A Era Hechter: O Renascimento do PSG O Paris Saint-Germain Football Club, também referido como Paris Saint-Germain, Paris SG, Paris ou simplesmente pela sigla PSG, viu seu destino mudar drasticamente após a cisão em maio de 1972. Enquanto o Paris FC manteve a vaga na Division 1 com o apoio da prefeitura, o PSG foi rebaixado administrativamente para a Division 3, mantendo a identidade, as cores e a paixão de seus fundadores. O PSG conquistou o acesso imediato à divisão de acesso com um elenco jovem, porém extremamente talentoso. A espinha dorsal da equipe contava com promessas como o zagueiro Éric Renaut, formado na própria academia de jovens do clube, e o meio-campista Jacques Laposte. No setor ofensivo, o brilho ficou por conta dos atacantes Othniel Dossevi e Michel Marella, além do ponta-de-lança Christian André, que se tornou o grande arquiteto da campanha ao balançar as redes 27 vezes em 35 partidas. Apesar do excelente desempenho, o clube terminou em segundo lugar no Grupo Oeste, seis pontos atrás do Quevilly, o que inicialmente significava a perda do acesso direto. No entanto, em uma reviravolta de bastidores, o Quevilly anunciou que desistiria da vaga logo após o término da temporada devido a graves dificuldades financeiras. Com isso, o PSG herdou o direito à vaga de forma automática, carimbando o seu passaporte para a Division 2. Anos de Daniel Hechter (1973–1978) Durante seus dois primeiros anos de existência, o PSG era propriedade dos torcedores, utilizando um sistema semelhante ao dos clubes espanhóis. Tudo mudou em 1972, quando ocorreu a divisão. Como resultado, o "Clube de Associados do PSG" (originalmente com 18.000 membros) entrou em colapso e o PSG começou a ter sérios problemas financeiros. O presidente do clube, Henri Patrelle, buscando financiamento, gradualmente entregou o controle a um grupo de ricos empresários franceses. Liderados pelo estilista Daniel Hechter, pelo famoso ator Jean-Paul Belmondo e pelo empresário Francis Borelli, eles financiaram o clube após sua promoção à segunda divisão em 1973. Hechter também desenhou o novo uniforme do PSG, conhecido como "Camisa Hechter". Disposto a transformar o PSG em uma potência nacional, o clube surpreendeu o futebol francês ao anunciar o lendário Just Fontaine como diretor esportivo. Dono do recorde absoluto de mais gols em uma única edição de Copa do Mundo (13 gols em 1958), Fontaine acumulava a função de dirigente com a de treinador de fato na beira do campo, liderando a comissão técnica. Sob o prestígio e o magnetismo de sua liderança, o PSG atraiu jogadores experientes da elite para encarar o desafio da segunda divisão. A defesa foi blindada com as chegadas do lateral-esquerdo Louis Cardiet e do robusto zagueiro central Jacky Bade. Para ditar o ritmo no setor de transição, o clube buscou o meio-campista Jean Deloffre, atleta de fina técnica e forte espírito coletivo. No entanto, o grande trunfo do projeto foi a contratação do meia-atacante Jean-Pierre Dogliani. Maestro criativo e de refinada visão de jogo, Dogliani assumiu a braçadeira de capitão e a mística camisa 10, tornando-se, de forma incontestável, a primeira grande estrela internacional da história do Paris Saint-Germain. O primeiro jogo do PSG no Parc des Princes foi contra o Estrela Vermelha em 10 de novembro de 1973, durante a temporada de 1973–74. Eles venceram por 3–1, o PSG também iniciou sua tradição de brilhantes partipações na Copa da França, chegando às quartas de final. Melhor ainda, terminaram em segundo lugar no Grupo B, quatro pontos atrás do Estrela Vermelha, classificando-se para os playoffs de acesso à Divison 1 contra o Valenciennes. O PSG perdeu por 2–1 no jogo de ida, mas protagonizou uma impressionante virada por 4–2 no Parc des Princes em 4 de junho de 1974 para garantir o acesso à primeira divisão. A Segunda Divisão Francesa, desde a sua criação, era constituída por dois grupos (A e B) com 18 clubes cada. Os vencedores de cada grupo conquistavam a promoção para a Primeira Divisão Francesa. Além disso, os vencedores se enfrentavam em um play-off de ida e volta para definir o campeão. O vencedor era coroado campeão e recebia o troféu. Enquanto isso, os segundos colocados de ambos os grupos se enfrentavam em um play-off de ida e volta, com o vencedor garantindo a última vaga de promoção. Por outro lado, os três últimos colocados de cada grupo eram rebaixados para a Terceira Divisão Francesa. Dominado pela emoção, Fontaine desmaiou no gramado. Felizmente, ele se recuperou e foi carregado nos braços dos jogadores para comemorar. Desde então, o PSG sempre jogou na primeira divisão do futebol francês. 5 dias após a promoção, Hechter, que até então era apenas presidente do comitê de gestão, substituiu Patrelle como presidente do clube. O destino reservou uma ironia marcante para o futebol da capital em 1974: enquanto o Paris FC naufragava rumo ao rebaixamento, o PSG carimbava sua promoção à elite. A virada de mesa nos gramados redesenhou o mapa da cidade, pois o PSG herdou o Parc des Princes como sua casa definitiva, estádio onde joga até hoje. Inaugurado em sua versão moderna em 1972, o Parc des Princes era o templo esportivo mais moderno da França, construído com uma icônica estrutura de concreto em formato de anel que amplificava a acústica da torcida. Assumir esse palco imponente simbolizou que o Paris Saint-Germain era, a partir dali, o verdadeiro dono de Paris. Com a nova casa garantida para a temporada 1974/1975, o presidente Daniel Hechter abriu os cofres e quebrou o recorde de transferências do futebol francês ao desembolsar 1,35 milhão de francos (o equivalente a cerca de 205 mil euros em valores corrigidos) para contratar o talentoso meia-atacante argelino Mustapha Dahleb. Jogando pelo lado esquerdo do ataque ou na armação das jogadas, Dahleb formou uma dupla devastadora com o letal centroavante congolês François M'Pelé. Juntos, a dupla de ataque balançou as redes 50 vezes na temporada. Apesar do poder de fogo ofensivo, a equipe sofria com a irregularidade defensiva e a falta de entrosamento coletivo, terminando o campeonato em um modesto 15º lugar. A atuação do clube na Copa da França foi o ponto alto da temporada. O PSG goleou o Sochaux por 5 a 0 no agregado nas oitavas de final, garantindo vaga para enfrentar o Olympique de Marseille nas quartas de final. Os parisienses visitaram o Stade Vélodrome como claros azarões. O Marseille vencia por dois gols até que M'Pelé marcou duas vezes, reacendendo as esperanças de classificação do PSG. Enfurecidos com o resultado, os torcedores do OM atacaram o ônibus do PSG. M'Pelé acredita que esta partida da copa é a verdadeira origem da rivalidade entre os dois clubes. No jogo de volta, o PSG venceu por 2 a 0 e chegou às semifinais, um feito inédito para um clube parisiense desde o Stade Français em 1965. Devido a um aperto no calendário da federação, a fase que tradicionalmente era jogada em partidas de ida e volta foi disputada, excepcionalmente, em jogo único e em campo neutro. O palco escolhido foi o Stade Auguste-Delaune, em Reims, no dia 7 de junho de 1975, o PSG foi derrotado por 3 a 2 na prorrogação. Grandes contratações, time no meio da tabela Apesar de uma ambiciosa campanha de contratações para a temporada 1975/1976, que incluiu a chegada de nomes consagrados como o zagueiro central português Humberto Coelho e o veloz ponta-direita camaronês Jean-Pierre Tokoto, o desempenho no campeonato nacional terminou em um modesto 14º lugar. O ano foi turbulento nos bastidores, marcado por um forte desentendimento entre o técnico Just Fontaine — que havia assumido oficialmente o comando à beira do gramado no lugar de Robert Vicot — e o capitão Jean-Pierre Dogliani. O racha no vestiário culminou em uma decisão drástica de Fontaine, que retirou a braçadeira de capitão do camisa 10 e maestro da equipe. Como ponto positivo dentro de campo, o Paris Saint-Germain confirmou sua força em torneios mata-mata ao alcançar as quartas de final da Copa da França pela terceira temporada consecutiva. Fora dos gramados, o clube deu o seu passo mais importante rumo ao futuro: a inauguração do seu primeiro centro de treinamento oficial para as categorias de base, em novembro de 1975, no lendário Camp des Loges. Os frutos dessa estrutura foram colhidos de forma imediata. O jogo de 21 de dezembro de 1975 contra o Stade de Reims, no Parc des Princes, foi um divisor de águas histórico por marcar o nascimento da "Geração de Ouro" da base do PSG. Foi nessa partida que o clube promoveu uma mudança drástica de filosofia política e esportiva, colocando os jovens formados no recém-inaugurado Camp des Loges para jogar. A partida ficou marcada pela estreia dos "Quatro Mosqueteiros" de uma só vez. O técnico Just Fontaine tomou a decisão ousada de lançar quatro promessas da base simultaneamente em campo contra um dos times mais tradicionais da França. Foram eles:Jean-Marc Pilorget (Zagueiro/Lateral, 17 anos) — que se tornaria o jogador com mais partidas pelo clube por mais de três décadas. Thierry Morin (Zagueiro/Lateral, 18 anos). Lionel Justier (Meio-campista, 19 anos).François Brisson (Atacante, 17 anos) — que entrou no segundo tempo. A escalação dos garotos foi a resposta direta de Just Fontaine e do presidente Daniel Hechter à crise nos bastidores. Para abrir espaço aos jovens, Fontaine barrou grandes estrelas do time ("os senadores", como Hechter os chamava de forma crítica). O caso mais emblemático foi o do craque e meia-atacante Jean-Pierre Dogliani, que além de perder a braçadeira de capitão perdeu a titularidade. Embora o PSG tenha perdido a partida por 3 a 2 — sofrendo inclusive um gol do lendário atacante argentino Carlos Bianchi, que jogava pelo Reims e mais tarde viraria ídolo em Paris —, o jogo foi celebrado como uma vitória institucional. Ao término da prtida, o presidente Daniel Hechter deu uma declaração profética que definiu o futuro do clube: "Nós ganhamos hoje. Não falo dos pontos perdidos, mas digo que ganhamos uma equipe. Hoje sabemos que não há mais espaço para os 'senadores' e que o PSG, com jovens tão talentosos, é um clube com futuro." Um novo capítulo começou na temporada de 1976–77; a primeira estrela do clube, Dogliani, se aposentou, enquanto o sérvio Velibor Vasović assumiu o comando como o primeiro treinador estrangeiro da história do PSG, desembarcando na capital francesa com a ambiciosa meta de classificar a equipe para as competições europeias. No entanto, a campanha foi desastrosa. Nem mesmo o brilho técnico do meia-atacante Mustapha Dahleb, que balançou as redes 26 vezes ao longo do ano, foi capaz de salvar a irregularidade coletiva do time, que amargou um modesto nono lugar na tabela. Frustrado por não cumprir o objetivo de colocar o clube no cenário continental, Vasović pediu demissão restando poucas rodadas para o encerramento do campeonato. A diretoria agiu rápido e promoveu uma solução caseira: o ex-goleiro franco-iugoslavo Ilija Pantelić, assumiu o comando interino da equipe nas quatro partidas finais da temporada. Contratado para comandar o time na temporada 1977/1978, Jean-Michel Larqué havia acabado de pendurar as chuteiras quando assumiu. No entanto, após o fracasso nas negociações para contratar o meia-atacante Serge Chiesa, do Lyon, Larqué foi forçado a reativar sua inscrição como atleta e voltar aos gramados para preencher o vazio técnico no meio-campo. Com isso, ele entrou para a história como o segundo e último jogador-treinador do clube até hoje, repetindo o feito pioneiro de Pierre Phelipon na fundação do PSG. Apesar do pacotão de reforços estelares montado pelo presidente Daniel Hechter, que incluiu os zagueiros centrais Jean-Pierre Adams e o argentino Ramón Heredia, o Paris Saint-Germain foi irregular e terminou o campeonato em um decepcionante 11º lugar. O grande consolo e espetáculo daquela temporada ficou por conta do centroavante argentino Carlos Bianchi. Em seu ano de estreia, Bianchi justificou o investimento ao se transformar no artilheiro máximo da Division 1, anotando impressionantes 37 gols em 38 partidas — um recorde avassalador que coroou o goleador como a última grande e genial contratação da era Hechter no comando do clube. O ambicioso projeto de Daniel Hechter ruiu de forma dramática nos bastidores antes mesmo do término da temporada 1977/1978. Em dezembro de 1977, investigações revelaram que a diretoria do PSG havia estruturado um sofisticado esquema de bilheteria dupla no Parc des Princes. Uma porcentagem considerável do dinheiro arrecadado com a venda de ingressos não era registrada na contabilidade oficial do clube, sendo desviada para alimentar um fundo secreto. Essa "caixa preta" servia para pagar bônus informais e inflar os salários de estrelas do elenco para que permanecessem na capital. A crise estourou em janeiro de 1978. A Federação Francesa de Futebol agiu com rigor e anunciou a expulsão vitalícia de Daniel Hechter do esporte nacional (embora o dirigente tenha revertido a punição na justiça comum anos mais tarde). O escândalo quase provocou a falência e o desaparecimento completo do clube. Em meio ao caos político e sob o risco iminente de uma fusão forçada com o rival Paris FC, coube ao vice-presidente e também dirigente Francis Borelli assumir o controle total da presidência. O novo mandatário conseguiu blindar os vestiários e garantir a sobrevivência financeira do elenco liderado em campo pelos gols do centroavante argentino Carlos Bianchi e a liderança do meia-atacante Mustapha Dahleb, encerrando um ciclo turbulento que transformou para sempre a gestão do futebol parisiense. O PSG venceu o Marseille por 5 a 1 na última partida de Daniel Hechter como presidente no Parc des Princes naquele mês. Dahleb ofereceu a bola do jogo a Hechter após o apito final, e ele foi carregado triunfalmente nos braços dos jogadores enquanto os torcedores cantavam seu nome. No dia seguinte, Francis Borelli, assumiu a presidência. Alex

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog