A Experiência de George Orwell na Guerra Civil Espanhola
Eric Arthur Blair (25 de junho de 1903 – 21 de janeiro de 1950), mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell, foi um romancista, ensaísta, jornalista e crítico inglês. Sua obra caracteriza-se pela prosa clara e incisiva, pela crítica social, pela oposição ao totalitarismo e pela defesa do socialismo democrático. O autor adotou o pseudônimo George Orwell por ocasião da publicação de seu primeiro livro, Na Pior em Paris e Londres, em 1933. Desde então, apenas familiares e amigos muito próximos continuaram a chamá-lo por seu nome de batismo.
Orwell casou-se com Eileen O'Shaughnessy (1905–1945) em 9 de junho de 1936. Pouco depois, a crise política na Espanha agravou-se rapidamente, culminando na Guerra Civil Espanhola. Orwell acompanhou atentamente os acontecimentos e, no final daquele ano, decidiu viajar ao país para lutar ao lado das forças republicanas.
A Guerra Civil Espanhola foi um conflito armado travado entre 1936 e 1939, opondo os republicanos, defensores do governo da Segunda República Espanhola, aos nacionalistas liderados pelo general Francisco Franco (1892–1975). A guerra teve origem em profundas divisões políticas, sociais e econômicas, agravadas pela crescente polarização entre as forças de esquerda e de direita.
O conflito rapidamente adquiriu dimensão internacional. Os nacionalistas receberam apoio da Alemanha nazista e da Itália fascista, enquanto os republicanos contaram com o auxílio da União Soviética e das Brigadas Internacionais, formadas por voluntários de diversos países.
Em 23 de dezembro de 1936, Orwell partiu para a Espanha com o objetivo de alistar-se nas forças republicanas. Durante a viagem, fez uma parada em Paris, onde jantou com o escritor estadunidense Henry Miller (1891–1980), romancista, contista e ensaísta conhecido por romper com os modelos literários tradicionais. Autor de obras marcadas pelo caráter semiautobiográfico, pela crítica social, pelas reflexões filosóficas e pelo uso do fluxo de consciência, Miller também era conhecido por seu ceticismo em relação aos grandes ideais políticos de seu tempo.
Durante o encontro, Miller tentou demover Orwell da ideia de seguir para o front, afirmando que lutar na Guerra Civil por um sentimento de dever ou culpa era "pura estupidez". Segundo ele, as razões apresentadas por Orwell para combater — como enfrentar o fascismo e defender a democracia — eram "todas bobagens". Apesar do conselho, Orwell manteve sua decisão de seguir para a Espanha.
Alguns dias depois, já em Barcelona, Orwell encontrou-se com John McNair, representante do Escritório do Partido Trabalhista Independente (ILP). O governo republicano era sustentado por diversas organizações políticas e sindicais com objetivos frequentemente conflitantes, entre elas o Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), a Confederação Nacional do Trabalho (CNT), de orientação anarco-sindicalista, e o Partido Socialista Unificado da Catalunha, vinculado ao Partido Comunista da Espanha.
Orwell ficou inicialmente perplexo diante desse complexo mosaico de partidos, sindicatos e milícias. Como o ILP mantinha estreitas relações com o POUM, decidiu incorporar-se às suas fileiras.
Após um breve período no Quartel Lenin, em Barcelona, foi enviado para a relativamente tranquila Frente de Aragão, sob o comando do engenheiro e inventor Georges Kopp (1902–1951), de ascendência russa e formação na Bélgica. Em janeiro de 1937, encontrava-se na pequena localidade de Alcubierre, enfrentando o rigor do inverno aragonês. A atividade militar era reduzida, mas as condições de vida eram extremamente precárias. Orwell impressionou-se com a escassez de munição, alimentos, lenha e equipamentos básicos. Graças à experiência adquirida no Corpo de Cadetes e na Polícia Imperial Indiana, foi rapidamente promovido ao posto de cabo.
O Partido Trabalhista Independente britânico havia enviado apenas um pequeno contingente de voluntários para combater na Guerra Civil Espanhola. Cerca de três semanas depois, Orwell e outro miliciano inglês foram deslocados para Monte Oscuro e, posteriormente, para Huesca.
Enquanto isso, na Inglaterra, Eileen Orwell cuidava dos preparativos para a publicação de The Road to Wigan Pier antes de seguir para a Espanha. Durante sua ausência, deixou Nellie Limouzin responsável pela livraria The Stores. Já em Barcelona, Eileen ofereceu-se para trabalhar no escritório de John McNair. Com a ajuda de Georges Kopp, conseguia visitar Orwell sempre que possível, levando-lhe pequenas provisões muito apreciadas pelos soldados, como chá inglês, chocolate e charutos.
Após sofrer um ferimento na mão que infeccionou, Orwell precisou ser hospitalizado. Durante sua permanência no hospital, grande parte de seus pertences foi roubada por funcionários da instituição. Recuperado, retornou à linha de frente, onde participou de um ataque noturno contra as trincheiras nacionalistas. Na ação, perseguiu um soldado inimigo com uma baioneta e participou do bombardeio de uma posição ocupada por fuzileiros nacionalistas.
Em abril de 1937, Orwell regressou a Barcelona. Pretendia ser transferido para a frente de Madri, o que exigiria seu ingresso nas Brigadas Internacionais. Para isso, procurou um comunista ligado à Ajuda Médica Espanhola e expôs seu interesse. Embora nutrisse reservas em relação aos comunistas, ainda os considerava aliados na luta contra o fascismo. Essa percepção, entretanto, mudaria radicalmente nas semanas seguintes.
Em maio de 1937, enquanto Orwell permanecia em Barcelona, a cidade tornou-se palco dos chamados Dias de Maio, uma série de confrontos armados entre facções que integravam o próprio campo republicano. De um lado estavam militantes da CNT-FAI e do POUM, organização à qual Orwell estava vinculado; de outro, forças do governo republicano apoiadas pelo Partido Comunista da Espanha e por setores alinhados à União Soviética. Os confrontos tiveram início quando a Guarda de Assalto, apoiada pelo PSUC e por setores comunistas, tentou assumir o controle da Central Telefônica de Barcelona, então administrada pela CNT. A ação desencadeou intensos combates que rapidamente se espalharam por diversos bairros da cidade. Após vários dias de enfrentamentos, que deixaram centenas de mortos e feridos, os líderes anarquistas aceitaram um cessar-fogo para evitar um conflito ainda mais sangrento.
Durante esses acontecimentos, Orwell passou vários dias armado com um fuzil, defendendo o telhado de um cinema localizado em frente ao quartel-general do POUM. A experiência de testemunhar a violência entre antigos aliados e, sobretudo, de ver a imprensa comunista internacional distorcer os acontecimentos e acusar falsamente os membros do POUM de serem "espiões fascistas a serviço de Franco" causou-lhe profundo impacto.
Em vez de ingressar nas Brigadas Internacionais, como inicialmente pretendia, Orwell decidiu retornar à Frente de Aragão. Pouco depois do fim dos combates em Barcelona, foi novamente procurado pelo mesmo comunista que lhe perguntara sobre sua transferência. Orwell respondeu com ironia, demonstrando surpresa pelo fato de ainda desejarem sua incorporação, já que, segundo a imprensa comunista, ele e seus companheiros do POUM eram supostamente fascistas.
Após seu retorno à frente de batalha, Orwell foi ferido na garganta por um tiro disparado por um franco-atirador. Com 1,88 m de altura, era consideravelmente mais alto que a maioria dos combatentes espanhóis, o que o tornava um alvo mais visível. A bala passou muito próxima da artéria carótida, poupando sua vida por pouco, mas deixou sua voz quase inaudível durante a recuperação. Em 27 de maio de 1937, foi transferido para Tarragona e, dois dias depois, encaminhado para um sanatório mantido pelo POUM nos arredores de Barcelona, onde recebeu tratamento médico. Após sua recuperação, foi considerado inapto para retornar ao serviço militar.
Naquele momento, a situação política em Barcelona havia se deteriorado rapidamente. O conflito entre as diferentes correntes que compunham o campo republicano intensificou-se após os chamados Dias de Maio de 1937. Os comunistas alinhados à União Soviética passaram a perseguir organizações consideradas dissidentes, especialmente aquelas associadas ao trotskismo. O trotskismo, corrente política inspirada nas ideias de Leon Trotsky, defendia a revolução socialista internacional e criticava a burocratização da União Soviética sob Josef Stalin. Em resposta, o regime stalinista passou a tratar trotskistas e supostos simpatizantes como inimigos políticos, promovendo ampla repressão tanto na União Soviética quanto entre os movimentos de esquerda ligados à Internacional Comunista.
Nesse contexto, o POUM, embora fosse um partido marxista revolucionário independente, crítico de Stalin e também divergente de Leon Trotsky — que chegou a criticá-lo publicamente —, foi acusado pelos comunistas pró-soviéticos de manter vínculos com o trotskismo e declarado ilegal. Seus dirigentes e militantes passaram a ser perseguidos; muitos foram presos, entre eles Georges Kopp, enquanto outros precisaram se esconder. Orwell e sua esposa, Eileen, também passaram a ser procurados pelas autoridades e viveram por algum tempo na clandestinidade, chegando a sair do esconderijo apenas para tentar ajudar Kopp. Pouco depois, conseguiram escapar da Espanha de trem.
Na primeira semana de julho de 1937, Orwell e Eileen retornaram a Wallington. Em 13 de julho, um depoimento foi apresentado ao Tribunal de Espionagem e Alta Traição, em Valência, acusando o casal de "trotskismo fanático" e de atuar como agente do POUM. O julgamento dos dirigentes do partido e de Orwell, realizado à revelia deste, ocorreu em Barcelona entre outubro e novembro de 1938. Acompanhando os acontecimentos a partir do Marrocos Francês, Orwell escreveu que eles eram "apenas um subproduto dos julgamentos dos trotskistas russos" e que, desde o início, "todo tipo de mentira, incluindo absurdos flagrantes, foi divulgado na imprensa comunista".
Esses acontecimentos foram posteriormente narrados em detalhes em Homenagem à Catalunha e marcaram definitivamente a ruptura de Orwell com o stalinismo. A desilusão provocada pela perseguição política, pela manipulação da informação e pela repressão dentro do próprio campo republicano tornou-se uma das principais inspirações para suas obras mais conhecidas, A Revolução dos Bichos e 1984.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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