Star Trek e As Viagens de Gulliver: da sátira de Jonathan Swift à ficção científica de Gene Roddenberry
Star Trek (Brasil: Jornada nas Estrelas) é uma franquia de ficção científica criada pelo roteirista e produtor de televisão estadunidense Gene Roddenberry (1921–1991).
A franquia teve início em 1966, com a série de televisão originalmente intitulada simplesmente Star Trek, posteriormente conhecida como Star Trek: The Original Series. A produção deu origem a diversas séries derivadas e filmes e se transformou em um fenômeno mundial da cultura pop. Desde então, Star Trek expandiu-se para praticamente todos os meios de entretenimento, incluindo cinema, televisão, livros, revistas, brinquedos, jogos eletrônicos e histórias em quadrinhos, tornando-se uma das franquias de ficção científica mais reconhecidas da história.
No início de 1964, Roddenberry apresentou à Desilu Productions um breve tratamento para uma série de televisão que descreveu como “uma caravana para as estrelas”. A chefe do estúdio, Lucille Ball, teve papel fundamental na aprovação do projeto. A Desilu trabalhou com Roddenberry no desenvolvimento do tratamento e do roteiro, que posteriormente foi apresentado à NBC.
Um tratamento é um texto em prosa elaborado durante o desenvolvimento de um filme ou programa de televisão, geralmente entre a concepção inicial da história e o primeiro rascunho do roteiro. É normalmente mais detalhado que uma sinopse e apresenta os principais acontecimentos da narrativa, podendo também indicar personagens, estrutura e elementos de estilo. Em adaptações, o tratamento pode servir como etapa intermediária entre a obra original e o roteiro.
Embora Roddenberry tivesse concebido Star Trek como uma espécie de faroeste no espaço, sintetizado na expressão “caravana para as estrelas”, ele confidenciou a amigos que também estava se inspirando em As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. A intenção era que os episódios funcionassem em dois níveis: como histórias de aventura e suspense e, simultaneamente, como parábolas capazes de abordar questões morais, políticas e sociais.
Jonathan Swift e As Viagens de Gulliver
Jonathan Swift (1667–1745) foi um escritor, poeta, ensaísta e clérigo anglo-irlandês, considerado um dos grandes satiristas da literatura em língua inglesa. Nascido em Dublin, desenvolveu grande parte de sua carreira literária na Inglaterra e na Irlanda e ficou conhecido por sua crítica à política, à sociedade e às instituições de seu tempo. Entre suas obras mais importantes estão A Tale of a Tub (1704), The Battle of the Books (1704) e, principalmente, As Viagens de Gulliver (Gulliver's Travels), publicada em 1726.
As Viagens de Gulliver acompanha Lemuel Gulliver, um médico e viajante que participa de diversas expedições marítimas e acaba chegando a terras desconhecidas. Em cada viagem, ele entra em contato com sociedades muito diferentes da europeia, permitindo a Swift utilizar mundos imaginários para satirizar comportamentos, instituições e conflitos de sua própria época.
Na primeira viagem, Gulliver chega a Lilipute, uma terra habitada por pessoas minúsculas. Apesar de sua pequena estatura, os liliputianos possuem disputas políticas, guerras e ambições semelhantes às dos grandes Estados europeus. Swift utiliza essa sociedade para ridicularizar a política, as rivalidades e as guerras de seu tempo.
Na segunda viagem, Gulliver chega a Brobdingnag, uma terra habitada por gigantes. Dessa vez, é o próprio Gulliver que se torna minúsculo. A mudança de perspectiva permite a Swift inverter a relação de poder e apresentar uma visão crítica da humanidade europeia. O rei de Brobdingnag, ao ouvir Gulliver descrever a sociedade e as armas da Europa, demonstra horror diante da violência e da corrupção que ele considera características daquela civilização.
Na terceira viagem, Gulliver visita diferentes lugares, entre eles Laputa, uma ilha voadora habitada por estudiosos e cientistas excessivamente dedicados a especulações abstratas. Swift satiriza, entre outras coisas, o conhecimento divorciado da realidade prática e determinadas formas de pretensão intelectual. Gulliver também conhece outras sociedades, cada uma servindo a diferentes aspectos da sátira do autor.
Na quarta e última viagem, Gulliver encontra os houyhnhnms, seres semelhantes a cavalos dotados de razão, que vivem em uma sociedade aparentemente racional e disciplinada. Eles dominam os yahoos, criaturas semelhantes aos seres humanos e apresentadas como seres dominados pela ganância, violência e impulsos irracionais. Essa parte da obra é particularmente sombria e coloca em questão a própria natureza humana.
Assim, embora seja frequentemente lembrado como um livro de aventuras, As Viagens de Gulliver é fundamentalmente uma sátira política e social. Swift utiliza viagens a mundos imaginários para permitir que o leitor observe a sociedade humana a partir de perspectivas diferentes. O procedimento é semelhante ao que Roddenberry pretendia fazer com Star Trek: utilizar mundos distantes e sociedades alienígenas para discutir problemas existentes no mundo real.
A conexão é especialmente importante porque, em Star Trek, planetas e espécies alienígenas frequentemente funcionam como espelhos da humanidade. Ao colocar personagens humanos diante de culturas, sistemas políticos e formas de organização social diferentes, a série podia discutir questões contemporâneas sem necessariamente apresentá-las de maneira direta.
A maioria das histórias de Star Trek retrata as aventuras de humanos e alienígenas que servem na Frota Estelar, organização responsável pela exploração espacial e pela manutenção da paz dentro da Federação Unida de Planetas. Seus protagonistas geralmente defendem valores como cooperação, conhecimento, tolerância e respeito à vida, mas precisam aplicar esses princípios diante de dilemas complexos.
Muitos dos conflitos e das dimensões políticas de Star Trek funcionam como alegorias de questões culturais contemporâneas. A Série Original abordou problemas particularmente relevantes durante a década de 1960, enquanto as produções posteriores trataram de questões próprias de suas respectivas épocas. Entre os temas explorados estão guerra e paz, lealdade, autoritarismo, imperialismo, luta de classes, economia, racismo, religião, direitos humanos, sexismo, feminismo e o papel da tecnologia.
Roddenberry afirmou:
“[Ao criar] um novo mundo com novas regras, eu poderia fazer declarações sobre sexo, religião, Vietnã, política e mísseis intercontinentais. De fato, nós as fizemos em Jornada nas Estrelas: estávamos enviando mensagens e, felizmente, todas passaram pela emissora. Se você falasse sobre pessoas roxas em um planeta distante, eles (a emissora de televisão) nunca perceberiam. Eles estavam mais preocupados com decotes. Eles realmente enviavam um censor ao estúdio para medir o decote de uma mulher para garantir que não se mostrasse muito do seu seio.”
Roddenberry pretendia que a série tivesse uma orientação política progressista, refletindo aspectos da contracultura e dos movimentos sociais que ganhavam força nos Estados Unidos durante os anos 1960. Embora nem sempre pudesse apresentar essas ideias de maneira explícita à emissora, desejava mostrar aquilo em que a humanidade poderia se transformar caso aprendesse com os erros do passado, sobretudo abandonando a violência.
Um dos exemplos mais importantes são os vulcanos, uma espécie que, segundo a própria mitologia de Star Trek, havia vivido um passado marcado pela violência, mas posteriormente aprendera a controlar suas emoções por meio da lógica. A trajetória dos vulcanos servia, portanto, como uma representação da possibilidade de transformação da própria humanidade.
Roddenberry também incorporou à série uma forte mensagem antiguerra, apresentando a Federação Unida de Planetas como uma sociedade cooperativa e multicultural, frequentemente interpretada como uma visão idealizada de uma futura comunidade internacional. A diversidade da tripulação da USS Enterprise, por sua vez, era deliberadamente incomum para a televisão norte-americana da década de 1960.
Essas ideias, entretanto, encontraram resistência dentro da própria indústria televisiva. A emissora demonstrava preocupação com a comercialização da série e questionava algumas das escolhas de Roddenberry, entre elas a insistência em uma tripulação racialmente diversa. Ainda assim, Star Trek conseguiu transformar aquilo que poderia ter sido apenas uma série de aventuras espaciais em uma obra que, como As Viagens de Gulliver, utilizava mundos imaginários para falar sobre o mundo real.
Alex
Febrônio Índio do Brasil Febrônio Índio do Brasil (Jequitinhonha, 14 de janeiro de 1895 — Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1984) foi um assassino em série brasileiro, sendo o primeiro criminoso a ser julgado como louco no país. Nascido na cidade de São Miguel de Jequitinhonha, atual Jequitinhonha, estado de Minas Gerais. Era o segundo de catorze filhos do casal Theodoro Simões de Oliveira e Reginalda Ferreira de Mattos. Seu provável nome verdadeiro era Febrônio Ferreira de Mattos, mas ganhou fama como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz, pois assim se apresentava aos policiais, jornalistas, autoridades judiciárias e psiquiatras forenses. Seu pai, Thedorão, como era mais conhecido, trabalhava como lavrador, mas exercera durante algum tempo o ofício de açougueiro. Era alcoólatra e, com muita frequência, agredia violentamente sua esposa. Várias vezes, Febrônio presenciou os espancamentos de sua mãe. Thedorão era também violento com os filhos. Em 1907, aos 12 anos, Febrônio fugiu d...
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