Casterman: O Império Franco-Belga dos Quadrinhos A Casterman é uma das mais tradicionais editoras franco-belgas de quadrinhos e literatura infantil. A empresa está sediada em Tournai, a 90 quilômetros a sudoeste de Bruxelas. Ela foi fundada por Donat-Joseph Casterman (1755–1823), que estabeleceu-se originalmente em 1776 na cidade de Tournai, trabalhando como livreiro e encadernador. Pouco tempo depois, expandiu as operações da loja para se tornar oficialmente um impressor e editor. A empresa foi formalizada legalmente no ano de 1780, data oficial usada até hoje como o nascimento da Casterman. Sob o comando de Donat-Joseph Casterman, a gráfica não produzia entretenimento. Seu foco era estritamente em literatura católica, publicações religiosas e livros moralistas piedosos destinados à educação de crianças da época, atendendo paróquias, escolas e a elite religiosa belga. Donat-Joseph Casterman não viveu para ver a revolução dos quadrinhos, mas pavimentou o caminho criando uma das dinastias familiares mais longevas da história editorial europeia. Seus filhos, Charles e Josué Casterman, assumiram os negócios após sua morte em 1823. Mas, foram as gerações seguintes da família que tomaram as grandes decisões históricas. Seu neto, Henri Casterman, abriu uma filial crucial em Paris em 1856, expandindo os negócios da família para a França. Os trinetos do fundador, Louis e Gérard Casterman, assumiram o comando em 1919. Foram eles que decidiram diversificar o catálogo clássico e, em 1934, fecharam o contrato histórico com Hergé para publicar os álbuns de Tintim. Graças à estrutura de impressão pesada criada pelo fundador em Tournai, a editora tinha capacidade industrial de ponta quando o mercado de HQs explodiu no século XX. Em 1933, Tintim já era um fenômeno na Bélgica, publicado semanalmente no suplemento infantil Le Petit Vingtième. Os primeiros volumes (Tintim no País dos Sovietes, no Congo e na América) haviam sido impressos em formato de livro de forma amadora pelas próprias oficinas do jornal católico Le Vingtième Siècle. A demanda era gigantesca, mas a estrutura do jornal não conseguia dar conta das reimpressões e da distribuição nacional e internacional. Os irmãos Casterman perceberam o potencial, mas operavam com extrema cautela, pois a editora ainda era muito ligada a publicações religiosas e tradicionais. O foco inicial de Louis e Gérard não era criar novas histórias, mas sim adquirir os direitos de reprodução em formato de álbum de luxo que já fazia sucesso nos jornais. Eles ofereceram a Hergé uma infraestrutura industrial de ponta instalada em Tournai, prometendo capas duras, melhor papel e distribuição profissional em toda a França e Bélgica. O contrato foi assinado em 1934, começando com o álbum Os Charutos do Faraó. O relacionamento começou a se tensionar no final dos anos 1930 e início dos anos 1940 devido a visões editoriais opostas: A Visão de Hergé: O autor queria que seus álbuns fossem coloridos para competir com as histórias da Disney e o mercado americano nascente. Ele exigia páginas vibrantes e dinâmicas. A Visão dos Irmãos Casterman: Louis e Gérard resistiam fortemente. Colorir as páginas encarecia brutalmente o processo de impressão em rotogravura. Eles argumentavam que o custo maior reduziria as vendas no mercado europeu, que ainda se recuperava de crises econômicas. A virada definitiva nos bastidores ocorreu em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, sob racionamento severo de papel. Diante da escassez de insumos, os irmãos Casterman propuseram um ultimato técnico a Hergé: Eles aceitariam imprimir em cores. Em troca, Hergé teria que redesenhar e reduzir drasticamente o tamanho de suas histórias anteriores (que tinham até 120 páginas em preto e branco) para um formato padrão estrito de 62 páginas. Hergé aceitou o desafio técnico. Essa formatação industrial imposta pela Casterman para economizar papel definiu o padrão clássico de 64 páginas (incluindo guarda e folha de rosto) que grande parte da indústria europeia de quadrinhos utiliza até os dias de hoje. Impulsionada pelo sucesso mundial de As Aventuras de Tintim e Quick e Flupke (Rápido e Flupke) de Hergé, a editora Casterman investiu em novas séries de sucesso, como Alix e Lefranc de Jacques Martin, Chevalier Ardent (O Cavaleiro Ardente) e Les 4 As (Os 4 As) de François Craenhals, além da carismática série Petzi (conhecida internacionalmente, criada pelo casal C. & V. Hansen). A partir de 1954, a Casterman expandiu seu catálogo infantil, destacando-se a bem-sucedida série Martine (no Brasil, muitas vezes conhecida como Martinha), de Marcel Marlier, e a coleção educativa Cadet-Rama, que incluía as séries Achille et Bergamote (Aquiles e Bergamota) e Petit Tom, escritas por Alain Greé. Desejando atrair um público mais maduro, a Casterman decidiu, em 1973, publicar os álbuns da série Corto Maltese, do autor italiano Hugo Pratt. Além disso, em 1978, a editora lançou a influente revista mensal À Suivre (A Seguir), que se tornou um pilar do renascimento dos quadrinhos na década de 1980, revelando autores como Tardi, Schuiten e Geluck, mantendo a publicação até 1997. Após séculos sob controle familiar, a Casterman foi comprada pelo grupo francês Flammarion em 1999. Em 2012, o Groupe Madrigall (controlado por Antoine Gallimard) adquiriu a Flammarion por €251 milhões, levando todo o catálogo da Casterman junto. Com o euro cotado a 5,82, o montante equivale a R$ 1.460.820.000,00 (Um bilhão, quatrocentos e sessenta milhões, oitocentos e vinte mil reais). O Groupe Madrigall é o terceiro maior grupo editorial frânces. Como também é dono das renomadas Éditions Gallimard, a Casterman atua de forma integrada a esse império literário franco-belga. Alex

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog