Como o Novo Jornalismo Transformou a Realidade em Literatura: A Ascensão e o Declínio do Novo Jornalismo
O Novo Jornalismo é um estilo de escrita jornalística que se desenvolveu nas décadas de 1960 e 1970, utilizando técnicas literárias anteriormente consideradas não convencionais em contextos noticiosos.
Tom Wolfe (1930–2018), um praticante e principal defensor do Novo Jornalismo, escreveu em pelo menos dois artigos em 1972 que não tinha ideia de onde ele começou.
Tentando esclarecer a questão, o crítico literário Seymour Krim (1922–1989) ofereceu sua explicação em 1973. "Tenho certeza de que [Pete] Hamill (1935–2020) utilizou a expressão pela primeira vez. Por volta de abril de 1965, ele me ligou na revista Nugget, onde eu era diretor editorial, e me disse querer escrever um artigo sobre o novo Novo Jornalismo. Seria sobre as coisas interessantes que estavam sendo feitas no antigo gênero de reportagem por [Gay] Talese (1932–presente), Wolfe e Jimmy Breslin (1928–2017). Ele nunca escreveu o artigo, até onde sei, mas comecei a utilizar a expressão em conversas e na escrita. Ela foi adotada e pegou."
Apesar da incerteza do próprio termo, há evidências de experimentação literária no início da década de 1960. Norman Mailer (1923 –2007) escreveu seu primeiro ensaio político "Superman Comes to the Supermarket" sobre a nomeação de John F. Kennedy em 1960. O texto estabeleceu um precedente que Mailer desenvolveria posteriormente no seu romance de não ficção Miami e Chicago: Uma História Informal das Convenções Republicana e Democrata de 1968, que aborda asconvenções políticas nacionais dos partidos Republicano e Democrata de 1968 e os protestos contra a Guerra do Vietnã que as acompanharam.
Wolfe escreveu que seu primeiro contato com um novo estilo de reportagem ocorreu em um artigo de 1962 da Esquire sobre Joe Louis, escrito por Gay Talese: "Joe Louis aos Cinquenta" não era como um artigo de revista; era como um conto que iniciava um confronto íntimo entre Louis e sua terceira esposa. Wolfe disse que Talese foi o primeiro a aplicar técnicas de ficção à reportagem.
A Esquire reivindicou o crédito como o berço dessas novas técnicas. O editor da Esquire de 1963 a 1973, Harold Hayes (1926 – 1989), escreveu mais tarde que "nos anos 1960, os eventos pareciam se mover rápido demais para permitir que o processo osmótico da arte acompanhasse, e quando encontrávamos um bom romancista, imediatamente procurávamos seduzi-lo com os doces mistérios dos eventos atuais".
Logo, outros, notadamente a New York Magazine, seguiram o exemplo da Esquire, e o estilo acabou chegando a outras revistas e depois a livros.
Grande parte das críticas favoráveis ao Novo Jornalismo vieram dos próprios escritores. Talese e Wolfe afirmaram que, embora o que escreviam pudesse parecer ficção, era de fato reportagem. "Reportagem factual, trabalho de campo", chamou Talese.
Wolfe, na Esquire de dezembro de 1972, saudou a substituição do romance pelo Novo Jornalismo como o "evento principal" da literatura e detalhou os pontos de semelhança e contraste entre o Novo Jornalismo e o romance. As quatro técnicas de realismo que ele e os outros Novos Jornalistas empregavam, escreveu ele, eram domínio exclusivo de romancistas e outros literatos. São elas: construção cena a cena, registro completo do diálogo, ponto de vista em terceira pessoa e os múltiplos detalhes incidentais para completar o personagem (ou seja, detalhes descritivos).
O resultado:"... é uma escrita que não é meramente um romance. Ela consome recursos que por acaso se originaram com o romance e os mistura com todos os outros recursos conhecidos da prosa. E, ao mesmo tempo, muito além das questões de técnica, ela desfruta de uma vantagem tão óbvia, tão intrínseca, que quase nos esquecemos do seu poder: o simples fato de o leitor saber que tudo isso realmente aconteceu. As ressalvas foram apagadas. A cortina desapareceu. O escritor está um passo mais perto do envolvimento absoluto do leitor com que Henry James e James Joyce sonharam, mas nunca alcançaram."
A principal diferença entre a nova não-ficção e o jornalismo convencional é que a unidade básica do jornalismo deixou de ser o dado ou a informação, mas sim a cena. A cena é o que está por detrás das “estratégias sofisticadas da prosa”.
O primeiro da nova geração de escritores de não ficção a receber ampla notoriedade foi Truman Capote (1924 – 1984), cujo best-seller de 1965, A Sangue Frio, traz uma narrativa detalhada do assassinato de uma família de fazendeiros do Kansas. Capote compilou material de cerca de 6.000 páginas de anotações. O livro trouxe ao seu autor fama instantânea. Capote anunciou que havia criado uma nova forma de arte que denominou "romance de não ficção".
"Sempre tive a teoria de que a reportagem é a grande forma de arte inexplorada... Tenho esta teoria de que um trabalho factual poderia explorar dimensões totalmente novas na escrita que teriam um efeito duplo que a ficção não tem — o próprio fato de ser verdadeiro, cada palavra sua ser verdadeira, acrescentaria uma dupla contribuição de força e impacto."
Capote continuou a enfatizar que era um artista literário, não um jornalista, mas os críticos aclamaram o livro como um exemplo clássico do Novo Jornalismo.
O livro de Wolfe, The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby, surgiu como uma espécie de manifesto para o gênero de não ficção. Em sua introdução, Wolfe escreveu que encontrou dificuldades para criar um artigo para a Esquire a partir de material sobre carros customizados em Los Angeles, em 1963. Percebendo que não conseguiria fazer justiça ao assunto no formato tradicional de revista, ele enviou uma carta ao seu editor, Byron Dobell. O texto se transformou em uma reportagem de 49 páginas detalhando o mundo dos automóveis customizados, repleta de construção de cenas, diálogos e descrições extravagantes. A Esquire publicou o material eliminando apenas o "Caro Byron". Esse texto é considerado o marco zero do estilo pessoal e barulhento de Wolfe e marcou a estreia definitiva do autor no Novo Jornalismo.
Em um artigo intitulado "The Personal Voice and the Impersonal Eye" ("A Voz Pessoal e o Olhar Impessoal"), o romancista, jornalista e roteirista Dan Wakefield (1932–2024) aclamou a não ficção de Capote e Wolfe por elevar o jornalismo ao nível da literatura. Ele classificou os trabalhos da dupla e alguns dos textos de não ficção de Norman Mailer como um avanço: uma reportagem "carregada com a energia da arte". Para Wakefield, esse novo gênero se definia ao reivindicar técnicas que antes eram território incontestável do romancista, como tensão, símbolo, cadência, ironia, prosódia e imaginação.
Anos depois, uma resenha de 1968 sobre os livros The Pump House Gang e The Electric Kool-Aid Acid Test, de Wolfe, afirmou que ele e Mailer estavam aplicando "os recursos imaginativos da ficção" ao mundo ao seu redor. A crítica denominou esse jornalismo criativo de "história" para denotar o profundo envolvimento dos autores com o que relatavam.
O próprio Gay Talese, em sua Nota do Autor de 1970 para Fame and Obscurity — uma coletânea de seus artigos da década de 1960 —, definiu bem o espírito do movimento: "O Novo Jornalismo, embora muitas vezes pareça ficção, não é ficção. É, ou deveria ser, tão confiável quanto a reportagem mais confiável, embora procure uma verdade maior do que a possível através da mera compilação de fatos verificáveis, da utilização de citações diretas e da adesão ao estilo organizacional rígido da forma mais antiga."
Publicado em 1970, o livro Shake It for the World, Smartass, de Seymour Krim (1922–1989) — cujo estilo de prosa "cru e introspectivo" era frequentemente associado aos escritores da Geração Beat —, tornou-se um marco para o movimento. A obra continha uma "Carta Aberta a Norman Mailer", que definia o Novo Jornalismo como "uma prosa não ficcional livre que utiliza todos os recursos da melhor ficção".
Em "O Jornal como Literatura/A Literatura como Liderança", Krim chamou o Novo Jornalismo de "a literatura de fato" da maioria, uma síntese que o posfácio do livro denominou "jornalismo-lit". Mais tarde, em seu ensaio de 1972, "Um Inimigo do Romance", ele identificou suas próprias raízes na ficção e declarou que as necessidades da época o obrigavam a ir além dela em busca de uma comunicação mais "direta", à qual prometia aplicar todas as ferramentas literárias disponíveis.
No primeiro de dois artigos detalhando o crescimento e as técnicas da nova não ficção, Tom Wolfe retornou às circunstâncias fortuitas que envolveram a criação de The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby e acrescentou: "Sua virtude residia precisamente em me mostrar a possibilidade de haver algo 'novo' no jornalismo. O que me interessava não era simplesmente a descoberta de que era possível escrever não ficção precisa com técnicas geralmente associadas a romances e contos. Era isso — e mais. Era a descoberta de que era possível, na não ficção, no jornalismo, usar qualquer recurso literário, desde os dialogismos tradicionais do ensaio até o fluxo de consciência..."
Na década de 1980, o uso do Novo Jornalismo entrou em declínio. Ainda assim, vários dos antigos pioneiros continuaram a utilizar técnicas de ficção em seus livros de não ficção. Por outro lado, os escritores mais jovens da Esquire e da Rolling Stone, revistas onde o estilo havia florescido nas duas décadas anteriores, começaram a se afastar do movimento. As técnicas de ficção não foram totalmente abandonadas por essa nova geração, mas passaram a ser usadas com mais parcimônia e de forma menos extravagante.
Em 1981, Joe Nocera (1952) publicou uma análise retrospectiva na Washington Monthly culpando as liberdades jornalísticas tomadas por Hunter S. Thompson pelo desgaste do modelo. Independentemente do real culpado, menos de uma década após a famosa antologia lançada por Wolfe em 1973, o consenso geral na mídia era de que o Novo Jornalismo estava morto.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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