A Transição das Dinastias: O Início da Era Pahlavi O Golpe de Estado Persa de 1921, conhecido no Irã como golpe de Estado de 3 Esfand 1299 (segundo o calendário solar persa), refere-se aos acontecimentos que culminaram na deposição da dinastia Qajar e na ascensão da dinastia Pahlavi como casa governante da Pérsia em 1925. Ahmad Shah Qajar, o xá da Pérsia na época, havia sido coroado em 1909, aos onze anos de idade, e era frequentemente visto como um governante politicamente frágil, cuja autoridade foi profundamente enfraquecida pelas ocupações britânica, russa e otomana durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1911, quando Teerã foi ocupada por tropas russas, foram tribos Bakhtiari armadas — e não o exército regular persa — que expulsaram os invasores. Esse episódio contribuiu para desgastar ainda mais a imagem do governo, evidenciando sua incapacidade de exercer plenamente a autoridade sobre o país. Os Bakhtiari constituem uma das maiores, mais antigas e politicamente influentes tribos do Irã. Habitam a região montanhosa de Zagros, no oeste do país, abrangendo províncias como Chaharmahal e Bakhtiari e Khuzistão. O Movimento Jangal, iniciado em 1914, ganhou novo impulso após a vitória dos bolcheviques na Rússia. No final de 1920, a República Socialista Soviética Persa, sediada em Rasht, preparava-se para marchar sobre Teerã. A ofensiva contava com cerca de 1.500 combatentes, compostos por jangalis, curdos, armênios e azeris, reforçados pelo Exército Vermelho. Esse avanço, somado a uma onda de motins e agitações em diversas regiões do país, desencadeou uma grave crise política na capital. Também conhecida como República de Gilan, a República Socialista Soviética Persa foi um Estado soviético de curta duração e sem reconhecimento internacional, localizado no noroeste da Pérsia, ao sul do Mar Cáspio. Existiu entre junho de 1920 e setembro de 1921, tendo sido fundada por Mirza Kuchik Khan, líder do Movimento Constitucionalista de Gilan, com apoio político e assistência militar da Rússia Soviética. Em 1921, a Pérsia Qajar encontrava-se profundamente enfraquecida pela corrupção e pela ineficiência administrativa. Embora fosse uma nação rica em petróleo, dependia da Grã-Bretanha e do antigo Império Russo para apoio militar e econômico. As guerras civis que marcaram os primeiros anos da década agravaram ainda mais a instabilidade, e a única força militar regular do país era a Brigada Cossaca Persa. A Grã-Bretanha, que exercia grande influência na Pérsia, demonstrava crescente preocupação com a incapacidade do governo Qajar de administrar o país. Essa fragilidade tornou-se o pano de fundo da disputa geopolítica entre britânicos e soviéticos, ambos interessados em ampliar sua influência sobre a Pérsia. Em 14 de janeiro de 1921, o general britânico Edmund Ironside promoveu Reza Khan, então comandante do batalhão de Tabriz, ao comando de toda a Brigada Cossaca Persa. Cerca de um mês depois, sob orientação britânica, Reza Khan liderou um destacamento de aproximadamente 3.000 a 4.000 homens da Brigada Cossaca Persa, que marchou rumo a Teerã em 18 de fevereiro de 1921, encontrando pouca resistência. Na madrugada de 21 de fevereiro, as tropas entraram na capital. Apenas alguns policiais, surpreendidos pelo avanço, foram mortos ou feridos nos confrontos ocorridos no centro da cidade. Apoiado pelas tropas sob seu comando, Reza Khan liderou o golpe de Estado de fevereiro de 1921, que resultou na queda do gabinete em exercício. Em seguida, Ahmad Shah Qajar nomeou Seyyed Zia'eddin Tabatabaee como primeiro-ministro, enquanto Reza Khan assumiu o Ministério da Guerra. A partir desse cargo, passou a consolidar sua influência sobre as Forças Armadas e, gradualmente, sobre todo o governo persa, tornando-se a figura política mais poderosa do país. Em 26 de fevereiro de 1921, o novo governo persa assinou um Tratado de Amizade com a União Soviética, Estado sucessor do antigo Império Russo. O acordo representou uma ruptura com a política imperial russa, pois Moscou renunciou às concessões, privilégios extraterritoriais e propriedades herdadas do período czarista, incluindo ferrovias, portos e outras instalações mantidas na Pérsia. Em contrapartida, o tratado continha uma importante cláusula de segurança: a União Soviética reservava-se o direito de intervir militarmente em território persa caso uma potência estrangeira utilizasse o país como base para ameaçar sua segurança e o governo persa fosse incapaz de impedir essa ameaça. Embora apresentada como uma medida de autodefesa, essa disposição ampliava significativamente a influência soviética sobre a política externa persa e, anos mais tarde, serviria como uma das justificativas para a ocupação anglo-soviética do Irã em 1941. Antes do golpe de Estado de 1921, Ahmad Qavam, então governador da província de Khorasan, havia reafirmado sua lealdade à dinastia Qajar. Por se recusar a reconhecer o novo governo instaurado após o golpe, foi preso em Teerã por ordem das novas autoridades. Durante o período em que permaneceu encarcerado, desenvolveu profunda hostilidade contra o coronel Mohammad Taqi Pessian, comandante da gendarmaria em Khorasan e responsável por sua prisão. Em 25 de maio de 1921, o primeiro-ministro Seyyed Zia'eddin Tabatabaee foi destituído por decreto de Ahmad Shah Qajar. Pouco depois, Ahmad Qavam foi libertado e nomeado para chefiar o governo em seu lugar. A mudança representou uma importante reconfiguração política, pois afastava do poder o grupo responsável pelo golpe de fevereiro e fortalecia setores ligados à antiga elite administrativa. O coronel Pessian recusou-se a reconhecer a autoridade do novo primeiro-ministro. Convencido de que a nomeação de Qavam representava um abandono das reformas prometidas pelo movimento de 1921, organizou uma resistência em Khorasan. Contando com o apoio de parte da gendarmaria e de diversas tribos locais, iniciou uma rebelião contra o governo central, que acabaria derrotada alguns meses depois. Após a vitória das forças governamentais, Reza Khan ordenou que Pessian fosse decapitado e que sua cabeça fosse levada para Teerã como prova de sua morte, numa tentativa de desencorajar novas rebeliões. Enquanto isso, a campanha contra a República de Gilan foi iniciada no começo de julho de 1921 pela principal força cossaca, liderada por Vsevolod Starosselsky. Após uma operação conduzida pela gendarmaria sob o comando de Habibollah Khan Shiabani, as forças governamentais asseguraram o controle de Mazandaran e avançaram sobre Gilan. Em 20 de agosto, antes da chegada dos cossacos, os insurgentes abandonaram Rasht e recuaram em direção a Enzeli. Os cossacos ocuparam Rasht em 24 de agosto. Embora a perseguição aos insurgentes tenha sido bem-sucedida em Khomam e Pir Bazar, as tropas sofreram intenso bombardeio da artilharia da frota soviética no Mar Cáspio. Inicialmente, acreditou-se que toda a força de cerca de 700 homens liderada por Reza Khan havia sido destruída, mas posteriormente verificou-se que as baixas corresponderam a aproximadamente 10% do efetivo, enquanto o restante se dispersou durante o ataque. Em consequência, Starosselsky ordenou a evacuação de Rasht. A República Soviética de Gilan deixou oficialmente de existir em setembro de 1921. Mirza Kuchik Khan e seu companheiro alemão Gaook Hooshang, abandonados nas montanhas de Khalkhal, morreram congelados durante a fuga. A Revolta de Simko Shikak foi um levante armado liderado pelo líder curdo Simko Shikak, chefe da tribo Shekak, que se estendeu entre 1918 e 1922. O movimento surgiu em meio ao colapso da autoridade da dinastia Qajar após a Primeira Guerra Mundial, período marcado pela presença de tropas estrangeiras, disputas entre potências regionais e sucessivas crises políticas. Em diferentes momentos, Simko recebeu apoio do Império Otomano, que buscava ampliar sua influência sobre as regiões curdas da fronteira. Entre 1920 e 1922, Simko consolidou seu controle sobre partes do noroeste da Pérsia, desafiando diretamente o governo central. À frente de uma coalizão de guerreiros tribais curdos, recusou-se a reconhecer a autoridade de Teerã e passou a administrar os territórios sob seu domínio de forma praticamente autônoma. Embora a revolta fosse motivada principalmente pelos interesses políticos e pela autonomia da tribo Shekak, ela também passou a ser associada às aspirações nacionalistas de parte da população curda. O movimento foi finalmente derrotado durante a campanha de centralização conduzida por Reza Khan, que restabeleceu o controle do governo sobre a região. Após o golpe de Estado de 1921, o governo central voltou-se para a consolidação de sua autoridade sobre as províncias que desfrutavam de ampla autonomia. Um dos principais focos de tensão surgiu com o Emirado de Muhammara, governado pelo xeque Khaz'al al-Ka'bi, que exercia grande influência sobre o Khuzistão e mantinha estreitas relações com os britânicos. Em 1924, a disputa culminou na Revolta do Sheikh Khazal. Temendo perder sua autonomia diante da política de centralização conduzida por Reza Khan, Khaz'al tentou organizar uma resistência armada com o apoio de aliados tribais. O governo respondeu rapidamente, cercando o emirado e prendendo o xeque praticamente sem combate. Khaz'al foi então levado para Teerã, onde permaneceu em prisão domiciliar até sua morte. A derrota da rebelião consolidou o controle de Teerã sobre o Khuzistão e representou um importante passo no processo de construção de um Estado centralizado. No ano seguinte, em 1925, a Assembleia Constituinte destituiu formalmente a dinastia Qajar e proclamou Reza Khan como xá. Ao adotar o sobrenome Pahlavi, fundou a dinastia que governaria o Irã até a Revolução Iraniana de 1979. Durante seu reinado, promoveu profundas reformas administrativas, militares e econômicas, concentrando o poder nas mãos do governo central e reduzindo a autonomia de chefes tribais e lideranças regionais. Após a Revolução Iraniana de 1979, a monarquia foi abolida e substituída pela República Islâmica do Irã, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini. Nesse contexto, o coronel Mohammad Taqi Pessian passou a ser celebrado por parte da historiografia iraniana e de alguns setores ligados à Revolução Islâmica como um precursor da resistência ao autoritarismo, embora suas convicções fossem essencialmente nacionalistas e seculares, em contraste com o caráter religioso do novo regime. Alex

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