Da Pobreza de Gori ao Seminário Ioseb Besarionis dze Jughashvili nasceu em 18 de dezembro de 1878 (6 de dezembro no calendário juliano), na cidade de Gori, no que hoje é a Geórgia. Foi batizado em 29 de dezembro de 1878 (17 de dezembro no calendário juliano). Seus pais eram Ekaterine (Keke) e Besarion Jughashvili (Beso). Era o terceiro filho do casal; os dois primeiros, Mikheil e Giorgi, morreram ainda na infância. Seu pai, Besarion, era sapateiro e possuía uma oficina que, em determinado momento, chegou a empregar dez pessoas. Com o passar dos anos, porém, o negócio entrou em decadência. Beso especializou-se na produção de calçados tradicionais georgianos e não acompanhou a crescente popularidade dos sapatos de estilo europeu. A crise econômica, somada à morte de seus dois filhos, contribuiu para seu mergulho no alcoolismo. A família passou a viver em extrema pobreza e mudou-se sucessivamente para nove quartos alugados ao longo de dez anos. Besarion tornou-se violento com a esposa e o filho. Para escapar do ambiente abusivo, Keke levou Ioseb para a casa de um amigo da família, o padre Christopher Charkviani. Ela trabalhou como faxineira e lavadeira para famílias que se compadeciam de sua situação. Keke era uma mãe rigorosa, mas afetuosa e profundamente religiosa. Ela e o filho frequentavam regularmente os cultos da Igreja Ortodoxa. Em 1884, Ioseb contraiu varíola, doença que deixou marcas permanentes em seu rosto. Os filhos adolescentes de Charkviani ensinaram-lhe a língua russa. Determinada a proporcionar ao filho uma educação que ninguém da família havia recebido, Keke conseguiu matriculá-lo, no final de 1888, na Escola da Igreja de Gori. A vaga normalmente era reservada aos filhos do clero, mas Charkviani alegou que o menino era filho de um diácono. Esse episódio talvez explique por que Stalin afirmaria, décadas depois, ser filho de um padre. Na região, circulavam rumores de que Beso não era seu verdadeiro pai, rumores que o próprio Stalin mais tarde alimentaria. Apesar da pobreza, Keke fazia questão de que o filho estivesse bem vestido para ir à escola, provavelmente com ajuda financeira de amigos da família. Quando criança, Ioseb demonstrava comportamentos peculiares; quando estava feliz, pulava em uma perna só, estalava os dedos e gritava alto. Destacava-se nos estudos e mostrava talento para pintura e teatro. Ainda menino, começou a escrever poesia e tornou-se admirador do escritor nacionalista georgiano Raphael Eristavi (1824–1901). Eristavi retratava a vida e os costumes do povo georgiano em poemas, contos, peças teatrais e ensaios etnográficos. Muito popular em sua época, teve posteriormente sua obra incorporada ao patrimônio cultural da Geórgia. Sua irmã, Barbare Jorjadze, é considerada a primeira feminista georgiana e autora do influente livro de culinária Georgian Cuisine and Tried Housekeeping Notes. Ioseb também cantava no coro da igreja e em casamentos . Um amigo de infância lembraria mais tarde que ele era “o melhor, mas também o aluno mais travesso da classe”. Formou uma pequena gangue com colegas e envolvia-se frequentemente em brigas. Em certa ocasião, acendeu cartuchos explosivos em uma loja; em outra, amarrou uma panela ao rabo do gato de uma vizinha. Aos doze anos, sofreu um grave acidente ao ser atropelado por uma faetonte, carruagem esportiva aberta muito comum entre o final do século XVIII e o início do XIX. Hospitalizado em Tbilisi por vários meses, ficou com uma deficiência permanente no braço esquerdo. Pouco depois, seu pai o levou à força para trabalhar como aprendiz de sapateiro em uma fábrica, a única experiência operária de sua vida. Segundo o biógrafo Robert Service, esse foi seu primeiro contato direto com o capitalismo industrial e lhe pareceu “bruto, duro e desanimador”. Padres de Gori conseguiram resgatá-lo, e Beso rompeu definitivamente os laços com a esposa e o filho. Em fevereiro de 1892, professores levaram os alunos para assistir ao enforcamento público de bandidos camponeses. Ioseb e seus amigos simpatizaram com os condenados, e o episódio lhe causou profunda impressão. Nessa época, passou a desejar tornar-se administrador local para enfrentar a pobreza que observava em Gori. Embora tivesse recebido educação cristã, gradualmente perdeu a fé. O contato com a teoria da evolução, por meio de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, e suas reflexões sobre o problema do mal contribuíram para sua adoção do ateísmo. O problema do mal questiona como o sofrimento pode existir em um mundo criado por um Deus ao mesmo tempo onipotente, onisciente e perfeitamente bom. A formulação clássica é atribuída ao filósofo grego Epicuro (341–270 a.C.). Segundo a interpretação mais conhecida de seu argumento, se Deus quer eliminar o mal e não consegue, não é onipotente; se consegue, mas não quer, não é perfeitamente bom; se quer e pode, por que o mal existe? E, se não quer nem pode, por que chamá-lo de Deus? Esse raciocínio, conhecido como paradoxo de Epicuro, tornou-se uma das críticas filosóficas mais influentes à concepção tradicional de Deus. Seminário de Tbilisi (1893–1899) Em julho de 1893, Ioseb foi aprovado nos exames e recomendado ao Seminário de Tiflis. Para um jovem pobre, o seminário representava a melhor oportunidade educacional disponível. Keke mudou-se com o filho para Tbilisi, onde alugaram um quarto. Ele obteve uma bolsa parcial e pagaria uma taxa reduzida de quarenta rublos anuais. Não existe conversão exata para valores atuais, mas tratava-se de uma quantia elevada para uma família pobre da Geórgia do fim do século XIX, o que sugere nova ajuda financeira de amigos da família. Matriculou-se oficialmente em agosto de 1894. O seminário abrigava cerca de seiscentos alunos em dormitórios coletivos. Por ter dezesseis anos, era três anos mais velho que a maioria dos estudantes do primeiro ano. Mais uma vez, destacou-se academicamente. Estudava literatura russa, história secular, matemática, latim, grego, canto eclesiástico eslavo, canto georgiano imerético e Sagrada Escritura. Nos anos seguintes, o currículo incluía história eclesiástica, liturgia, homilética, teologia comparada, teologia moral, prática pastoral, didática e canto sacro. Para complementar a renda, cantava em um coral e, nas férias, retornava a Gori para visitar a mãe. Tbilisi era uma cidade multiétnica na qual os georgianos constituíam minoria. O seminário era controlado pela Igreja Ortodoxa Georgiana, subordinada à Igreja Ortodoxa Russa e às autoridades eclesiásticas de São Petersburgo. Muitos padres eram reacionários, antissemitas e defensores do nacionalismo russo. O uso da língua georgiana era desencorajado, e os alunos eram obrigados a falar russo. Ioseb, contudo, mantinha forte orgulho de sua identidade georgiana. Continuou escrevendo poesia e levou alguns poemas ao jornal Iveria. O editor Ilia Chavchavadze (1837–1907), principal líder do renascimento nacional georgiano, apreciou os textos e providenciou a publicação de cinco deles sob o pseudônimo “Soselo”. Os poemas tratavam de natureza, terra natal e patriotismo. O historiador Simon Sebag Montefiore os considerou “clássicos georgianos menores”, destacando a delicadeza de sua linguagem. Robert Service também elogiou a pureza do georgiano empregado nesses versos. Com o passar do tempo, Ioseb perdeu o interesse por parte dos estudos e suas notas começaram a cair. Deixou o cabelo crescer em desafio às regras do seminário. Os registros da instituição mencionam que ele se declarava ateu, conversava durante as aulas, chegava atrasado às refeições e se recusava a tirar o chapéu diante dos monges. Por esse comportamento, foi repetidamente punido com confinamento em cela disciplinar. Ingressou na Biblioteca Barata, um clube de leitura proibido dentro do seminário. Leu autores como Émile Zola, Nikolai Gogol, Anton Tchekhov, Liev Tolstói, Balzac, Maupassant e William Thackeray. Entre as obras que mais o influenciaram estavam Que Fazer?, de Nikolai Chernyshevsky, e O Parricídio, de Alexander Kazbegi, cujo protagonista inspirou o apelido “Koba”. Também estudou Platão e obras de história russa e francesa. O apelido “Koba” pode ter sido ainda uma homenagem a Yakobi “Koba” Egnatashvili, benfeitor que ajudou a financiar seus estudos. Nessa fase, leu O Capital, de Karl Marx, e tentou aprender alemão para acessar diretamente os textos de Marx e Friedrich Engels. O marxismo ofereceu-lhe uma nova interpretação do mundo e ganhava força na Geórgia como uma das correntes socialistas de oposição ao regime czarista. À noite, participava de reuniões clandestinas de trabalhadores, muitos deles russos. Conheceu Silibistro “Silva” Jibladze, fundador marxista do grupo socialista georgiano Mesame Dasi (“Terceiro Grupo”). Um de seus poemas foi publicado no jornal do movimento, Kvali. Ioseb considerava moderados muitos socialistas do Império Russo, mas admirava especialmente os escritos de um marxista conhecido pelo pseudônimo “Tulin”: Vladimir Lenin. Em abril de 1899, deixou o seminário ao final do período letivo e jamais retornou, embora a instituição o incentivasse a fazê-lo. Anos depois, procurou apresentar sua saída como uma expulsão motivada por atividades revolucionárias, conferindo ao episódio um caráter mais heroico. A casa onde Stalin nasceu e ele na época de seminário. Alex

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