Hemingway: Entre a Literatura e os Campos de Batalha da Espanha Ernest Miller Hemingway (Oak Park, 21 de julho de 1899 — Ketchum, 2 de julho de 1961) foi um romancista, contista e jornalista estadunidense, considerado um dos escritores mais influentes do século XX. Autor de obras como O Sol Também se Levanta, Por Quem os Sinos Dobram e O Velho e o Mar — romance que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer em 1953 —, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Seu estilo conciso e objetivo, que definiu como a "teoria do iceberg", exerceu profunda influência sobre a literatura moderna, enquanto sua atuação como correspondente de guerra e seu espírito aventureiro contribuíram para consolidar sua projeção internacional. Hemingway acompanhava atentamente os acontecimentos políticos na Espanha desde o início da década de 1930, convencido de que a crescente radicalização política europeia levaria a um novo conflito de grandes proporções. O biógrafo Carlos Baker observa que o escritor previa a eclosão de uma nova guerra europeia no final da década de 1930, embora não imaginasse que a Espanha se transformaria em um verdadeiro campo de testes para a Alemanha nazista, a Itália fascista e a União Soviética. A Guerra Civil Espanhola foi um conflito armado travado entre 1936 e 1939, colocando de um lado os republicanos, defensores da Segunda República Espanhola, e, de outro, os nacionalistas, liderados pelo general Francisco Franco. A guerra teve origem nas profundas divisões políticas, sociais e econômicas que marcavam o país e foi intensificada pela crescente polarização entre grupos de esquerda e de direita. O conflito rapidamente adquiriu dimensão internacional. Os nacionalistas receberam amplo apoio militar da Alemanha nazista, governada por Adolf Hitler, e da Itália fascista, sob Benito Mussolini. Já os republicanos contaram principalmente com o auxílio da União Soviética e das Brigadas Internacionais, formadas por cerca de 35 mil voluntários de mais de cinquenta países que viajaram à Espanha para combater o avanço do fascismo. Apesar da resistência de sua esposa Pauline Pfeiffer, Hemingway assinou contrato com a North American Newspaper Alliance para atuar como correspondente na Guerra Civil Espanhola e embarcou de Nova York em 27 de fevereiro de 1937. Acompanhava-o a jornalista e escritora Martha Gellhorn (1908–1998), uma das mais renomadas correspondentes de guerra do século XX. Nascida em St. Louis, Gellhorn construiu uma carreira marcada pela cobertura de conflitos internacionais e pela defesa dos direitos humanos. Ela conhecera Hemingway em Key West, em 1936, e, assim como sua primeira esposa, Hadley Richardson, era natural de St. Louis; também compartilhava com Pauline Pfeiffer a experiência de ter trabalhado para a revista Vogue em Paris. Segundo o biógrafo Michael Kert, diferentemente das mulheres com quem Hemingway havia se relacionado anteriormente, Gellhorn nunca o tratou com deferência excessiva, mantendo uma postura independente e intelectualmente igualitária. Hemingway chegou à Espanha em março de 1937 ao lado do cineasta holandês Joris Ivens (1898–1989), um dos mais importantes documentaristas do século XX, conhecido por suas obras de forte conteúdo político e social. Ivens dirigia o documentário A Terra Espanhola (The Spanish Earth), produzido para sensibilizar a opinião pública internacional em favor da causa republicana durante a Guerra Civil Espanhola. Inicialmente, o roteiro do filme seria escrito pelo romancista estadunidense John Dos Passos (1896–1970), destacado representante da chamada Geração Perdida, grupo de escritores estadunidenses expatriados que viveu principalmente em Paris durante a década de 1920. A expressão, popularizada por Gertrude Stein e difundida por Ernest Hemingway, designa autores profundamente marcados pelos traumas da Primeira Guerra Mundial, cujas obras abordam temas como o desencanto, a crise de valores, a desilusão com a sociedade moderna e a busca por novos sentidos para a existência. Além de Dos Passos e Hemingway, integravam esse círculo escritores como F. Scott Fitzgerald e Ezra Pound. Contudo, Dos Passos abandonou o projeto após o desaparecimento de seu amigo José Robles Pazos (1897–1937), professor universitário, tradutor e intelectual espanhol que havia traduzido suas obras para o espanhol. Robles foi preso pelos serviços de segurança ligados aos comunistas soviéticos e posteriormente executado sob a acusação de espionagem, episódio que provocou profunda indignação em Dos Passos e o levou a rever sua posição em relação à República Espanhola. O caso também desencadeou um sério desentendimento entre Dos Passos e Hemingway, que, embora reconhecesse a gravidade do ocorrido, considerava que a derrota do fascismo deveria permanecer como prioridade. Com a saída de Dos Passos, Hemingway assumiu o roteiro de A Terra Espanhola. De volta aos Estados Unidos no verão de 1937, colaborou na preparação da narração do documentário, cuja exibição na Casa Branca, em julho daquele ano, teve como objetivo sensibilizar o presidente Franklin D. Roosevelt e setores da opinião pública norte-americana para a causa republicana. No final de agosto de 1937, Hemingway retornou à França e, em seguida, viajou de Paris para Barcelona e depois para Valência. Em setembro, visitou a frente de batalha em Belchite, palco de uma das mais intensas ofensivas republicanas daquele ano, e posteriormente seguiu para Teruel, cidade que meses depois seria cenário de uma das batalhas mais sangrentas da Guerra Civil Espanhola. Ao regressar a Madri, então submetida a constantes bombardeios do exército franquista e cercada desde o início da guerra, Hemingway escreveu sua única peça teatral, A Quinta Coluna (The Fifth Column), publicada em 1938. A obra retrata a atmosfera de tensão, espionagem e desconfiança vivida na capital espanhola durante o conflito. O título faz referência à expressão "quinta coluna", popularizada pelo general nacionalista Emilio Mola durante a ofensiva contra Madri em 1936. Segundo a versão mais difundida, Mola afirmou que, além das quatro colunas de tropas que avançavam sobre a cidade, existia uma "quinta coluna" formada por simpatizantes infiltrados em Madri, encarregados de realizar sabotagens, espionagem e ações de desestabilização em favor dos nacionalistas. Desde então, a expressão passou a designar grupos ou indivíduos que atuam secretamente em benefício de um inimigo, especialmente em tempos de guerra. Hemingway retornou a Key West em janeiro de 1938, onde permaneceu por alguns meses. O período foi marcado por dificuldades pessoais e profissionais. Enfrentou bloqueios criativos, preocupou-se com a recepção negativa de seu romance Ter e Não Ter (To Have and Have Not), viveu constantes desentendimentos com sua esposa, Pauline Pfeiffer, e acompanhou com crescente apreensão o desenrolar da Guerra Civil Espanhola, enquanto planejava retornar ao front. Ainda em 1938, realizou mais duas viagens à Espanha. Em novembro, visitou a região da Batalha do Ebro, a maior e última grande ofensiva lançada pelo Exército Republicano na tentativa de reverter o avanço nacionalista. Acompanhado por jornalistas britânicos e estadunidenses, encontrou a ponte que permitia a travessia do rio completamente destruída. O grupo foi obrigado a recuar atravessando as águas turbulentas do rio Ebro em um pequeno barco a remo, conduzido pelo próprio Hemingway, que, segundo testemunhas, remava vigorosamente para colocar todos em segurança. Com a guerra aproximando-se do desfecho, Hemingway iniciou 1939 retornando a Cuba em seu barco e instalou-se no Hotel Ambos Mundos, em Havana. Esse período marcou a lenta e dolorosa separação de Pauline Pfeiffer, iniciada quando o escritor conheceu e se envolveu com a jornalista Martha Gellhorn durante a cobertura da Guerra Civil Espanhola. Pouco tempo depois, Gellhorn juntou-se a ele, e o casal alugou a Finca Vigía ("Fazenda do Mirante"), propriedade de cerca de 61 mil metros quadrados localizada nos arredores de Havana, que se tornaria a residência de Hemingway pelos vinte anos seguintes. Naquele verão, o escritor reencontrou Pauline e os filhos em Wyoming, mas a separação tornou-se definitiva. Após a conclusão do divórcio, Hemingway e Martha Gellhorn casaram-se em 20 de novembro de 1940, na cidade de Cheyenne, Wyoming. A história do relacionamento entre Hemingway e Martha Gellhorn, marcada pela paixão, pelas viagens e pelos constantes conflitos provocados pela independência profissional de ambos e pelas frequentes separações impostas pela cobertura de guerras, inspirou o filme Hemingway & Gellhorn (2012), dirigido por Philip Kaufman. Estrelado por Clive Owen no papel de Hemingway e Nicole Kidman como Martha Gellhorn, o longa-metragem retrata o encontro do casal durante a Guerra Civil Espanhola, o casamento, a cobertura de diversos conflitos internacionais e o desgaste progressivo da relação. Hemingway manteve o hábito de alternar sua residência enquanto escrevia. Dividia seu tempo entre Cuba e o recém-inaugurado resort Sun Valley, em Idaho, onde deu continuidade à redação de Por Quem os Sinos Dobram (For Whom the Bell Tolls). O romance foi iniciado em março de 1939 e concluído em julho de 1940, sendo escrito em diferentes períodos passados em Cuba, Wyoming e Sun Valley. Publicado em outubro de 1940, foi selecionado pelo Book-of-the-Month Club, vendeu cerca de meio milhão de exemplares nos primeiros meses e recebeu indicação ao Prêmio Pulitzer. Segundo o biógrafo britânico Jeffrey Meyers (1939–), autor de uma das mais importantes biografias de Hemingway, a obra restabeleceu de forma triunfal a reputação literária do escritor, consolidando-o novamente entre os principais romancistas de sua geração. Em janeiro de 1941, Martha Gellhorn foi enviada à China como correspondente da revista Collier's. Hemingway acompanhou a esposa e enviou reportagens para o jornal PM, periódico progressista publicado em Nova York. Segundo Jeffrey Meyers, embora demonstrasse pouco entusiasmo pela viagem, seus artigos ofereceram análises perspicazes sobre a Guerra Sino-Japonesa e a expansão militar japonesa no Extremo Oriente. Já Michael Reynolds (1933–2019), professor da North Carolina State University e um dos maiores especialistas na vida e na obra de Hemingway, considera que essas reportagens revelam que o escritor compreendia a dimensão internacional do conflito asiático e percebia que a expansão japonesa inevitavelmente conduziria os Estados Unidos à guerra no Pacífico, previsão confirmada poucos meses depois com o ataque a Pearl Harbor. Em agosto de 1941, Hemingway retornou à Finca Vigía, em Cuba. No mês seguinte, viajou novamente para Sun Valley, onde prosseguiu com seus projetos literários enquanto acompanhava com crescente preocupação a escalada da Segunda Guerra Mundial. Nos anos seguintes, voltaria aos campos de batalha como correspondente de guerra, acompanhando alguns dos principais acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, experiência que influenciaria decisivamente sua produção literária do pós-guerra. Alex

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog