uma referência sutil a essa ligação: o personagem de Bangs aparece usando uma camiseta escrito "Detroit Sucks", uma provocação direta à cidade natal do MC5. A relação de Lester Bangs com o Black Sabbath começou com ódio puro e terminou em uma redenção histórica que ajudou a validar o Heavy Metal como gênero. Quando o primeiro álbum da banda (Black Sabbath) foi lançado em 1970, a crítica especializada os detestou. Na Rolling Stone, Bangs foi impiedoso: descreveu a banda como "trabalhadores não qualificados" e chamou o som deles de uma cópia malfeita. "Exatamente como o Cream! Só que pior". Ele ridicularizou as letras sobre satanismo, chamando-as de "clichês" e "bobagens", e comparou o vocal de Ozzy Osbourne a uma versão ruim da banda Vanilla Fudge. Contudo, Bangs foi um dos primeiros críticos a "morder a língua" e perceber que havia algo de genial naquela escuridão. Embora haja debates, ele é frequentemente creditado por popularizar e dar um sentido crítico ao termo "Heavy Metal" para descrever o som denso do Sabbath, do Led Zeppelin e do Deep Purple. Já em 1971, ao resenhar o álbum Master of Reality, ele mudou completamente o tom, elogiando a "visão" da banda e comparando a profundidade de suas letras ao impacto social de Bob Dylan. Para Bangs, o Sabbath representava a verdade do rock: era barulhento, feio e ignorado pelos intelectuais, mas era exatamente o que os garotos precisavam ouvir. Essa relação é imortalizada no filme Quase Famosos. Na vida real, Bangs realmente via o Black Sabbath como o teste definitivo para um novo escritor. No filme, ele dá a tarefa ao jovem protagonista: "Escreva 500 palavras sobre o Black Sabbath. Mas não se esqueça: eles são perigosos!". Ao escrever sobre a morte de Janis Joplin (ocorrida em outubro de 1970), em vez de um tributo meramente sentimental, ele utilizou o espaço na Rolling Stone e, posteriormente, em ensaios sobre o álbum póstumo Pearl, para expor a tragédia por trás da fama. Os principais pontos de sua escrita sobre Janis: A "Canibalização" da Estrela: Bangs foi extremamente ácido ao notar a rapidez com que a mídia aceitou sua morte. Ele escreveu: "Não é apenas o fato de que esse tipo de morte precoce se tornou um fato da vida que é perturbador, mas que tenha sido aceito como um dado de forma tão rápida". Para ele, o público e as revistas "colaboraram gananciosamente" na destruição de Janis. Ele criticava os memoriais que surgiram logo após sua overdose, afirmando que eles continuavam a adorar a "mentira" que a matou. Bangs defendia que ninguém escrevia sobre o indivíduo "assustado e inseguro" por trás do brilho do palco. Ele a descreveu como o exemplo mais trágico de sua geração, chamando-a de uma "verdadeira criança abandonada no mundo". Ele dizia que qualquer pessoa minimamente atenta à cena pop poderia sentir sua vulnerabilidade e o caminho autodestrutivo que ela trilhava. Ao resenhar o álbum Pearl, Bangs reconheceu que Janis havia finalmente encontrado o equilíbrio artístico que lhe faltava. Ele elogiou o disco por mostrar que ela tinha muito mais a oferecer do que apenas os gritos desinibidos que se tornaram sua marca registrada, vendo em faixas como "Me and Bobby McGee" uma profundidade quase dolorosa. Em 1973, Jann Wenner (7 de janeiro de 1946) cofundador da Rolling Stone, que defendia uma postura mais respeitosa com os artistas estabelecidos, demitiu Bangs sob a justificativa de que ele era "desrespeitoso com os músicos" após uma crítica particularmente dura ao Canned Heat. Mas vamos aos pontos: em 1973, o Canned Heat já não era mais a banda do Woodstock. O álbum The New Age foi o pretexto perfeito para Lester Bangs disparar sua metralhadora de sarcasmo contra o que ele considerava a "decadência preguiçosa" do boogie rock. O Boogie Rock é um subgênero do rock que foca intensamente no ritmo e no groove, sendo perfeito para festas e danças. Ele surgiu no final dos anos 1960 e teve seu auge na década de 1970, pegando carona na batida repetitiva do blues (especialmente o estilo "chugga-chugga" de músicos como John Lee Hooker) e acelerando-a com guitarras distorcidas. Para Bangs, a banda havia se tornado uma caricatura de si mesma, transformando o blues em uma fórmula repetitiva e interminável. Em sua crítica ele ironizava a duração das faixas e a falta de propósito criativo, sugerindo que o disco servia mais como um objeto de consumo vazio do que como uma obra de arte. Ele chegou ao ponto de aconselhar os leitores a gastarem seu dinheiro com algo "realmente cósmico", como os Stooges, em vez de investirem no "boogie requentado" da banda. Para Bangs, se uma banda como o Canned Heat estava apenas "batendo cartão" no estúdio, eles mereciam o desprezo público, não a reverência da indústria. O episódio consolidou sua identidade como o crítico que preferia perder o emprego a moderar sua honestidade brutal. Revista Creem Bangs começou a trabalhar como freelancer para a Creem, sediada em Detroit, em 1970. Em 1971, ele escreveu uma matéria para a Creem sobre Alice Cooper e, logo depois, mudou-se para Detroit. Nomeado editor da Creem em 1971, Bangs se apaixonou por Detroit, chamando-a de "a única esperança do rock", e permaneceu lá por cinco anos. No início da década de 1970, Bangs e alguns outros escritores da Creem começaram a usar o termo punk rock para designar o gênero de bandas de garagem da década de 1960 e artistas mais contemporâneos, como MC5 e Iggy and the Stooges. Seus escritos forneceram parte da estrutura conceitual para os movimentos punk e new wave posteriores que surgiram em Nova York, Londres e outros lugares no final da década. Eles rapidamente perceberam esses novos movimentos e forneceram ampla cobertura ao fenômeno. Bangs era apaixonado pela música de Lou Reed, e a Creem deu visibilidade a artistas como Reed, David Bowie, Roxy Music, Captain Beefheart, Blondie, Brian Eno e New York Dolls anos antes da imprensa convencional. A Creem também esteve entre as primeiras publicações a dar uma cobertura considerável a artistas de hard rock e metal como Motörhead, Kiss, Judas Priest e Van Halen. Carreira subsequente Após deixar a Creem em 1976, Lester Bangs mudou-se para Nova York e expandiu sua voz para além do rock, escrevendo para o The Village Voice, Penthouse, Playboy, New Musical Express e diversas outras publicações de prestígio. Mesmo em ambientes mais corporativos, ele nunca abandonou sua escrita visceral e subjetiva. Seu impacto na literatura musical foi tão profundo que, mesmo após sua morte precoce em 1982, o reconhecimento continuou a chegar. Em 1984, ele foi indicado postumamente ao Grammy de Melhor Texto de Álbum por suas notas de encarte para o álbum The Fugs Greatest Hits, Volume 1. Essa indicação serviu como uma validação final de que Bangs havia transformado a crítica musical em uma forma de arte legítima, elevando simples resenhas ao status de literatura essencial da contracultura. Morte Bangs morreu na cidade de Nova Iorque em 30 de abril de 1982, aos 33 anos; ele estava se automedicando para um caso grave de gripe e acidentalmente sofreu uma overdose de dextropropoxifeno (um analgésico opioide), diazepam (um benzodiazepínico) e NyQuil. Ele havia comprado o disco Dare, da banda inglesa de synth-pop The Human League. Um amigo o encontrou deitado em um sofá em seu apartamento, inconsciente. " Dare estava tocando no toca-discos, e a agulha estava presa no sulco final", escreveu Jim DeRogatis em Let It Blurt, sua biografia de Bangs. Estilo de escrita e comentários culturais A crítica de Bangs estava repleta de referências culturais, não apenas rock, mas também à literatura e à filosofia. Seu estilo radical e confrontador influenciou outros no punk rock e em movimentos sociais e políticos relacionados. Em 1979, escrevendo para o The Village Voice, Bangs escreveu um artigo sobre racismo na cena punk, intitulado "Os Supremacistas do Ruído Branco", no qual reexaminou suas próprias ações e palavras, bem como as de seus pares, à luz do uso de simbolismo nazista e outras expressões e imagens racistas por algumas bandas, "para chocar". Ele chegou à conclusão de que gerar indignação para chamar a atenção não compensava o dano causado a outros membros da comunidade e expressou sua vergonha e constrangimento pessoal por ter se envolvido nesses comportamentos racistas. Ele elogiou os esforços de grupos ativistas como o Rock Against Racism e o Rock Against Sexism como "uma tentativa de simples decência por parte de muitas pessoas que se poderia considerar jovens e ingênuas demais para começar a apreciar as contradições". Música Lester Bangs não se limitou a observar o rock; ele também subiu ao palco. Em 1976, no escritório da revista Creem, ele e Peter Laughner (fundador do Pere Ubu) registraram uma sessão de improvisação acústica que capturava a essência crua de suas influências, incluindo interpretações viscerais de "Sister Ray" e "Pale Blue Eyes", clássicos do Velvet Underground. O passo definitivo na música aconteceu em 1977, no lendário CBGB. Lá, Bangs e o guitarrista Mickey Leigh (irmão de Joey Ramone) fundaram o Birdland. Embora ambos compartilhassem uma profunda base no jazz, o objetivo do grupo era o oposto do intelectualismo: eles queriam resgatar o espírito indomável do rock and roll "à moda antiga". O Birdland teve uma existência efêmera, mas barulhenta. A banda registrou suas composições em uma fita cassete que, embora tenha circulado no underground, só foi lançada oficialmente por Leigh em 1986, quatro anos após a morte de Bangs. A banda se dissolveu apenas dois meses após a gravação. Em 1990, os Mekons lançaram o EP FUN 90 com a participação de Bangs na música "One Horse Town". Na cultura popular Os Ramones mencionam Bangs em sua música de 1981 "It's Not My Place". Bangs é mencionado no single "It's the End of the World as We Know It" do REM, do álbum Document, lançado em 1987. No filme Quase Famosos (2000), dirigido por Cameron Crowe (ele próprio um ex-colunista da Rolling Stone), Bangs é interpretado por Philip Seymour Hoffman como mentor do protagonista William Miller. Bangs também é um personagem importante na versão musical teatral de 2019, na qual foi interpretado por Rob Colletti. O título do livro de memórias de Crowe de 2025, The Uncool, surgiu de uma conversa com Bangs. Ele disse a Crowe que ele havia se aproximado demais das estrelas do rock que cobria. "Você fez amizade com eles. Esse foi o seu erro. Eles fazem você se sentir legal", disse Bangs. "Eu te conheci. Você não é legal." Mais tarde na conversa, Bangs disse que ele e Crowe eram de San Diego, então, "Nós somos sem graça!" A música "Lester Sands" dos Buzzcocks, de 2003, é uma referência codificada a Bangs. Escrita na década de 1970, foi regravada e lançada no álbum Buzzcocks de 2003. Em 2018, uma peça Off-Broadway sobre Bangs, How to Be a Rock Critic, estreou e foi apresentada em vários locais nos EUA. Foi estrelada por Erik Jensen como Bangs e dirigida por Jessica Blank, com música de Steve Earle. Bangs é o tema de uma faixa com seu nome, "Lester Bangs", no álbum Make-Up is a Lie de Morrissey, lançado em 2026. Foto tirada pelo renomado fotógrafo de música Bob Gruen. Alex

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